“Senhor para onde levas Tu os que beijas e abraças, senão para o teu próprio coração?”

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Por causa das minhas mãos, Senhor, que fizeram o que não deviam, as tuas mãos foram trespassadas por cravos e os teus pés pelos meus pés. Pelo desregrar da minha vista, os teus olhos adormeceram na morte, e os teus ouvidos pelo meu ouvido. A lança do soldado abriu o teu lado para que, pela tua chaga, escorram todas as impurezas do meu coração há
tanto tempo inflamado e corroído pela doença. Finalmente, Tu morreste para que eu viva; foste enterrado para eu poder ressuscitar. Tal é o beijo da tua doçura, dado à tua esposa; tal é o abraço do teu amor. [...] A esse beijo, recebeu-o o ladrão na cruz, depois da sua confissão; recebeu-o Pedro quando o seu Senhor olhou para ele enquanto ele o negava, e saiu a chorar. Muitos dos que Te crucificaram, convertidos a Ti depois da tua Paixão, fizeram aliança contigo nesse beijo [...]; quando beijaste os publicanos e os pecadores, tornaste-Te seu amigo e conviveste com eles [...]
Senhor para onde levas Tu os que beijas e abraças, senão para o teu próprio coração? O teu coração, Jesus, é esse doce manancial da Tua divindade que está no teu íntimo, o vaso de ouro da alma, que ultrapassa todo o conhecimento. Bem-aventurados todos aqueles a quem o teu abraço atrai! Bem-aventurados aqueles que, fugindo para as profundezas, foram escondidos por Ti no segredo do teu coração, aqueles que levas aos ombros, ao abrigo dos males desta vida.  Bem-aventurados aqueles que não têm outra esperança se não o calor e a proteção das tuas asas.
A força dos teus ombros protege aqueles que escondes no fundo do teu coração, onde podem dormir tranquilamente. Uma doce espera os aguarda nesse abrigo de uma consciência santa, e da expectativa da recompensa que prometeste. A sua fraqueza não os faz desfalecer, nem nenhuma inquietude os faz murmurar.

(Guilherme de Saint-Thierry)

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