“Como é bela a imagem da cruz!”

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Como é bela a imagem da cruz! A sua beleza não oferece mistura de mal e de bem, como outrora a árvore do jardim do Éden. Toda ela é admirável, «uma delícia para os olhos e desejável» (Gn 3,6). É uma árvore que dá a vida e não a morte; a luz e não a cegueira. Que leva a entrar no Éden e não a sair dele. Esta árvore, à qual Cristo subiu como um rei para o seu carro de triunfo, derrotou o diabo, que tinha o poder da morte, e libertou o género humano da escravidão do tirano. Foi sobre esta árvore que o Senhor, qual guerreiro de eleição, ferido nas mãos, nos pés e no seu divino peito, curou as cicatrizes do pecado, quer dizer, a nossa natureza ferida por Satanás.
Depois de termos sido mortos pelo madeiro, encontrámos a vida pelo madeiro; depois de termos sido enganados pelo madeiro, é pelo madeiro que repelimos a serpente enganadora. Que permutas surpreendentes! A vida em vez da morte, a imortalidade em vez da corrupção, a glória em vez da ignomínia. Por este motivo, o apóstolo Paulo exclamou: «Toda a minha glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo» (Gal 6,14). […] Mais do que qualquer sabedoria, esta sabedoria que floresceu na cruz tornou ignóbeis as pretensões da sabedoria do mundo (1Cor 1,17s). […]
Foi pela cruz que a morte foi morta e Adão restituído à vida. Foi pela cruz que todos os apóstolos foram glorificados, todos os mártires coroados, todos os santos santificados. Foi pela cruz que fomos reconduzidos como ovelhas de Cristo, e reunidos no redil do alto.

(São Teodoro Estudita)

Caminho espiritual a partir da infância de Cristo

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Quando José estava no exílio com o Menino e sua Mãe, soube pelo anjo, durante o sono, que Herodes tinha morrido; mas, ao ouvir dizer que seu filho Arquelau reinava no país, continuou a ter grande receio de que o Menino fosse morto. Herodes, que perseguia o Menino e queria matá-Lo, é o mundo que, sem dúvida alguma, mata o Menino, o mundo de onde é necessário fugir para O salvar. Mas, uma vez que se fugiu exteriormente do mundo [...], eis que Arquelau se levanta e reina: há ainda todo um mundo em ti, um mundo do qual não triunfarás sem muita aplicação e sem o socorro de Deus. 
Porque tens três inimigos fortes e encarniçados a vencer em ti, e só com dificuldade triunfarás deles. Serás atacado pelo orgulho do espírito: queres ser visto, considerado, escutado. O segundo inimigo é a tua própria carne, que te provoca pela impureza corporal e espiritual. O terceiro inimigo é aquele que te ataca, inspirando-te a malvadez, os pensamentos amargos, as suspeitas, os julgamentos malévolos, a raiva e os desejos de vingança. Queres tornar-te cada vez mais querido de Deus? Deves renunciar completamente a tais atitudes, porque tudo isso é Arquelau, o malvado. Receia e atenta, porque ele quer matar o Menino.
José foi avisado pelo anjo e chamado a regressar ao país de Israel. ‘Israel’ significa terra da visão; ‘Egito’ quer dizer trevas. Será durante o sono, é só no verdadeiro abandono e na verdadeira passividade, que receberás o convite para sair deles, tal como aconteceu a José. Podes então dirigir-te para a Galileia, que quer dizer passagem. Aí, estarás acima de todas as coisas, tudo atravessaste, e chegaste a Nazaré, a verdadeira floração, o país onde desabrocham flores para a vida eterna, onde se encontra o verdadeiro gosto da vida eterna; aí está toda a segurança, a paz inexprimível, a alegria e o repouso; só aí chegam os que se abandonam, os que se submetem a Deus até que Ele os liberte, e não procuram libertar-se a si mesmos pela violência. São esses os que alcançam a paz e a floração que é Nazaré, e aí encontram o que lhes dará a alegria eterna. Que tal seja a nossa partilha comum, que a isso nos ajude o nosso Deus, que é digno de todo o amor!

(Jean Tauler)

‘Quem poderá celebrar dignamente os louvores a Maria?’

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Nós te saudamos Maria, Mãe de Deus, tesouro escondido de todo o universo, astro sem declínio, coroa da virgindade, cetro da fé ortodoxa, templo indestrutível, morada do incomensurável, Mãe e Virgem, por quem é chamado ‘bendito’, nos santos evangelhos, ‘Aquele que vem em nome do Senhor’ (Mt,9; Sl 117,26).
Saudamos-te, a ti que levaste no teu seio virginal Aquele que os céus não podem conter. Graças a ti, a Trindade é glorificada e adorada em toda a terra; graças a ti, o céu exulta, os anjos e os arcanjos se alegram, os demónios são afugentados, o tentador caiu do céu, os homens decaídos são elevados ao céu. Graças a ti, o mundo inteiro, cativo da idolatria, chegou ao conhecimento da verdade, o santo Batismo é dado, com o ‘óleo da alegria’ (Sl 45,8), àqueles que acreditam, foram fundadas igrejas em todos o mundo, as nações pagãs foram levadas à conversão.
E que mais poderei dizer? Foi graças a ti que a luz do Filho único de Deus brilhou para ‘aqueles que viviam nas trevas e nas sombras da morte’ (Lc 1,79; Is 42,7). Quem poderá celebrar dignamente os louvores a Maria?
Ela é ao mesmo tempo mãe e virgem. Que maravilha! Quem jamais vez ouviu dizer que o construtor pudesse ser impedido de morar no templo que ele mesmo construiu? Quem ousaria criticar Aquele que dá à Sua serva (cf. LC 1,48) o título de mãe? Eis que assim o mundo inteiro se alegra. Que nos seja permitido, isto é, à santa Igreja, venerar e honrar a Trindade indivisa cantando louvores a Maria sempre Virgem e ao seu Filho e seu Esposo imaculado.

(São Cirilo de Alexandria)

O caminho da família

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No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se transmite dos pais aos filhos (cf 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf Heb 11, 11).
Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de crescimento da fé.

(Papa Francisco – Lumen Fidei)

Teu pastor

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Este doce e gentil pastor, que por 33 anos correu atrás da ovelha perdida e sem rumo, chamando-a até perder a voz e ferindo-se nos espinhos até derramar todo o seu sangue para trazê-la de volta dos despenhadeiros e veredas perigosas para um caminho santo e seguro, da perdição à saúde, da ferida ao remédio, da morte à vida, como poderia ficar indiferente à ovelha que o segue na obediência aos seus santos preceitos, ou que ao menos tem o desejo sincero (ainda que imperfeito e fraco) de o fazer? Como poderia não voltar para ela os Seus olhos de vida e misericórdia, ou, ao ouvir os seus gemidos, não a colocar amorosamente sobre os Seus ombros, alegrando-se com os anjos do céu pela volta do seu rebanho e pela troca do pasto venenoso e mortal do mundo pelo manjar suave e farto da virtude? Ele que, com tanto ardor e diligência, buscou a dracma perdida do evangelho, que é a figura do pecador, como poderia abandonar a quem, triste e aflito por não ver o seu pastor, o busca e o chama?

(Lorenzo Scupoli – O Combate Espiritual)

“Todos devem ter presente a perspectiva da morte”

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‘Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.» Estas palavras recordam-me a última chamada, que acontecerá no momento em que o Senhor quiser. Desejo segui-Lo e desejo que tudo o que faz parte da minha vida terrena me prepare para esse momento. Não sei quando Ele virá mas, como tudo, também deponho esse momento nas mãos da Mãe do meu Senhor: ‘totus tuus’. Nas mesmas mãos maternas deixo tudo e todos aqueles com os quais a minha vida e a minha vocação me puseram em contato. Nas suas mãos deixo sobretudo a Igreja, e também a minha nação e toda a humanidade. A todos agradeço. A todos peço perdão. Peço também orações, para que a misericórdia de Deus seja maior que a minha debilidade e indignidade (06/03/1979). […]
Todos devem ter presente a perspectiva da morte. E devem estar preparados para se apresentarem diante do Senhor e Juiz, que é ao mesmo tempo Redentor e Pai. Também eu tomo isto continuamente em consideração, entregando este momento decisivo à Mãe de Cristo e da Igreja, à Mãe da minha esperança. […]
Desejo mais uma vez confiar-me totalmente à vontade do Senhor. Ele mesmo decidirá quando e como devo terminar a minha vida terrena e o meu ministério pastoral. Na vida e na morte, ‘totus tuus’, pela Imaculada. Aceitando já agora esta morte, espero que Cristo me conceda a graça para a última passagem, isto é, a minha Páscoa. Espero também que a torne útil para esta causa suprema que procuro servir: a salvação dos homens, a salvaguarda da família humana e, nela, de todas as nações e de todos os povos (entre eles, o meu coração dirige-se de maneira particular para a minha Pátria terrena), ser útil para as pessoas que de modo particular me confiou, para a vida da Igreja, para a glória do próprio Deus

(João Paulo II)

Exaltação da Santa Cruz

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Hoje Nosso Senhor Jesus Cristo está na cruz e nós estamos em festa, para que saibais que a cruz é uma festa e uma celebração espiritual. Antigamente, a cruz designava um castigo; hoje, tornou-se objecto de honra. Outrora símbolo de condenação, ei-la, hoje, princípio de salvação. Porque para nós ela é a causa de inumeráveis bens: libertou-nos do erro, iluminou-nos nas trevas e reconciliou-nos com Deus; fôramos para Ele inimigos e longínquos estrangeiros, e ela deu-nos a sua amizade e fez-nos aproximar-nos dele. A cruz é para nós a destruição da inimizade, o penhor da paz, o tesouro de mil bens.

Graças a ela, deixámos de errar pelos desertos, porque conhecemos agora o verdadeiro caminho. Não ficamos do lado de fora do palácio real, porque encontrámos a porta. Já não tememos as armas inflamadas do diabo, porque descobrimos a fonte. Graças a ela, saímos do estado de viuvez, porque reencontrámos o Esposo. Não tememos o lobo, porque temos o bom pastor. Graças à cruz, não receamos o usurpador, porque moramos ao lado do Rei.

Eis porque estamos em festa ao celebrar a memória da cruz. O próprio São Paulo nos convida à festa em honra da cruz: «Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade» (1Cor 5,8). E deu ainda a razão para tal honra, dizendo: «Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado por nós»

(São João Crisóstomo)

Invoca Maria!

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’O nome da virgem era Maria’ (Lc 1,27). Esse nome, que dizem significar ‘estrela do mar’, convém admiravelmente à Virgem Mãe. Nada é mais justo do que compará-la a uma estrela que dá a sua luz sem se alterar, tal como deu à luz o seu Filho sem danificar o seu corpo virgem. Ela é efetivamente essa nobre ‘estrela surgida de Jacó’, cujo esplendor ilumina o mundo inteiro, que brilha nos céus e penetra até aos infernos. Ela é verdadeiramente essa linda e admirável estrela que havia de elevar-se acima do mar imenso, cintilante de méritos, iluminando pelo exemplo.
Vós todos, quem quer que sejais, seja o que for que sentirdes hoje, em pleno mar, sacudidos pela tormenta e pela tempestade, longe da terra firme, mantende os olhos na luz dessa estrela para evitar o naufrágio. Se se levantarem os ventos da tentação, se vires aproximar-se o escolho das provações, olha para a estrela, invoca Maria! Se te sentires sacudido pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência ou do ciúme, eleva os olhos para a estrela, invoca Maria. Se te sentires perturbado pela enormidade dos teus pecados, humilhado pela vergonha da tua consciência, assustado pelo temor do julgamento, se estiveres a ponto de naufragar nas profundezas da tristeza e do desespero, pensa em Maria. No perigo, na angústia, na dúvida, pensa em Maria, invoca Maria!
Que o seu nome nunca saia dos teus lábios nem do teu coração. Seguindo-a, não te perderás; rezando-lhe, não desesperarás; pensando nela, evitarás enganar-te no caminho. Se Ela te agarrar pela mão, não te afundarás; se Ela te proteger, nada temerás; conduzido por Ela, ignorarás a fadiga; sob a sua proteção, chegarás ao objetivo. E compreenderás, pela tua própria experiência, como são verdadeiras essas palavras: ‘O nome da virgem era Maria’.

(São Bernardo)

O que é a Santidade?

Deves entender que a santidade não consiste em outra coisa além do conhecimento da bondade e grandeza de Deus e da nossa nulidade e inclinação a toda espécie de mal; do amor por Ele e da indiferença por nós mesmos; da submissão não só a Ele, mas a toda a criatura por causa dEle; da renúncia total à nossa vontade, da total resignação à providência e do fazer tudo isso simplesmente pela glória de Deus e pelo puro desejo de agradá-lo, porque Ele tem todo o direito de ser amado e servido por suas criaturas.
(Lorenzo Scupoli - O Combate Espiritual)

  

Subir à arvore da Cruz

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Escrevo-vos com o desejo de que sejais um bom e corajoso pastor, que apazigue e governe com zelo perfeito as ovelhas que vos foram confiadas, imitando assim o doce Mestre da verdade, que deu a sua vida por nós, ovelhas transviadas, que estávamos longe do caminho da graça. É verdade que não o podemos fazer sem Deus e que não podemos possuir Deus permanecendo na terra. Mas eis um doce remédio: quando o coração é pequeno e humilde, é preciso agir como Zaqueu, que não era grande e subiu a uma árvore para ver Deus. O seu zelo fez com que merecesse escutar essa doce palavra: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.’
Devemos fazer assim quando somos baixos, quando temos o coração pequeno e pouca caridade: é preciso subir à árvore da mui santa cruz e de lá veremos e tocaremos Deus. Lá encontraremos o fogo da sua caridade inexprimível, o amor que O conduziu até à vergonha da cruz, que O exaltou e O fez desejar, com o ardor da fome e da sede, honrar seu Pai e obter a nossa salvação. Se assim quisermos, se a nossa negligência não levantar obstáculos, poderemos, subindo à árvore da cruz, realizar em nós essa palavra saída da boca da Verdade: ‘Quando Eu for elevado da terra atrairei todos a Mim’ (cf Jo 12,32 Vulg). Com efeito, quando a alma se eleva deste modo, vê as benfeitorias da bondade e do poder do Pai, vê a clemência e a abundância do Espírito Santo, esse amor inexprimível que prega Jesus ao madeiro da cruz. Nem os pregos nem cordas podiam prendê-Lo ali: somente a caridade. Subi a essa santa árvore onde se encontram os frutos maduros de todas as virtudes que o corpo do Filho de Deus nos traz; correi com ardor. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Doce Jesus, Jesus amor.

(Santa Catarina de Sena)

 
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