Subir à arvore da Cruz

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Escrevo-vos com o desejo de que sejais um bom e corajoso pastor, que apazigue e governe com zelo perfeito as ovelhas que vos foram confiadas, imitando assim o doce Mestre da verdade, que deu a sua vida por nós, ovelhas transviadas, que estávamos longe do caminho da graça. É verdade que não o podemos fazer sem Deus e que não podemos possuir Deus permanecendo na terra. Mas eis um doce remédio: quando o coração é pequeno e humilde, é preciso agir como Zaqueu, que não era grande e subiu a uma árvore para ver Deus. O seu zelo fez com que merecesse escutar essa doce palavra: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.’
Devemos fazer assim quando somos baixos, quando temos o coração pequeno e pouca caridade: é preciso subir à árvore da mui santa cruz e de lá veremos e tocaremos Deus. Lá encontraremos o fogo da sua caridade inexprimível, o amor que O conduziu até à vergonha da cruz, que O exaltou e O fez desejar, com o ardor da fome e da sede, honrar seu Pai e obter a nossa salvação. Se assim quisermos, se a nossa negligência não levantar obstáculos, poderemos, subindo à árvore da cruz, realizar em nós essa palavra saída da boca da Verdade: ‘Quando Eu for elevado da terra atrairei todos a Mim’ (cf Jo 12,32 Vulg). Com efeito, quando a alma se eleva deste modo, vê as benfeitorias da bondade e do poder do Pai, vê a clemência e a abundância do Espírito Santo, esse amor inexprimível que prega Jesus ao madeiro da cruz. Nem os pregos nem cordas podiam prendê-Lo ali: somente a caridade. Subi a essa santa árvore onde se encontram os frutos maduros de todas as virtudes que o corpo do Filho de Deus nos traz; correi com ardor. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Doce Jesus, Jesus amor.

(Santa Catarina de Sena)

Os dois eus

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“(…) a vida cristã é uma luta. Uma luta penosa, com várias vicissitudes, que somente termina com a morte. Luta de extrema importância, pois o que está em jogo é a vida eterna. Como ensina São Paulo, há em nós dois homens: a) o homem regenerado, o homem novo, com inclinações nobres, sobrenaturais e divinas, produzidas em nós pelo Espírito Santo, em razão dos méritos de Cristo, da intercessão da SS. Virgem e dos santos. Procuramos corresponder a essas inclinações colocando em ação, sob o influxo da graça atual, o organismo sobrenatural que Deus nos deu; b) Contudo, paralelamente há em nós o homem natural, o homem carnal, o homem velho, com más inclinações, cujas raízes o batismo não arrancou de nossa alma. É a tríplice concupiscência, que herdamos dos primeiros pais, e que o mundo e o demônio avivam e intensificam. É uma inclinação habitual que nos leva ao amor desordenado dos prazeres sensuais, da nossa própria excelência e pelos bens terrenos. Esses dois homens fatalmente entram em conflito. A carne, ou o homem velho, deseja e busca o prazer sem ater-se à moralidade. O espírito faz lembrar que há prazeres proibidos e perigosos que, por dever e porque é vontade de Deus, deve-se renunciar. Porém, como a carne persiste em seus desejos, a vontade, ajudada pela graça, fica obrigada a mortificá-la e, se for preciso, a crucificá-la. Assim, o cristão é um soldado (II Tim 2,1), um atleta que combate até a morte por uma coroa imortal.”

(Adolphe Tanquerey, Tratado de Teologia Ascética e Mística)

 
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