Adeste Fideles (Venham todos os fiéis)

Venham, todos os fiéis, alegres e triunfantes
Venham, venham a Belém
Vejam o Menino, nasceu o Rei dos Anjos

Venham, adoremos a Ele, venham, adoremos a Ele
Venham e adoremos ao Senhor

Deixando o rebanho, humildes, do berço
Rapidamente se aproximam os pastores ao serem chamados,
E nós, apressemo-nos com passo alegre

Venham, adoremos a Ele, venham, adoremos a Ele
Venham e adoremos ao Senhor

O eterno esplendor do Pai eterno,
Vemos agora, oculto sob a carne
O Deus Menino envolto em panos

Venham, adoremos a Ele, venham, adoremos a Ele
Venham e adoremos ao Senhor

Por nós pobre e recostado na manjedoura
Com abraços carinhosos O abracemos
A Quem assim nos ama, quem não O amará?

Venham, adoremos a Ele, venham, adoremos a Ele
Venham e adoremos ao Senhor

(Fonte: http://mercaba.wordpress.com – também o original latino)

Jesus nasceu!

“Só o Menino que jaz no presépio possui o verdadeiro segredo da vida. Por isso pede para ser acolhido, que se lhe conceda um espaço em nós, nos nossos corações, nas nossas casas, nas nossas cidades e nas nossas sociedades. Ressoam no coração e na mente as palavras do prólogo de João: ‘A quantos o receberam, aos que nele creem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus’ (1, 12). Procuremos estar entre quantos o recebem. Diante dele não se pode permanecer indiferente. Também nós, queridos amigos, devemos tomar continuamente posição. Qual será então a nossa resposta? Com que atitude o acolhemos? Vêm em nossa ajuda a simplicidade dos pastores e a busca dos Magos que, através da estrela, perscrutam os sinais de Deus; servem-nos de exemplo a docilidade de Maria e a sábia prudência de José. Os mais de dois mil anos de história cristã estão cheios de exemplos de homens e mulheres, de jovens e adultos, de crianças e idosos que acreditaram no Mistério do Natal, abriram os braços ao Emanuel tornando-se com a sua vida faróis de luz e de esperança. O amor que Jesus, nascendo em Belém, trouxe ao mundo, liga a si quantos o acolhem numa relação duradoura de amizade e de fraternidade”

(Bento XVI, AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 3 de Janeiro 2007)

O Filho de Deus ‘é nossa carne e nosso sangue’

Realmente, que pode haver de mais útil e mais próprio, para sofrear nosso orgulho e arrogância espiritual, do que considerar muitas vezes como Deus Se humilha, a ponto de tomar sobre Si a fraqueza e fragilidade humana; como Deus Se fez homem, e põe a serviço do homem Sua soberana e infinita majestade, a cujo aceno - no dizer da Escritura - ‘as colunas do céu vacilam e tremem de pavor’; como veio afinal nascer na terra Aquele, a quem os Anjos adoram nos céus. Ora, se Deus faz tanto por nós, que nos incumbe fazer de nossa parte, para realizar a Sua vontade? Com quanta alegria e prontidão de espirito não devemos, pois, amar, abraçar, e cumprir todos os deveres que dos impõe a humildade!

Devem os fiéis tomar a peito as salutares lições que Cristo nos dá, desde o seu nascimento, antes até de ter proferido a menor palavra. Nasce na indigência. Nasce, como (nasceria) um estranho na estalagem. Nasce em tosca manjedoura. Nasce no rigor do inverno. Eis o que relata São Lucas: ‘E quando ali estavam, aconteceu completar-se o tempo cm que devia dar à luz. E deu ‘à luz o seu Filho Primogénito, envolveu-O em faixas, e reclinou-O numa manjedoura; pois não havia lugar para eles na estalagem’. Poderia o Evangelista exprimir, em termos mais lhanos, toda a majestade e glória do céu e da terra? Não escreve, apenas, que não havia lugar na estalagem, mas que o não havia para Aquele, que de Si declarou: ‘Minha é a redondeza da terra, e Minhas são todas as coisas de que se acha repleta’. Outro Evangelista dá o mesmo testemunho: ‘Veio para o que era Seu, e os seus não O receberam’.

Levando em conta estes fatos, os fiéis devem ainda lembrar-se que, se Deus quis assumir a baixeza e fragilidade de nossa carne, foi para elevar O gênero humano ao mais alto grau de honra e dignidade. Com efeito, como prova da eminente posição e dignidade a que a bondade divina exaltou o homem, basta existir realmente um Homem que, ao mesmo tempo, é perfeito e verdadeiro Deus. Por conseguinte, podemos gloriar-nos de que o Filho de Deus é ‘nossa carne e osso’. É uma regalia que não se aplica nem aos próprios espíritos bem-aventurados, porquanto diz o Apóstolo: ‘Não assumiu a natureza dos Anjos, mas a linhagem de Abraão’.

(Catecismo Romano – I, 3º art. § 11)

O Verbo Eterno se fez homem

“Ignem veni mittere in terram; et quid
voto, nisi ut accendatur?
Vim trazer o fogo à terra; e que desejo
senão que ele se inflame?” (Lc 12,49)


Os judeus celebravam uma festa chamada Dia do Fogo em memória do fogo com que Neemias consumou a vítima oferecida a Deus, quando ele voltou com seus compatriotas do cativeiro da Babilônia. A festa do Natal deveria também, e com muito mais razão, chamar-se Dia do Fogo, porque nesse dia um Deus veio ao mundo sob a forma duma criancinha para a-tear o fogo do amor no coração dos homens. Vim trazer o fogo à terra, disse Jesus Cristo, e o trouxe de fato. Antes da vinda do Messias, quem amava a Deus sobre a terra? Ele era apenas conhecido numa pequena região do mundo, isto é, na Judéia; e mesmo lá, quão poucos eram os que o amavam no tempo da sua vinda! No resto da terra, uns adoravam o sol, outros os animais, s pedras ou criaturas mais vis ainda. Mas, depois da vinda de Jesus Cristo, o nome de Deus se espalhou por toda parte e foi amado por muitos. Desde então os corações abrasaram-se das almas do divino amor, e Deus foi mais amado em poucos anos do que nos quatro mil aos que decorreram depois da criação.
Muitos cristãos costumam preparar com bastante antecedência em suas casas um presépio para representar o nasci-mento de Jesus Cristo. Mas há poucos que pensam em preparar seus corações, a fim que o Menino Jesus possa neles nascer e repousar. Sejamos nós desse pequeno número: procuremos dispor-nos dignamente para arder desse fogo divino, que torna as almas contentes neste mundo e felizes no céu.
Consideremos neste primeiro dia que o Verbo Eterno justamente para esse fim, de Deus se fez homem, para inflamar-nos de seu divino amor. Peçamos a Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua Santíssima Mãe nos iluminem sobre esse mistério, e comecemos.

(Santo Afonso de Ligório – Encarnação, Nascimento e Infância, I, Cons. I)

Por que veio Jesus Cristo?

Irmãos, conheceis Aquele que vem; considerai agora de onde vem e para onde vai. Ele vem do coração de Deus Pai para o seio de uma Virgem Mãe. Ele vem das alturas do céu para as regiões inferiores da terra. E então? Não temos de viver nesta terra? Sim, se Ele próprio aqui viver também; porque onde estaríamos nós bem sem Ele? «Quem terei eu nos céus? Nada mais anseio sobre a terra além de Vós, o Deus do meu coração, a minha herança» (Sl 72, 25-26). [...]
Mas era necessário que estivesse em causa um grande interesse para que tal majestade Se dignasse a descer de tão longe para uma estadia tão indigna de Si. Sim, havia um grande interesse em jogo, porque a misericórdia, a bondade e a caridade se manifestaram com grande abundância. Com efeito, por que veio Jesus Cristo? [...] As Suas palavras e as Suas obras demonstram-no-lo claramente: Ele desceu a toda a pressa das montanhas para procurar a centésima ovelha, a que estava perdida, para estender a Sua misericórdia aos filhos dos homens.
Ele veio por nós. Admirável condescendência do Deus que procura! Admirável dignidade do homem assim procurado! O homem pode vangloriar-se disso sem toleima: não que ele seja qualquer coisa por si mesmo, mas porque Aquele que o fez o tem em tão grande estima! Em comparação com esta glória, as riquezas e a glória do mundo, e tudo o que se pode aí ambicionar, nada são. O que é o homem, Senhor, para que o engrandeças assim e a ele ligues o Teu coração?
Cabe-nos a nós irmos em direção a Jesus Cristo. [...] Ora um duplo obstáculo nos entravava: os nossos olhos estavam muito doentes e Deus habita na luz inacessível (1Tim 6, 16). Paralíticos que jazíamos no catre, éramos incapazes de alcançar a tão alta morada de Deus. Foi por isso que o bom Salvador e doce médico das almas desceu de lá do alto, onde mora. Ele suavizou para os nossos olhos doentes o brilho da Sua luz.

(São Bernardo – 1º sermão do Advento)

Da oblação de Cristo na Cruz e da própria resignação

Assim como eu a mim mesmo ofereci espontaneamente ao Pai eterno, com os braços estendidos e o corpo nu, de modo que nada restasse em mim que não fosse oferecido em sacrifício de reconciliação divina: assim também deves tu de coração oferecer-te voluntariamente a mim todos os dias na Santa Missa, em oblação pura e santa, com todas as tuas potências e afetos. Que outra coisa exijo de ti senão que te entregues inteiramente a mim? De tudo que me deres fora de ti, não faço caso; porque não busco teus dons, mas a ti mesmo.
Assim como não te bastariam todas as coisas sem mim, assim me não pode agradar o que sem ti me ofereces. Oferece-te a mim, dá-te todo a Deus, e será aceita a tua oblação. Olha como me ofereci todo ao Pai por ti, e dei-te todo o meu corpo e sangue em alimento, para ser todo teu e para que tu te tornasses meu. Se, porém, te apegares a ti mesmo, e não te ofereceres espontaneamente à minha vontade, não será completa tua oblação, nem perfeita a união entre nós. Portanto, a todas as tuas obras deve preceder o voluntário oferecimento de ti mesmo nas mãos de Deus, se desejas alcançar a liberdade e a graça. O motivo de haver tão poucos interiormente esclarecidos e livres é que muitos não sabem abnegar-se de todo a si mesmos. É imutável minha sentença: Quem não renunciar a tudo não poderá ser meu discípulo (Lc 14,33). Se desejas, pois, ser meu discípulo oferece-te a mim com todos os teus afetos.

(Tomás de Kempis, Imitação de Cristo, IV, I)

“Acabe com isso, doa-te a Deus”

Considera, homem, o quão importante é o conseguires alcançar tua meta final: importa tudo; porque se o consegues e te salvas, serás para sempre Beato e gozarás de corpo e alma de todos os bens: mas se não o consegues, perderas alma e corpo, paraíso e Deus: serás eternamente mísero, serás para sempre danado. Então este é o negócio de todos os negócios, o único importante, o único necessário: o servir a Deus e salvar-se a alma. Então não diga: Irei satisfazer-me e depois me darei a Deus e espero salvar-me. Esta falsa esperança quantos não mandou para o inferno, os quais assim diziam e agora são danados, e não existe remédio para eles! Qual o danado, que queria realmente danar-se? Mas Deus amaldiçoa quem peca com esperança no perdão: “Maledictus homo qui peccat in spe”. Tu dizes: Quero fazer este pecado, e depois me confessarei. E quem sabe tu terás este tempo? Quem te dá a certeza de que não morrerás logo após o pecado? Entrementes perdes a graça de deus. E se não a achas mais? Deus é misericordioso para quem o teme e não para quem o despreza: “Et misericordia eius timentibus eum” (Lc I). Não digas mais que dois ou três pecados dão no mesmo: Não, porque Deus perdoar-te-á dois pecados, mas não três. Deus suporta, mas não para sempre: “In plenitudine peccatorum puniat” (II Mc 5). Quando cheia está a medida Deus não perdoa mais; ou castiga com a morte ou com o abandono do pecador, de maneira que, de pecado em pecado, acabará no inferno, castigo este pior do que a morte. Atenção irmão a isto que agora lês. Acabe com isso, doa-te a Deus. Pense que este é o último aviso que te manda Deus. Basta o quanto já o ofendeste. Basta o tanto que Ele te suportou. Fica trêmulo ao pensar que ao cometer mais um pecado Deus não mais te perdoará. Presta atenção: Trata-se da alma e da eternidade. A quantos este pensamento levou para o deserto, para os conventos, para as grutas. Pobre de mim que estou repleto de pecados! Com o coração aflito, a alma pesada, o inferno adquirido, Deus perdido. Ah! Deus meu e Pai meu, ata-me em teu amor!

(Sto. Afonso de Ligório – Máximas Eternas)

Jesus filho de Davi, tem misericórdia de mim!

Que todo o homem que conhece as trevas que fazem dele um cego [...] grite a plenos pulmões: ‘Jesus filho de Davi, tem misericórdia de mim!’. Mas ouçamos também o que se segue aos gritos do cego: ‘Aqueles que caminhavam à frente repreendiam-no para o fazer calar’ (Lc 18, 39). Quem são eles? Eles estão ali para representar os desejos da nossa condição neste mundo, promotores de confusão, os vícios do homem e o seu tumulto, que, querendo impedir a vinda de Jesus a nós, perturbam o nosso pensamento semeando nele a tentação, e querem abafar a voz do nosso coração que ora. Com efeito, acontece frequentemente que a nossa vontade de nos virarmos de novo para Deus [...], o nosso esforço para afastar os nossos pecados através da oração, é contrariado pela sua imagem; a vigilância do nosso espírito afrouxa ao seu contato, eles semeiam a confusão no nosso coração, sufocam o grito das nossas preces. [...] Que fez então este cego para receber a luz malgrado estes obstáculos? Ele gritava cada vez mais: 'Filho de Davi, tem misericórdia de mim!'. [...] Sim, quanto mais o tumulto dos nossos desejos nos acabrunhar, mais insistente deve ser a nossa prece. [...] Quanto mais abafada for a voz do nosso coração, mais vigorosamente ela deve insistir até se sobrepor ao tumulto dos pensamentos invasores e tocar o ouvido fiel do Senhor. Creio que todos nos reconheceremos nesta imagem: no momento em que nos esforçamos por desviar o nosso coração deste mundo para o reencaminhar para Deus [...], são muitos os importunos que pesam sobre nós e que temos de combater. É um enxame que o desejo de Deus tem dificuldade em afastar dos olhos do nosso coração. [...] Mas, persistindo vigorosamente na oração, deteremos no espírito Jesus que passa. Donde a narração do Evangelho: ‘Jesus parou e ordenou que o levassem até Ele’.

(S. Gregório Magno, Homilias sobre o Evangelho n°2)

“Estais preparados”

O nosso Salvador fez esta advertência quando estava prestes a deixar este mundo, ou seja, a deixá-lo visivelmente. Ele previa que poderiam decorrer séculos até ao Seu regresso. Conhecia o Seu próprio desígnio, o de Seu Pai: deixar gradualmente o mundo a si mesmo, ir retirando gradualmente as garantias da Sua presença misericordiosa. Previa o esquecimento em que cairia entre os Seus próprios discípulos [...], o estado do mundo e da Igreja tal como o vemos atualmente, em que a Sua ausência prolongada faz crer que nunca mais regressará.
Hoje em dia, Ele murmura misericordiosamente aos nossos ouvidos que não nos fiemos naquilo que vemos, que não partilhemos a incredulidade geral, que não nos deixemos levar pelo mundo, mas que ‘velemos, pois, orando continuamente’ (cf. Lc 21,34.36), e esperemos a Sua vinda. Esta advertência misericordiosa devia estar sempre presente ao nosso espírito, de tal forma é precisa, solene e urgente.
Nosso Senhor tinha anunciado a Sua primeira vinda e, no entanto, surpreendeu-nos quando veio. Virá de uma forma muito mais súbita pela segunda vez e surpreenderá os homens, agora que, sem dizer quanto tempo decorrerá antes da Sua vinda, deixou a nossa vigilância à guarda da fé e do amor. [...] Com efeito, devemos não só acreditar mas velar; não só amar mas velar, não só obedecer mas velar. Velar para quê? Na expectativa desse grande acontecimento que é a vinda de Cristo. [...] Parece ter-nos sido dado um dever especial [...]: quase todos temos uma ideia geral do que significa crer, temer, amar e obedecer, mas talvez compreendamos menos bem o significado de ‘velar’.

(Bem-aventurado John Henry Newman, Sermão Watching)

“Já que se há de viver, viva-se para Vós”

“Como poderei ter um amor digno de Vós, meu Deus, se Vós não o reforçais com o amor que Vós mesmo me tendes? Só o amor dá valor a todas as coisas e o mais necessário é que seja tão grande que nada o estorve para amar. Mas eu não tenho senão palavras, pois não valho para mais. Valham-me meus desejos, meu Deus, perante o Vosso divino acatamento e não olheis meu pouco merecer. Que mereçamos todos amar-Vos, Senhor! Já que se há de viver, viva-se para Vós, acabem-se os nossos desejos, e interesses. Que maior coisa pode haver do que merecer contentar-Vos? ... Eu desejo, Senhor, contentar-Vos. Mas o meu contentamento, bem o sei, não está em nenhum dos mortais. Sendo assim, não me culpareis o meu desejo. Vedes-me aqui, Senhor! Se é necessário sofrer para Vos prestar algum serviço, não recuso quantos trabalhos me possam vir na terra... Mas que farei para poder contentar-Vos, ó minha alegria e meu Deus! Já que não Vos sirvo em nada, com alguma coisa tenho de me consolar, pois se, nas grandes coisas, Vos servira, não faria caso das ninharias, Bem-aventurados aqueles que Vos servem com obras grandes! Se o desejo e a inveja que lhes tenho me fossem tomados por conta, não ficaria muito atrás em contentar-Vos; mas não valho nada, Senhor meu! Ponde Vós em mim o valor pois tanto me amais!”

(Sta. Teresa d´Ávila via Zelo zelatus Sum)

Os discípulos não entendiam…

“Escutai o que o Senhor vos pede: Se ignorais a Minha divindade, reconhecei ao menos a Minha humanidade. Vede em Mim o vosso corpo, os vossos membros, as vossas entranhas, os vossos ossos, o vosso sangue. E se o que pertence a Deus vos inspira temor, não vos agradará o que vos pertence a vós? Mas talvez a enormidade da Minha Paixão, da qual vós sois a causa, vos cubra de vergonha? Não temais. Esta cruz não foi mortal para Mim, mas para a morte. Estes pregos não Me penetram de dores, mas de um amor ainda mais profundo por vós. Estas feridas não provocam gemidos, mas fazem-vos entrar ainda mais no Meu coração. O esquartejar do Meu corpo abre-vos os Meus braços como um refúgio, não aumenta o Meu suplício. O Meu sangue não está perdido por mim, mas guardado para vosso resgate (Mc 10,45). Vinde pois, voltai par Mim e reconhecei o vosso Pai, vendo que Ele vos paga o mal com o bem, os insultos com o amor, e tão grandes feridas com uma tão grande caridade.”

(São Pedro Crisólogo)

Sobre tentações

Pois, guardai-vos também, filhas, de umas humildades que infunde o demónio com grande inquietação sobre a gravidade de nossos pecados. Costuma apertar aqui de muitas maneiras, até apartar a alma das comunhões e de ter oração particular (por o não merecerem, sugere-lhes aqui o demónio); e, quando se aproximam do Santíssimo Sacramento, em pensar se se prepararam bem ou não, se lhes vai o tempo em que haviam de receber mercês. Chega a coisa a ponto de fazer parecer à alma que, por ser assim, está abandonada de Deus e quase põe em dúvida a Sua misericórdia. Tudo quanto trata lhe parece perigo, e sem fruto tudo quanto faz, por bom que seja. Põe-lhe uma tal desconfiança que lhe caem os braços para fazer qualquer bem, porque se lhe afigura que o que é bem nos outros, nela é mal.
2. Olhai muito, filhas, a isto que vos direi, porque algumas vezes poderá ser humildade e virtude o terdes-vos assim por tão ruins e outra grandíssima tentação! Porque eu passei por isso, o conheço. A humildade não inquieta, nem desassossega, nem alvorota a alma, por grande que seja; mas vem com paz e gozo e sossego. Ainda que alguém, por se ver ruim, entenda claramente que merece estar no inferno, e se aflija, e lhe pareça de justiça que todos o hajam de aborrecer, e não ouse quase pedir misericórdia, se for boa a humildade, esta pena traz em si uma suavidade e contentamento que não nos quereríamos ver sem ela. Não alvorota nem aperta a alma; antes a dilata e torna apta para melhor servir a Deus. Essa outra pena tudo perturba, tudo alvorota, revolve toda a alma; é penosíssima. Creio que pretende o demónio que pensemos ter humildade e, se pudesse, a voltas com isto, desconfiássemos de Deus.
3. Quando assim vos achardes, atalhai o pensamento da vossa miséria o mais que puderdes, e ponde-o na misericórdia de Deus, no que Ele nos ama e padeceu por nós. E, se é tentação, até nem isto podereis fazer, pois o demónio não vos deixará sossegar o espírito nem pensar em nada, senão naquilo que mais vos afligir: Muito será se conhecerdes que é tentação. O mesmo fará sugerindo penitências desmedidas, para dar a entender que somos mais penitentes do que as outras e fazemos alguma coisa. Se vos andais escondendo do confessor ou da prelada, ou se, dizendo-vos eles que deixeis essas penitências não fazeis caso, é clara tentação. Procurai, por mais pena que vos dê - obedecer, pois nisto está a maior perfeição.
4. O demónio ainda vem com outra bem perigosa: uma segurança em nos parecer que, de maneira nenhuma, voltaríamos às culpas passadas e prazeres do mundo; «já compreendi e sei que tudo acaba e que mais gosto me dão as coisas de Deus». Esta, se é no princípio, é muito má, porque, com esta segurança, não se lhes dá nada de se porem de novo nas ocasiões, e faz lhes fechar os olhos, e praza a Deus que não seja muito pior a recaída. Porque o demónio, quando vê que lhe pode causar dano uma alma, fugindo-lhe e dar proveito a outras, faz tudo quanto pode para que ela não se levante. Assim, por mais gostos e provas de amor que o Senhor vos dê, nunca andeis tão seguras que deixeis de temer o poderdes tornar a cair, e guardai-vos das ocasiões.

(Sta. Teresa d’Ávila – Caminho de perfeição, XXXIX, 1-4)

À Imperatriz do Brasil

“Que dizer? Que elogio se há-de fazer à Virgem gloriosa e santa? Ela ultrapassa todos os seres, à exceção apenas de Deus; por natureza, é mais bela que os querubins, os serafins e todo o exército dos anjos. Nem as línguas do céu nem as da terra, nem as línguas dos anjos bastam para louvá-la. Virgem bendita, pomba pura, esposa celeste [...], templo e trono da divindade! Cristo, sol esplendoroso do céu e da terra, pertence-te. Tu és a nuvem luminosa que fez descer Cristo, Ele o brilho resplandecente que ilumina o mundo. Rejubila, ó cheia de graça, porta do céu; é de ti que fala o autor do Cântico dos Cânticos [...] quando exclama: ‘És horto cerrado, minha irmã, minha esposa, horto cerrado, fonte selada’ (4,12). [...] Santa Mãe de Deus, ovelha imaculada, tu trouxeste ao mundo o Cordeiro, Cristo, o Verbo encarnado em ti. [...] Que maravilha espantosa nos céus: uma mulher vestida de sol (Ap 12, 1), trazendo nos braços a luz!
[...] Que maravilha espantosa nos céus: o Senhor dos anjos que Se torna filho da Virgem. Os anjos acusavam Eva; agora, cumulam Maria de glória, porque Ela levantou Eva da queda e abriu as portas do céu a Adão, outrora expulso do Paraíso. [...] Imensa é a graça concedida a esta Virgem santa. É por isso que Gabriel a cumprimenta dizendo-lhe: ‘Rejubila, cheia de graça’, resplandecente como o céu. ‘Rejubila, cheia de graça’, Virgem ornada de virtudes sem número. [...] ‘Rejubila, cheia de graça’, tu que sacias os sedentos com as doçuras da fonte eterna. Rejubila, Santa Mãe Imaculada, tu que geraste Cristo, que te precede. Rejubila, púrpura real, tu que revestiste o Rei do céu e da terra. Rejubila, livro selado, tu que deste a ler ao mundo o Verbo, o Filho do Pai.”

(Santo Epifânio de Salamina, Homilia n°5)

Ave

Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.

Um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.

Se antes o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões: Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual (o homem tem uma natureza corrutível e Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível); em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade com Deus (com efeito, o Anjo pertence à família de Deus, mantendo-se a seus pés, mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de sua face pelo pecado) e em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude do esplendor da graça divina que possui (Os Anjos participam da própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e como num claro-escuro).

Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem, até o dia em que apareceu urna criatura humana que sobrepujava os Anjos por sua plenitude de graças , por sua familiaridade com Deus e por sua dignidade. Esta criatura humana foi a bem-aventurada Virgem Maria. Para reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua veneração por esta palavra: Ave.

(Santo Tomás de Aquino. O Pai Nosso e a Ave Maria, A saudação Angélica, n. 2-4 adapt.)

Os “profetas modernos” do Cristianismo


“Para um cristão, importa a fé, ou seja, o acolhimento da Palavra de Deus, que o torna participante do desígnio divino Ora, se alguém é crente, é também profeta, já que, olhando bem, a profecia significa não tanto o anúncio do futuro, mas do eterno e também do ‘presente’ compreendido como o eterno no tempo.
Além do mais, toda previsão realizou-se e esclareceu-se em Jesus Cristo, ‘o Profeta’ (cf. Jo 1,21), de modo que a profecia cristã coincide exatamente com o testemunho cristão (…)
Hoje, não raramente, escuta-se desejar e rezar para que a Igreja seja crível e seja profética. Trata-se de acréscimos supérfluos e quase deformantes. Pela sua própria natureza a Igreja é crível; de outro modo não seria a Igreja. Mais que ser crível, a preocupação deve ser a de ser crente: na fé e nas obras luminosas que a acompanham (cf. Mt 5,16) residem os motivos da credibilidade e são oferecidos os sinais da profecia, isto é, da viva e operante presença do Evangelho.
(…)
Tem-se, de tal modo, a ideia de que, para ser profeta, é necessário ultrapassar a doutrina e a práxis da Igreja institucional e hierárquica; isto é, seria preciso escolher uma Igreja “espiritual” e dinâmica e percorrer um caminho novo, com uma escuta mais fiel ao mundo e uma mais corajosa aliança entre fé e cultura.
(…)
Aos discípulos do Senhor não importa uma profecia como antecipação da cronologia ou previsão do futuro; não se esforçam para ler os ‘sinais dos tempos’, pois já possuem a leitura que Jesus Cristo morto e ressuscitado fez uma vez por todas. Nem mesmo se esforçam para convocar novos concílios que respondam às expectativas dos tempos, insatisfeitas com os concílios precedentes.
Os cristãos se preocupam na verdade com uma profecia que consiste numa ortodoxia sempre mais tradicional e, portanto, íntegra e límpida; alegram-se e são tomados de admiração com o carisma do Magistério que, em virtude da assistência do Espírito santo, assegura a fidelidade à Palavra de Deus; tornam evidente a comunhão com Cristo nas obras de fraternidade; pregam que o destino do homem é a vida Eterna.
E sabem que, como já agora Jesus Cristo está presente, existe já agora a verdadeira Igreja, mesmo não sedo ainda toda na condição gloriosa.
Todos os membros do Povo de Deus são chamados a ser profetas, exatamente porque são todos chamados a serem crentes. A profecia é a fé.”
(Inos Biffi – In: Visão Cristã)

Da utilidade das adversidades

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1.Bom é passarmos algumas vezes por aflições e contrariedades, porque frequentemente fazem o homem refletir, lembrando-lhe que vive no desterro e, portanto, não deve pôr sua esperança em coisas alguma do mundo. Bom é encontrarmos às vezes contradições, e que de nós façam conceito mau ou pouco favorável, ainda quando nossas obras e intenções sejam boas. Isto ordinariamente nos conduz à humildade e nos preserva da vanglória. Porque, então, mais depressa recorremos ao testemunho interior de Deus, quando de fora somos vilipendiados e desacreditados pelos homens.
2.Por isso, devia o homem firmar-se de tal modo em Deus, que lhe não fosse mais necessário mendigar consolações às criaturas. Assim que o homem de boa vontade está atribulado ou tentado, ou molestado por maus pensamentos, sente logo melhor a necessidade que tem de Deus, sem o qual não pode fazer bem algum. Então se entristece, geme e chora pelas misérias que padece. Então causa-lhe tédio viver mais tempo, e deseja que venha a morte livrá-lo do corpo e uni-lo a Cristo. Então compreende também que neste mundo não pode haver perfeita segurança nem paz completa.

(Tomás de Kempis – Imitação de Cristo, I, XII, 1-2)

Os anjos

Celebramos hoje a festa dos santos anjos. [...] Mas que podemos dizer destes espíritos angélicos? Eis o que nos diz a fé: acreditamos que eles gozam da presença e da visão de Deus, que possuem uma felicidade sem fim, os bens do Senhor que «nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passaram pelo pensamento do homem» (1Cor 2,9). O que pode um simples mortal dizer sobre este assunto a outros mortais, ele que é incapaz de conceber tais coisas? [...] Se é impossível falar da glória dos santos anjos em Deus, podemos pelo menos falar da graça e do amor que eles manifestam relativamente a nós, pois gozam, não apenas de uma dignidade incomparável, mas também de um espírito de serviço cheio de bondade. [...] Não podendo compreender a sua glória, deixamo-nos prender tanto mais fortemente à misericórdia de que estão cheios estes familiares de Deus, cidadãos do céu e príncipes do paraíso.
O próprio apóstolo Paulo, que contemplou com os seus olhos a corte celestial e que conheceu os seus segredos (2Cor 12,2), atesta que todos os anjos são «espíritos ao serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão-de herdar a salvação» (2Cor 12,2). Não tomeis tal afirmação por inconcebível, pois o Criador, o próprio Rei dos anjos, «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos» (Mc 10,45). Que anjo desdenharia pois tal serviço, onde o
precedeu Aquele que os anjos servem no céu com pressa e alegria?

(São Bernardo, 1º Sermão para a festa de São Miguel) Fonte: Evangelho Quotidiano

A verdadeira devoção

A verdadeira devoção, Filoteia,  pressupõe o amor a Deus, ou melhor, ela mesma é o mais perfeito amor a Deus. Esse amor chama-se graça, porque adereça a nossa alma e a torna bela aos olhos de Deus. Se nos dá força e vigor para praticar o bem, assume o nome de caridade. E, se nos faz praticar o bem frequente, pronta e cuidadosamente, chama-se devoção e atinge então ao maior grau de perfeição. Vou esclarecê-lo melhor com uma explicação tão simples como natural.

Os avestruzes têm asas, mas nunca se elevam acima da terra. As galinhas voam, mas têm um voo pesado e o levantam raras vezes e a pouca altura. O voo das águias, das pombas, das andorinhas é veloz e alto e quase contínuo. De modo semelhante, os pecadores são homens terrenos e vão se arrastando de contínuo à flor da terra. Os justos, que são ainda imperfeitos, elevam-se para o céu pelas obras, mas fazem-no lenta e raramente, com uma espécie de peso no coração.

São só as almas possuidoras de uma devoção sólida que, à semelhança das águias e das pombas, se exalçam a Deus por um voo vivo, sublime e, por assim dizer, incansável. Numa palavra, a devoção não é nada mais que uma agilidade e viveza espiritual, da qual ou a caridade opera em nós, ou nós mesmos, levados pela caridade, operamos todos o bem de que somos capazes.

(São Francisco de Sales – Filoteia ou introdução à vida devota, I,1)

Spes unica

“Veja as cuspidas no meu rosto, que recebi por ti, para restituir-te o primitivo alento de vida que inspirei em teu rosto. Olha as bofetadas de meu rosto, que suportei para reformar à imagem minha teu aspecto deteriorado. Olha as chicotadas de minhas costas, que recebi para tirar da tua o peso de teus pecados. Olha minhas mãos, fortemente seguras com pregos na árvore da cruz, por ti, que em outro tempo estendeste funestamente uma de tuas mãos à árvore proibida”

(Autor desconhecido do sec. II)

O nome de Maria

O nome de Maria, que Joaquim e Ana impuseram a sua santa filha, era bastante comum entre os judeus. Encontra-se pela primeira vez na sagrada escritura para designar a irmã de Moisés. Há várias Marias no Evangelho: Maria Madalena, Maria Salomé e Maria, mulher de Cleóphas, o qual julga ter sido irmão de são José.

Podemos afirmar que Maria realizo a significação de seu nome. Significa ao mesmo tempo Senhora, isto é, Rainha e Luz. Grafava-se Miriam ou Mariam entre os judeus e adotamos a forma latina Maria.

Maria é, com efeito, Senhora ou Rainha  dos anjos, dos homens, do mundo inteiro. A Igreja a saúda muitas vezes com este nome,  principalmente nas ladainhas lauretanas. Costumamos, outrossim, chamá-la Nossa Senhora.

Maria é também nossa Luz, não, sem dúvida, como seu filho Jesus, que é o sol de justiça, mas como doce aurora que o precede, como a lua que o recorda, como a estrela matutina que o anuncia, nomes graciosos que lhe dá a Igreja.

(…)

Na verdade, depois do nome de Jesus o mais glorioso é o de Maria. Daí o costume frequente de impô-lo às crianças, na pia batismal, e aos religiosos na tomada de hábito.

Para que nasceu a Virgem Maria?


Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que dEla nascesse Deus.
Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança.
Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória.
Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória.
E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus.
(Padre Antônio Vieira – fonte: Visão Cristã)

Um segredo de Cristo

A compaixão dele era natural, quase casual. Os estoicos, antigos e modernos, orgulhavam-se de cultuar as próprias lágrimas. Ele nunca ocultou as suas; mostrou-as claramente no rosto aberto ante qualquer visão do dia-a-dia, como a visão distante de sua cidade natal. No entanto, alguma coisa ele ocultou. Solenes super-homens e diplomatas imperiais orgulham-se de conter a própria ira. Ele nunca a conteve. Arremessou móveis pela escadaria frontal do templo e perguntou aos homens como eles esperavam escapar da danação do inferno. No entanto, alguma coisa ele ocultou. Digo-o com reverência; havia naquela chocante personalidade um fio que deve ser chamado de timidez. Havia algo que ele encobria constantemente por meio de um abrupto silêncio ou um súbito isolamento. Havia uma certa coisa que era demasiado grande para Deus nos mostrar quando ele pisou nesta nossa terra. Às vezes imagino que era sua alegria.

(G. K. Chesterton – Ortodoxia)

Prece a Deus (II)

Deus, criador de todas as coisas, concedei-me primeiramente que eu faça uma boa oração; em seguida, que me torne digno de ser ouvido por ti; por fim, que me atendas. Deus, por quem tende a ser tudo aquilo que por si só não existiria. Deus, que não permites que pereça nem mesmo aquilo que se destrói. Deus, que do nada criaste este mundo, o qual acham belíssimo os olhos de todos os que o contemplam. Deus, que não fazes o mal e fazes que este não seja pior. Deus, que mostras aos poucos, que se aproximam do que é verdadeiro, que o mal é nada. Deus, por quem todas as coisas são perfeitas, ainda com a parte que lhes toca de imperfeição. Deus, por quem se atenua ao máximo qualquer dissonância quando as coisas piores se harmonizam com as melhores. Deus, a quem amam, consciente ou inconscientemente, todos os que possam amar. Deus, em quem todas as coisas subsistem e para quem, contudo, não é torpe a torpeza de qualquer criatura, a quem não prejudica a sua malícia nem o afasta o seu erro. Deus, que não quiseste que conhecessem a verdade senão os puros. Deus, Pai da verdade, Pai da sabedoria, pai da verdadeira e suprema vida, Pai da felicidade, Pai do que é bom e belo, Pai da luz inteligível, pai do nosso desvelo e iluminação, Pai da garantia pela qual somos aconselhados a retornar a ti.

(Santo Agostinho, Solilóquios, n.3)

“Não há vitória sem uma batalha”

Há muitas batalhas dentro de nós: a carne contra o espírito, o espírito contra a carne. Se, na luta, são os desejos da carne que prevalecem, o espírito será vergonhosamente rebaixado de sua dignidade própria e isto será uma grande infelicidade, de rei que deveria ser, torna-se escravo. Se, ao contrário, o espírito se submete ao seu Senhor, põe sua alegria naquilo que vem do céu, despreza os atrativos das volúpias terrestres e impede o pecado de reinar sobre o seu corpo mortal, a razão manterá o cetro que lhe é devido de pleno direito, nenhuma ilusão dos maus espíritos poderá derrubar seus muros; porque o homem só tem paz verdadeira e a verdadeira liberdade quando a carne é regida pelo espírito, seu juiz, e o espírito governado por Deus, seu mestre. É, sem dúvida, uma preparação que deve ser feita em todos os tempos: impedir, por uma vigilância constante, a aproximação dos espertíssimos inimigos. (…)

A oração

“Meus filhos, vós tendes um coração pequeno, mas a oração torna-o maior e capaz de amar a Deus. A oração é um antegosto do céu, um escoamento do paraíso, que nunca nos deixa sem doçura. É um mel que desce sobre a alma e tudo adoça. As mágoas fundem-se perante uma oração bem feita, como a neve perante o sol. A oração faz passar o tempo com grande rapidez, e tão agradavelmente que não nos apercebemos da sua duração.”

(São João Maria Vianney)

Maria faz viver nossa alma em Jesus

Como em toda parte é Ela a Virgem fecunda, Ela leva a todo interior, onde está a pureza de coração e de corpo, a pureza em suas intenções e seus desígnios, a fecundidade em boas obras. Não creias, querida alma, que Maria, a mais fecunda de todas as criaturas, e que foi até ao ponde de produzir um Deus, permaneça ociosa em uma alma fiel. Ela a fará viver sem cessar para Jesus Cristo, e Jesus Cristo nela. Filioli mei, quos iterum parturio done formetur Christus in vobis (Gl 4, 19); e se Jesus Cristo é igualmente o fruto de Maria em cada alma em particular como para todos em geral, é particularmente na alma em que Ela está que Jesus Cristo é seu fruto e sua obra prima. Maria torna-se tudo para nossa alma junto de Jesus.

Ortodoxia (Chesterton)

As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca ouve nada tão perigoso e tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em loca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.

A Igreja em seus primeiros dias correu violenta e velozmente com qualquer cavalo de batalha; no entanto, é totalmente anti-histórico dizer que ela apenas cometeu loucuras apegando-se a uma única ideia, com um fanatismo vulgar. Ela curvou-se para a direita e para a esquerda, na medida exata  fim de evitar enormes obstáculos. Num dado momento ela abandonou o enorme vulto do arianismo, apoiado por todos os poderes desse mundo para fazer o cristianismo mundano demais. No instante seguinte ela estava se curvando para evitar o orientalismo, que o teria espiritualizado demais.

A Igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante o calvinista século XVII, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco, é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero  que um modismo depois de outros  e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo – isso teria sido de fato simples.

É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas uma para mantê-lo de pé. cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evita-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celeste voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.

(G.K. Chesterton – Ortodoxia)

Das afeições desordenadas

Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo inquieto. O soberbo e o avarento nunca sossegam; entretanto, o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz. O homem que não é perfeitamente mortificado facilmente é tentado e vencido, até em coisas pequenas e insignificantes. O homem espiritual, ainda um tanto carnal e propenso à sensualidade, só a muito custo poderá desprender-se de todos os desejos terrenos. Daí a sua frequente tristeza, quando deles se abstém, e fácil irritação, quando alguém o contraria.

Noite escura


Em que canta a alma a ditosa ventura que teve
em passar pela noite escura da fé,
na desnudez e purificação de si mesma,
à união com o amado.

1. Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada,
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

A Barca de Pedro

Outrora, era uma fonte de perplexidade para quem crê, como lemos nos salmos e nos profetas, ver que os maus tinham êxito onde os servos de Deus pareciam fracassar. E o mesmo se passa ao tempo do Evangelho. E no entanto a Igreja possui este privilégio especial, que mais nenhuma outra religião tem, de saber que, tendo sido fundada aquando de primeira vinda de Cristo, não desaparecerá antes do Seu regresso.

Prece a Deus

“Amo somente a ti, sigo somente a ti, busco somente a ti, estou disposto a servir somente a ti e desejo estar sob a tua jurisdição, porque somente tu governas com justiça. Manda e ordena o que quiseres, mas sana e abre meus ouvidos para ouvir tuas palavras; sana e abre meus olhos para enxergar os teus acenos. Afasta de mim a ignorância para que eu te reconheça. Dize-me para onde devo voltar-me para ver-te e espero fazer tudo o que mandares. Suplico-te: recebe teu fugitivo, Senhor e Pai clementíssimo; já sofri muito; já servi demais aos teus inimigos, os quais sujeitas sob teus pés; por muito tempo fui ludibriado por falácias. Recebe-me, que sou teu escravo fugindo deles, que me receberam, estranho a eles, quando eu fugia de ti. Sinto em mim que devo voltar a ti. Abrase tua porta para mim, que estou batendo. Ensina-me como chegar a ti. Nada mais tenho que a vontade. Nada mais sei senão que se deve desprezar as coisas passageiras e transitórias e procurar o que é certo e eterno. Faço-o, Pai, porque é a única coisa que sei; porém, ignoro como chegar a ti. Ensina-me, mostra-me, oferece-me as provisões para a viagem. Se é com a fé que te encontram os que se refugiam em ti, dá-me fé; se é com a força, dá-me força; se é com a ciência, dá-me ciência. Aumenta em mim a fé, aumenta a esperança, aumenta o amor. O admirável e singular bondade tua!

Aridez na oração

Existem algumas almas que gostariam de sempre ser consoladas na oração. Se acontece terem um pouco de aridez, logo querem [desanimar]. Tudo isso é trapaça do demônio, que assim procura arruiná-las irremediavelmente. Sabemos que muitas almas se mantém na graça de Deus pela oração.
Hoje, porém, quero falar-lhes das fontes de onde pode nascer essa aridez. São três: o demônio, Deus, nós mesmos.

Oração que santifica

Santo Afonso, espiritualidade

Meus diletíssimos, já deveríamos ser santos, uma vez que há tanto tempo fazemos oração. Muitos de nós, porém, são imperfeitos, falo por mim; a causa é não fazermos bem a oração.

Sobre a amizade

Só é digna de louvor a amizade que favorece os bons costumes. Deve-se preferir a amizade à riqueza, às honras, ao poder, mas não à virtude; mais ainda, ela dever ser regida pelas regras da retidão moral. Assim foi a amizade de Jônatas com Davi: pelo carinho que lhe tinha, não fez caso nem da ira de seu pai nem do perigo a que expunha sua própria vida (1 Sm 20, 29ss). Assim foi a de Abimelec: para cumprir os 

A devoção à Santíssima Virgem é necessária?

A devoção a Maria é de necessidade moral para alcançar o céu. É um penhor de salvação, uma graça de predileção, a segurança de uma proteção especial.

Maria cumula de benefícios os seus devotos. Entre os favores espirituais é preciso contar as graças de arrependimento e de conversão para os pecadores, de fervor e perseverança para os justos.

Ela auxilia os que se dedicam às obras da Igreja, livra os que a invocam nos perigos…

“Rebaixei-me a mim mesmo…”

Cristo na cruz clama em alta voz. Oferece a paz, dirige-se a ti, desejoso de te ver abraçar o amor: Contempla isto, bem amado! Eu, o Criador sem limites, desposei a carne para ser capaz de nascer de uma mulher. Eu, Deus, apresentei-Me aos pobres como o seu companheiro. Escolhi uma mãe humilde. Comi com publicanos. Os pecadores não Me inspiraram aversão. Suportei os perseguidores. Fiz a experiência do chicote, e “rebaixei-Me a Mim mesmo até à morte e morte de cruz” (cf Fil 2, 8). “Que mais poderia Eu fazer [...] que não tenha feito?” (Is 5, 4) Abri o Meu lado à lança. Deixei que trespassassem as Minhas mãos e os Meus pés. Porque não olhas para

A perseguição interior

Santo Ambrósio

“Muitos me perseguem e me afligem: mas não me apartei de teus mandamentos” (Sl 118, 157)

Os piores perseguidores não os que se manifestam como tais, mas aqueles que não se vê. E destes há muitos! O diabo lança muitos de seus ministros, para que persigam a todas as almas, não só por fora como também por dentro.

Destas perseguições se diz: todos os que querem viver piedosamente em Cristo, sofrerão perseguições (2 Tm 3, 12). O Apóstolo escreve todos; não excetuando ninguém. Pois quem pode ser excetuado quando o próprio Senhor suportou as …

Frutos da Oração



O primeiro fruto que tiramos consiste em honrar a Deus pela oração. A prece é uma prática de religião, que nas Escrituras se compara ao incenso, pois diz o Profeta: "Erga-se minha oração, como o incenso, em Vossa presença". Pela oração, confessamos nossa dependência de Deus, a quem reconhecemos e apregoamos como Autor de todos os bens; SÓ n'Ele pomos nossa esperança, porque é o único baluarte de nossa defesa e salvação, NOSSO único amparo e refúgio.

Lembra-nos também este fruto aquelas palavras da Escritura: "Clama por Mim, no dia da tribulação. Eu te livrarei, e tu Me hás de dar honra".
(...) Segundo a doutrina de Santo Agostinho, "a oração é uma chave do céu, pois quado sobe a oração, desce a misericórdia de Deus. Por mais baixa que fique a terra, e por mais alto que seja o céu, Deus ouve todavia a linguagem do homem"

Com efeito, a oração possui tanta eficácia e utilidade, que por ela conseguimos a plenitude dos bens celestes. Impetramos que Deus nos conceda o Espirita Santo, como guia e protetor; alcançamos a conservação e Integridade da fé, a fuga dos castigos, o amparo divino nas tentações, e a vitória sobre o demônio.

A oração encerra em si o auge de uma alegria toda singular. Por esse motivo, Nosso Senhor declarou: "Pedi, e recebereis, para que a vossa alegria seja completa"
(Catecismo Romano -  IV Parte, II, §1-3)

Porque Maria é o “molde vivo” de Deus e dos Santos

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“Maria é chamada por Sto. Agostinho, e é, com efeito, o molde vivo de Deus, forma Dei, o que quer dizer que foi nela somente que Deus feito homem foi formado ao natural, sem que lhe falte nenhum traço da Divindade; e é também somente nela que o homem pode ser formado em Deus ao natural, tanto quanto a natureza humana é disso capaz, pela graça de Jesus Cristo.
Um escultor pode fazer uma figura ou um retrato ao natural de duas maneiras: 1º)…

Uma Oração de Reparação ao Sagrado Coração de Jesus na Santíssima Eucaristia

 

Eu vos adoro em todas as hóstias consagradas no mundo inteiro, e vos agradeço por aqueles que não vos conhecem e não vos agradecem.  Quisera fosse eu capaz de dar a minha vida para vos fazer conhecido, amado e honrado por todos, neste sacramento de amor e impedir as irreverências e sacrilégios que são cometidos contra vós todos os dias na Santíssima Eucaristia! Eu vos amo, Divino Jesus, e desejo receber-vos com toda a pureza, amor e afeição de vossa Mãe Santíssima, e com o amor e afeição de vosso próprio coração puríssimo. Concedei-nos, Oh Amantíssimo Esposo de minha alma, que ao vir a mim neste santíssimo Sacramento, eu possa receber todas as graças e bênçãos que vós derramais sobre nós, e permiti que eu antes morra do que receber-vos indignamente, sem discernir adequadamente a Vossa Presença em pensamento, atos e palavras.  Amém. Pai Nosso, Ave-Maria, Glória, etc.

Fonte: The Orthodox Roman Catholic (agradecimento ao leitor Alex A. Borges pela indicação)

Publicado originalmente em: Frates in Unum

Sagrado Coração

Sinto que o meu Jesus Se vai aproximando cada vez mais de mim. Permitiu que, nestes dias, eu caísse ao mar, me afundasse na consideração das minhas misérias, da minha soberba, para me fazer compreender mais a imperiosa necessidade que tenho Dele. Quando estava prestes a afundar-me, Jesus, caminhando sobre as águas, veio sorridente ao meu encontro para me salvar. Eu queria dizer-Lhe, como…

São João da Cruz


Modo para chegar ao Tudo
Para chegares ao que não sabes,
Hás de ir por onde não sabes.
Para chegares ao que não gozas
Hás de ir por onde não gozas.
Para vires ao que não possuis,
Hás de ir por onde não possuis.
Para vires a ser o que não és,
Hás de ir por onde não és.

Modo de possuir tudo
Para vires a saber tudo,
Não queiras saber coisa alguma.
Para vires a gozar tudo,
Não queiras gozar coisa alguma.
Para vires a possuir tudo,
Não queiras possuir coisa alguma.
Para vires a ser tudo,

Oração diante do Santíssimo Sacramento

“Eis-me aqui, diante de vós, pobre e nu, a pedir graça e implorar misericórdia. Fartai este vosso pobre mendigo, aquecei minha frieza com o fogo de vosso amor, iluminai minha cegueira com a claridade de vossa presença. Fazei que me seja amargo tudo o que é terreno, que leve com paciência as penas e contrariedades, e que despreze e esqueça todas as coisas caducas e criadas. Levantai o meu coração a vós no céu, não me deixeis vaguear na terra. Só vós, desde hoje para sempre, me sereis doce e agradável, porque só vós sois minha comida e bebida, meu amor e minha alegria, delícia minha e meu único bem.

A Cruz revela Deus e o homem

“A cruz é revelação. Não revela uma coisa qualquer, mas Deus e o homem.
Descobre quem é Deus e como é o homem. Na filosofia grega existe estranho pressentimento disto: a imagem do justo crucificado descrita por Platão. O grande filósofo pergunta qual seria a situação, neste mundo, de um homem totalmente justo. Chega ao resultado de que a justiça de um homem só se torna perfeita e comprovada, caso ele tome sobre si a aparência da injustiça, porque só então aparece que ele não segue a opinião dos homens, mas se coloca unicamente ao lado da justiça por ela mesma. Portanto, de acordo com Platão, o justo autêntico há de ser um incompreendido e perseguido; aliás, Platão não receia escrever: ‘Então hão de dizer que o justo, nestas circunstâncias, será flagelado, torturado, amarrado, que os olhos lhe serão vazados a fogo e, finalmente, após todos estes maus tratos, será crucificado...’. Este texto, escrito 400 anos antes de Cristo, sempre voltará a comover profundamente o cristão. Na seriedade da reflexão filosófica prevê-se que o justo perfeito no mundo deve ser o justo crucificado; pressentiu-se aí algo daquela revelação do homem que se realiza na cruz.

Pai Nosso

“Perguntamos: como é que Deus é Pai? E quais são nossas obrigações para com Ele devido à sua paternidade? Chamamo-lo Pai, por causa do modo especial com que nos criou. Criou-nos à sua imagem e semelhança, imagem e semelhanças estas, que não imprimiu em nenhuma outra criatura inferior ao homem. Não é ele teu Pai, teu Criador que te estabeleceu? (Dt 32, 6).
Deus merece também o nome de Pai, por causa da solicitude particular que tem para com os homens no governo do universo. Nada escapa ao seu governo, sendo este exercido de modo diferente em relação a nós e em relação às criaturas inferiores a nós. Os seres inferiores são governados como escravos e nós como senhores. Ó Pai, diz o livro da Sabedoria (14, 3), vossa providência rege e conduz todas as coisas; e (12, 18) a nós governa com indulgência.
Deus, enfim, tem direito ao nome de Pai, porque nos adotou. Enquanto não deu, às outras criaturas, senão pequenas dádivas, a nós fez o dom de sua herança, e isso porque somos seus filhos. São Paulo diz (Rm 8, 17): Porque somos seus filhos, somos também seus herdeiros, e ainda (vers. 15): Vós não recebestes um espírito de servidão, para recairdes no temor, mas recebestes um espírito de adoção, que nos faz clamar: Abba, Pai.”

(São Tomás de Aquino – O Pai Nosso e a Ave Maria: Sermões de São Tomás de Aquino)

O Paráclito

“O Espírito Santo, torna-nos filhos e filhas de Deus. Ele compromete-nos nesta mesma
responsabilidade de Deus pelo seu mundo, pela humanidade inteira. Ensina-nos a contemplar o mundo, o próximo e nós mesmos com os olhos de Deus. Nós realizamos o bem não como escravos, que não são livres de agir de outra forma, mas fazemo-lo porque temos pessoalmente a responsabilidade pelo mundo; porque amamos a verdade e o bem, porque amamos o próprio Deus e portanto também as suas criaturas. Esta é a liberdade verdadeira, para a qual o Espírito Santo nos quer conduzir¹”

“O Paráclito, primeiro dom concedido aos crentes, ativo já na criação, está presente em plenitude na vida inteira do Verbo encarnado: com efeito, Jesus Cristo é concebido no seio da Virgem Maria por obra do Espírito Santo; no início da sua missão pública, nas margens do Jordão, vê-O descer sobre Si em forma de pomba; neste mesmo Espírito, age, fala e exulta; e é n'Ele que Jesus pode oferecer-Se a Si mesmo. No chamado «discurso de despedida» referido por João, Jesus põe claramente em relação o dom da sua vida no mistério pascal com o dom do Espírito aos Seus. Depois de ressuscitado, trazendo na sua carne os sinais da paixão, pode derramar o Espírito, tornando os seus discípulos participantes da mesma missão d'Ele. Em seguida, será o Espírito que ensina aos discípulos todas as coisas, recordando-lhes tudo o que Cristo tinha dito, porque compete a Ele, enquanto Espírito da verdade, introduzir os discípulos na verdade total. Segundo narram os Atos, o Espírito desce sobre os Apóstolos reunidos em oração com Maria no dia de Pentecostes, e impele-os para a missão de anunciar a boa nova a todos os povos. Portanto, é em virtude da ação do Espírito que o próprio Cristo continua presente e ativo na sua Igreja, a partir do seu centro vital que é a Eucaristia²”

(Papa Bento XVI – 1 - HOMILIA NA VIGÍLIA DE PENTECOSTES Sábado, 3 de Junho de 2006; 2 - EXORTAÇÃO APOSTÓLICA SACRAMENTUM CARITATIS, 12)

Você é virtuoso?

Virtudes, Caridade, Fé, esperança, cristianismo, catolicismo, moral

“Se lhe fizessem essa pergunta a sua modéstia o faria responder: ‘Não, não de um modo especial’. E, no entanto, se você é batizado e vive em estado de graça santificante, possui as três virtudes mais altas: as virtudes divinas da fé, da esperança e da caridade. Se cometesse um pecado mortal, perderia a caridade (ou o amor de Deus), mas ainda lhe ficariam a esperança e a fé.

Em religião, a virtude se define como o ‘hábito ou qualidade permanente da alma que lhe dá inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal’. (…) Se adquirimos uma virtude por nosso próprio esforço, desenvolvendo conscientemente um hábito bom, denominamos natural essa virtude. (…) Mas Deus pode infundir na alma uma virtude diretamente, sem esforço de nossa parte. Pelo seu poder infinito, pode conferir a uma alma o poder  e a inclinação para realizar certas ações que são sobrenaturalmente boas. Uma virtude desse tipo – o hábito infundido na alma diretamente por Deus – chama-se sobrenatural. Entre estas virtudes, as mais importantes são as três a que chamamos teologais: a fé, esperança e caridade.

Elas, junto com a graça santificante, são infundidas em nossa alma pelo sacramento do batismo. mesmo uma criança, se estiver batizada, possui as três virtudes, ainda que não seja capaz de praticá-las enquanto não chegar ao uso da razão. E, uma vez recebida, não se perde facilmente. A virtude da caridade, a capacidade de amar a Deus com amor sobrenatural, só se perde pelo pecado mortal.”

(Pe. Leo Trese – A Fé Explicada, pp. 96-97) 

O martírio no cristianismo primitivo

“Desde o começo do cristianismo o martírio aparece como a forma mais eminente de santidade cristã. Por isso mesmo o exemplo dos que morrem fortalece a coragem dos que lutam. Aquele que morre, derramando seu sangue por Cristo e pela Igreja já tem a garantia de salvação porque, como diz o Livro do Apocalipse II ‘lavaram suas vestes no sangue do cordeiro’ (Ap 7,13).

Esta teologia sobre o martírio vai dar origem ao culto aos mártires. Todos os que morriam por Cristo passam a ser venerados e caso sofram e sobrevivam passam a gozar de um respeito especial pela comunidade.

Além desta veneração aos mártires passam a acontecer outras medidas de caráter prático e litúrgico: Culto às relíquias e reverência às sepulturas dos mártires com as celebrações sendo feitas sobre elas; Celebração do aniversário do martírio; Composição de obras especiais narrativas, chamadas de ATAS E MARTÍRIO que são cada vez mais divulgadas e propaga das entre os cristãos. Mais tarde surgirão inclusive Atas Apócrifas. (…) O culto aos mártires dará origem ao culto dos santos em geral, ficando o costume de celebrar determinado santo no dia de sua morte.

(…)

O heroísmo de tantos mártires não apenas prova a verdade do cristianismo e ação do Espírito que faz superem o poder humano, levando seres frágeis a enfrentar a morte. O martírio não edifica a Igreja apenas pelo seu testemunho, mas possui ainda um valor redentor, pois aquele que entrega a sua vida, voluntariamente, pelo outro associa-se à obra redentora de Jesus Cristo. Clemente de Alexandria vai dizer que o martírio é a ‘plenitude da caridade’ e sobre ela é que se edifica a Igreja. Assim é que entendemos o fato da Igreja ser renovada, ainda hoje, pelo sangue de tantos mártires que se entregam por Jesus e pelo seu reino. No tempo do Império Romano as perseguições e nem os outros obstáculos enfrentados foram capazes de esmorecer a Igreja na sua caminhada. Aos poucos ela vai se estruturando como que um “Estado dentro de outro estado”. Quando, mais tarde, as estruturas do Império Romano ruírem, a Igreja será a única instituição vitoriosa à sua queda.”

(Pe. Inácio Medeiros, cssr – Caminhando pela História da Igreja, I – História Antiga)

Magnificat

[Evangelho de São Lucas I, 46-55]

E Disse Maria: “Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (v.46-47)

Porque o espírito da Virgem se alegra da divindade eterna do mesmo Jesus – isto é, do Salvador – cuja carne é engendrada por uma concepção virginal.

“Porque ele olhou para a humildade de sua serva: Todas as gerações de agora em diante me chamarão feliz” (v.48)

Aquela cuja humildade se vê, é chamada por todos com propriedade de bem-aventurada. Convinha pois que assim como havia entrado a morte no mundo pela soberba dos primeiros pais, se manifestasse a entrada na vida pela humildade de Maria.

“Porque o Poderoso fez para mim coisas grandiosas. O seu nome é santo.” (v. 49)

Isto se refere ao início do cântico, onde se diz: ‘Minha alma engradece o Senhor’. Somente aquela alma, em quem Deus se dignou fazer coisas grandiosas é a que pode engrandecê-Lo com dignos louvores.

“E sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem” (v. 50)

Passando dos dons especiais que havia recebido do Senhor para as graças gerais, explica a situação de todo o gênero humano: ‘E sua misericórdia se estende de geração em geração’. Como se dissesse: Não só dispensou a mim graças especiais aquele que é poderoso, mas também a todos que temem a Deus e são aceitos em sua presença.

“Ele mostrou a força de seu braço, dispensou os que têm planos orgulhosos no coração” (v.51)

Descrevendo o estado do gênero humano, demonstra o que merecem os soberbos e os humildes, dizendo ‘Ele mostrou a força de seu braço’. Isto é, o mesmo Filho de Deus. Assim como trabalhas com teu braço, o braço de Deus é seu Verbo, por quem fez o mundo.

“Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (v. 52)

O que havia dito antes: ‘Mostrou a força de seu braço’ e ‘ Sua misericórdia se estende de geração em geração’ deve juntar-se a estes versículos; porque, com efeito, em toda a sucessão das gerações, os orgulhosos não cessam de perecer e os humildes de ser exaltados, por justa e piedosa disposição do poder divino.

“Encheu de bens os famintos e mandou embora os ricos de mãos vazias” (v. 53) “Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência para sempre” (v. 54-55)

Isto é, ao obediente e ao humilde; porque o que não quer se humilhar, não pode se salvar. Chama descendência não tanto aos gerados segundo a carne mas aos que seguirão os passos de sua fé e aqueles a quem foi prometida a vinda do Senhor nos séculos.

(São Beda, o Venerável – Comentário sobre o Evangelho de São Lucas)

Bendita é tu entre as mulheres…

“Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade da Judeia. Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Então, erguendo a voz, exclamou: ‘Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? Pois, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio. Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor.’’”
Foi bendita por Isabel da mesma maneira que havia sido pelo Anjo, para que se mostrasse digna da veneração dos anjos e dos homens. Este é o fruto que foi prometido a Davi: “É o fruto de tuas entranhas que vou colocar em teu trono” (Sl 131, 11). E não se deve estranhar que o Senhor – que havia de redimir o mundo – começasse sua obra por sua própria mãe, a fim de que ela, por quem se preparava a salvação a todos, recebesse como recompensa – a primeira – o fruto da salvação. Todo aquele que vê o Verbo de Deus em sua mente, sobe ao ponto mais alto das virtude por meio do amor, já que pode penetrar na cidade de Judá – isto é, ao castelo da confissão e do louvor – e permanecer na perfeição da fé, esperança e caridade , “como três meses" nela.
(São Beda, o venerável – Comentário sobre o Evangelho de São Lucas)
 
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