Castelo Interior (e-book para download)

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COM ESTA POSTAGEM queremos indicar aos nossos leitores um lançamento de imenso valor para todos os fiéis católicos. Àqueles que nos pedem dicas de leitura, esta é uma daquelas obras que figura quase que obrigatoriamente em nossa lista de indicadas. Esgotado nas livrarias, acaba de ser relançado, em versão bem cuidada e com aprovação eclesiástica (Imprimatur por Dom José Antônio Peruzzo, arcebispo metropolitano de Curitiba), "O Castelo Interior" da grande Doutora mística da Igreja Santa Teresa de Jesus (ou d'Ávila), com tradução atualizada de Antonio Carlos de Souza. A obra está disponível nas versões impressa e digital; o ebook, PDF, ePub e/ou Mobi pode ser baixado gratuitamente...

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Postagem original em: http://www.ofielcatolico.com.br/2016/12/lancamento-o-castelo-interior-de-santa.html 

Site oficial: https://ocastelointerior.wordpress.com/

Jesus na Manjedoura

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- Que fazeis, menino Deus,

Nestas palhas encostado?

- Jazo aqui por teu pecado.

- Ó menino mui formoso,

Pois que sois suma riqueza,

Como estais em tal pobreza?

- Por fazer-te glorioso

E de graça mui colmado,

Jazo aqui por teu pecado.

- Pois que não cabeis no céu,

Dizei-me, santo Menino,

Que vos fez tão pequenino?

- O amor me deu este véu,

Em que jazo embrulhado,

Por despir-te do pecado.

- Ó menino de Belém,

Pois sois Deus de eternidade,

Quem vos fez de tal idade?

- Por querer-te todo o bem

E te dar eterno estado,

Tal me fez o teu pecado.

(Pe José de Anchieta)

A sabedoria de Deus

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São João Baptista vivia apartado do mundo, era nazir (cf Lc 1,15; Nb 6,1), consagrado a Deus. Deixou o mundo e com ele se confrontou [...], chamando-o ao arrependimento. Todos os habitantes de Jerusalém iam ter com ele ao deserto (Mc 3,5) e ele confrontava-os face a face. Mas ao ensinar falava de Alguém que havia de vir a eles e falar-lhes de um modo muito diferente.
Alguém que não Se separaria deles, que não Se apresentaria como um ser superior, mas como um irmão, feito da mesma carne e dos mesmos ossos, sendo um entre muitos irmãos, um entre a multidão. E, na verdade, Ele já estava no meio deles: ‘No meio de vós está Quem vós não conheceis’ (Jo 1,26).
[...]
Por fim, Jesus começa a mostrar-Se e a ‘manifestar a Sua glória’ (Jo 2,11) através de milagres. Mas onde? Numa boda. E como? Multiplicando o vinho. [...] Comparai tudo isso com o que Ele diz de Si próprio: ‘Veio João, que não comia nem bebia. Vem o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: 'É um bêbado'’. Podiam odiar João, mas respeitavam-no; a Jesus, porém, desprezavam-n'O. [...]
Isto porque Tu, oh meu Senhor, amas tanto esta natureza humana que criaste. Não nos amas simplesmente enquanto Tuas criaturas, obra das Tuas mãos, mas enquanto seres humanos. Tu amas tudo, pois tudo criaste, mas amas os homens acima de tudo. Como é isto possível Senhor? Que há no homem que não há nas outras criaturas? ‘Que é o homem para Te lembrares dele, o filho do homem para com ele Te preocupares?’ (Sl 8,5) [...] Não tomaste a natureza dos anjos quando Te manifestaste para a nossa salvação e não tomaste uma natureza humana, nem um papel, nem um cargo acima duma vida humana vulgar —
não foste nazir, nem sacerdote, nem levita, nem monge, nem eremita. Vieste, precisa e plenamente, nesta natureza humana que tanto amas, [...] nesta carne que caiu com Adão, com todas as nossas enfermidades, os nossos sentimentos e as nossas afinidades, excetuando o pecado.

(J. Henry Newmann)

“Quanto estiveres em teu Reino”

São João Crisóstomo inspirado por São Paulo

Abriu-se hoje para nós o paraíso, fechado há milhares de anos; neste dia, nesta hora, Deus introduziu nele o ladrão. Realizou assim duas maravilhas: abriu-nos o paraíso e fez entrar nele um ladrão. Hoje, Deus devolveu-nos a nossa velha pátria; hoje, conduziu-nos à cidade de nossos pais; hoje, abriu uma morada comum a toda a humanidade. «Hoje estarás comigo no Paraíso.» Que dizes, Senhor? Estás crucificado, cravado de pregos, e prometes o Paraíso? Sim, diz Ele, para que, pela cruz, conheças o meu poder. […]
Não foi por ressuscitar um morto, por dominar o mar e o vento nem por expulsar os demónios que Ele conseguiu transformar a alma pecadora do ladrão, mas por ter sido crucificado, preso com pregos, coberto de insultos, de escarros, de troças e de ultrajes, para que visses os dois aspectos do seu poder soberano. Ele fez tremer toda a criação e fendeu os rochedos (Mt27,51); e atraiu a Si a alma do ladrão, mais dura do que a pedra, revestindo-a de honra. […]
Jamais rei algum, certamente, permitiria a um ladrão ou a outro de seus súbditos sentar-se a seu lado ao entrar soberanamente na cidade de seu reino. Mas Cristo fê-lo: ao entrar na sua santa pátria, introduz nela consigo um ladrão. Ao agir deste modo […], Ele não a desonra com a presença de um ladrão; bem pelo contrário, honra o Paraíso, porque é uma glória para o Paraíso que o seu Senhor torne um ladrão digno das delícias que ali se saboreiam. De igual modo, quando faz entrar os cobradores de impostos e as meretrizes no Reino dos céus (Mt 21,31) […], fá-lo para glória desse lugar santo, assim mostrando que o Senhor do Reino dos céus é tão grande, que pode restituir toda a dignidade às meretrizes e aos cobradores de impostos, de maneira que estes se tornam merecedores de tal honra e de tal dom. Admiramos um médico por o vermos curar homens que padecem de doenças consideradas incuráveis. É portanto justo admirarmos a Cristo […] por O vermos restabelecer cobradores de impostos e meretrizes numa tal santidade espiritual, que se tornam dignos do céu.

São João Crisóstomo (c. 345-407), presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja
Homilia 1 sobre a cruz e o ladrão, para Sexta-feira Santa, 2; PG 49, 401

publicação original do Blog Spes Deus: http://spedeus.blogspot.com.br/2016/11/quando-estiveres-no-teu-reino.html

É já aqui o céu

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Cristo é o nosso caminho. Ele conduz-nos com segurança pelos seus preceitos e, no seu corpo, leva-nos poderosamente para o céu. Vi que, tendo-nos a todos em Si, a nós a quem vai salvar, Ele nos oferece com devoção a seu Pai celeste, dom que o Pai recebe com grande reconhecimento e remete cortêsmente a seu filho Jesus Cristo. Esse dom e esse gesto são alegria para o Pai, felicidade para o Filho e regozijo para o Espírito Santo. Entre tudo o que podemos fazer, nada há que seja mais agradável a Nosso Senhor que ver-nos rejubilar nessa alegria que a Trindade tem pela nossa salvação.
Seja o que for que sintamos — alegria ou tristeza, fortuna ou infortúnio —, Deus quer que compreendamos e acreditemos que estamos mais verdadeiramente no céu que na terra. A nossa fé vem do amor natural que Deus depositou na nossa alma, da clara luz da nossa razão e da inteligência inquebrantável que recebemos de Deus desde o primeiro instante em que fomos criados. Desde que a nossa alma foi insuflada no nosso corpo tornado sensível, a misericórdia e a graça começaram a sua obra, tomando conta de nós e guardando-nos com piedade e amor. Por meio desta operação, o Espírito Santo forma na nossa fé a esperança de regressarmos à nossa substância superior, ao poder de Cristo, desenvolvido e levado à sua plenitude pelo Espírito Santo. […] Pois no próprio instante em que a nossa alma é criada sensível, ela torna-se cidade de Deus, preparada para Ele desde toda a eternidade. É a essa cidade que Ele vem; nunca a deixará, pois Deus nunca está fora da alma, e nela permanecerá na beatitude para sempre.

(Juliana de Norwich)

“Senhor para onde levas Tu os que beijas e abraças, senão para o teu próprio coração?”

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Por causa das minhas mãos, Senhor, que fizeram o que não deviam, as tuas mãos foram trespassadas por cravos e os teus pés pelos meus pés. Pelo desregrar da minha vista, os teus olhos adormeceram na morte, e os teus ouvidos pelo meu ouvido. A lança do soldado abriu o teu lado para que, pela tua chaga, escorram todas as impurezas do meu coração há
tanto tempo inflamado e corroído pela doença. Finalmente, Tu morreste para que eu viva; foste enterrado para eu poder ressuscitar. Tal é o beijo da tua doçura, dado à tua esposa; tal é o abraço do teu amor. [...] A esse beijo, recebeu-o o ladrão na cruz, depois da sua confissão; recebeu-o Pedro quando o seu Senhor olhou para ele enquanto ele o negava, e saiu a chorar. Muitos dos que Te crucificaram, convertidos a Ti depois da tua Paixão, fizeram aliança contigo nesse beijo [...]; quando beijaste os publicanos e os pecadores, tornaste-Te seu amigo e conviveste com eles [...]
Senhor para onde levas Tu os que beijas e abraças, senão para o teu próprio coração? O teu coração, Jesus, é esse doce manancial da Tua divindade que está no teu íntimo, o vaso de ouro da alma, que ultrapassa todo o conhecimento. Bem-aventurados todos aqueles a quem o teu abraço atrai! Bem-aventurados aqueles que, fugindo para as profundezas, foram escondidos por Ti no segredo do teu coração, aqueles que levas aos ombros, ao abrigo dos males desta vida.  Bem-aventurados aqueles que não têm outra esperança se não o calor e a proteção das tuas asas.
A força dos teus ombros protege aqueles que escondes no fundo do teu coração, onde podem dormir tranquilamente. Uma doce espera os aguarda nesse abrigo de uma consciência santa, e da expectativa da recompensa que prometeste. A sua fraqueza não os faz desfalecer, nem nenhuma inquietude os faz murmurar.

(Guilherme de Saint-Thierry)

Combate espiritual

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Se as guerras [do Antigo Testamento] não fossem símbolos das guerras espirituais, parece-me que os livros de história dos judeus não teriam sido transmitidos aos discípulos de Cristo, que veio ensinar a paz; nem teriam sido transmitidos pelos apóstolos como leitura a fazer nas assembleias. Com efeito, de que serviriam tais descrições de guerras àqueles que ouvem Jesus dizer: ‘Dou-vos a paz, deixo-vos a minha paz’, àqueles a quem o apóstolo Paulo ordenou: ‘Não vos vingueis por vós próprios’, e ‘Aceitai a injustiça, preferi ser prejudicados’?
Paulo bem sabia que não temos de travar uma guerra material, mas temos de combater com grande esforço na nossa alma contra os nossos adversários espirituais. Qual comandante de um exército, dá pois o seguinte preceito aos soldados de Cristo: ‘Revesti-vos das armas de Deus, a fim de poderdes resistir às emboscadas do demônio’. E foi para que possamos ir buscar aos atos dos antigos modelos para a nossa guerra espiritual que quis que se lessem na assembleia os relatos das suas façanhas. Assim, se formos espirituais, nós que aprendemos que ‘a Lei é espiritual’, abordaremos essa leitura ‘das realidades espirituais em termos espirituais’. E consideraremos, ao ver as nações que atacaram visivelmente o Israel material, qual é o poder das nações dos inimigos espirituais, desses ‘espíritos maus que andam espalhados pelos ares’, travando guerras contra a Igreja do Senhor, que é o novo Israel.

(Orígenes)

Aproximar-se do Pai

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Se a conduta deste jovem [o filho pródigo] nos desagrada, aquilo que nos causa horror é a sua partida: no nosso caso, não nos afastemos nunca de um pai destes! A simples visão do pai faz fugir os pecados, expulsa o erro, exclui qualquer má conduta e qualquer tentação. Mas, no caso de termos partido, de termos esbanjado toda a herança do pai numa vida desregrada, de nos ter acontecido cometer qualquer erro ou má ação, de termos caído no abismo da blasfémia, levantemo-nos e regressemos para junto de um pai tão bom, convidados por exemplo tão belo.
‘O pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos.’ Pergunto-vos: haverá lugar para o desespero? Haverá pretexto para desculpas? Falsas razões para receios? A menos que se receie o encontro com o pai, que se receiem os seus beijos e os seus abraços; a menos que se julgue que o pai quer tomar para recuperar, em lugar de receber para perdoar, quando pega no filho pela mão, o toma nos abraços e o aperta contra o coração. Mas este pensamento, que esmaga a vida, que se opõe à nossa salvação, é amplamente vencido, amplamente aniquilado pelo seguinte: O pai disse aos seus servos: ‘Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; dai-lhe um anel para o dedo e sandálias para os pés. Trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado.’ Após termos ouvido isto, poderemos ainda demorar-nos? Que esperamos para regressar para junto do pai?

(São Pedro Crisólogo)

A árvore da Cruz

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Viste essa vitória admirável ? Viste os magníficos prodígios da cruz? Posso dizer-te alguma coisa ainda mais admirável? Ouve o modo como se deu a vitória, e hás-de maravilhar-te mais ainda. Cristo venceu o diabo valendo-Se dos meios com que o diabo tinha vencido, e derrotou-o tomando as próprias armas que ele tinha usado. Ouve como o fez.
A virgem, o madeiro e a morte foram os sinais da nossa derrota. A virgem era Eva, pois ainda não conhecera varão. O madeiro era a árvore; a morte, o castigo de Adão. Mas agora, a virgem, o madeiro e a morte, que foram os sinais da nossa derrota, tornaram-se os sinais da nossa vitória. Com efeito, em vez de Eva está Maria; em vez da árvore do bem e do mal está o madeiro da cruz; em vez da morte de Adão está a morte de Cristo.
Vês como o demônio foi vencido pelos mesmos meios por que vencera? Na árvore, o diabo fez cair Adão; na árvore, Cristo derrotou o diabo. A primeira levava à região dos mortos; mas a segunda faz voltar até os que já para ali haviam descido. Do mesmo modo, a primeira árvore ocultou o homem já vencido e nu; esta porém mostrou a todos o vencedor, também nu, levantado ao alto.
Todos estes magníficos efeitos nos conseguiu a cruz: a cruz é troféu levantado contra os demônios e uma espada contra o pecado, espada com a qual Cristo trespassou a serpente; a cruz é a vontade do Pai, a glória do seu Filho unigénito, a alegria do Espírito Santo, a honra dos anjos, a segurança da Igreja, o regozijo de São Paulo, a fortaleza dos santos, a luz de toda a terra.

(São João Crisóstomo)

Oração de arrependimento

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“Senhor, ofereço-Vos sobre o altar de Vossa propiciação todos os meus pecados e delitos que cometi em Vossa presença e na de Vossos Santos Anjos, desde o dia em que pela primeira vez pude pecar até hoje; para que os abraseis todos juntos e os queimeis com o fogo de Vossa caridade, apagueis todas as manchas de meus crimes e me purifiqueis a consciência de todas as faltas, e me restituis Vossa graça que perdi pelo pecado, perdoando-me plenamente, e recebendo-me misericordiosamente no ósculo da paz”

(Tomás de Kempis, Imitação de Cristo)

Jugo suave

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Aqueles que se queixam da dureza do jugo do Senhor talvez não tenham rejeitado completamente o pesado jugo da cobiça do mundo ou, se o rejeitaram, a ele de novo se sujeitaram, para sua grande vergonha. Para quem os vê de fora, eles carregam o jugo do Senhor; mas por dentro submetem os seus ombros ao fardo das preocupações do mundo, pondo na conta do peso do jugo do Senhor as penas e as dores que infligem a si mesmos. [...] Pois o jugo do Senhor ‘é suave e o seu peso é leve’.
Com efeito, haverá coisa mais suave e mais gloriosa do que ser elevado acima do mundo pelo desprezo que se lhe vota e, estando instalado nos píncaros de uma consciência em paz, ter o mundo inteiro a seus pés? Percebemos então que não há nada a desejar, nada a temer, nada a cobiçar, nada que seja nosso e que nos possa ser tirado, que nenhum mal pode ser-nos causado por outrem. O olhar do coração dirige-se para ‘a herança incorruptível, isenta de mancha e de degradação, que nos está reservada nos céus’ (1Ped 1,4). Com uma espécie de grandeza de alma, pouco ligamos às riquezas do mundo, porque elas passam; ou aos prazeres da carne, porque eles estão manchados; ou aos faustos do mundo, porque murcham. [...] E, na alegria, retomamos a palavra do profeta: ‘Todo o homem é como a erva do campo, toda a sua graça é como a erva que floresce; a erva secou, a flor murchou, mas a Palavra do Senhor permanece para sempre’ (Is 40,6-8). [...] Na caridade, e só na caridade, reside a verdadeira tranquilidade, a verdadeira doçura; é ela o jugo do Senhor.

(Santo Aelredo de Rievaulx)

A exemplo de Cristo…

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A morte, uma vez vencida pelo Salvador e fixada na cruz como que num pelourinho, será pisada por todos os que caminham em Cristo. Prestando homenagem a Cristo, estes zombam da morte, não lhe dão importância e repetem o que foi escrito sobre ela: ‘Morte, onde está a tua vitória? Inferno, onde está o teu ferrão?’ (1Co 15,55; Os 13,14). Será uma fraca demonstração da vitória obtida pelo Salvador sobre ela que os cristãos, crianças e raparigas, desprezem a vida presente e se preparem para morrer em vez de renegarem a sua fé? O homem teme naturalmente a morte e a dissolução do seu corpo; mas, coisa extraordinária, aquele que se revestiu da fé na cruz despreza este sentimento natural e, por Cristo, já não teme a morte.
Se a morte, outrora tão forte e por isso mesmo tão temível, é agora desprezada após a vinda do Salvador, após a Sua morte corporal e a Sua ressurreição, é evidente que foi por Cristo na cruz que ela foi aniquilada e vencida. Quando, depois da noite, o Sol aparece e ilumina toda a superfície da terra, não há qualquer dúvida de que o sol que espalha a sua
luz por todo o lado é o mesmo que afugentou as trevas e tudo iluminou.
Assim, é evidente que o Salvador manifestado no Seu corpo é precisamente Aquele que destruiu a morte e que todos os dias demonstra a Sua vitória sobre ela nos Seus discípulos. Quando vemos homens, mulheres e crianças correrem a lançar-se para a morte pela fé em Cristo, quem seria tão tolo, quem seria tão incrédulo, quem seria tão cego que não compreendesse e pensasse que é Cristo, a Quem esses homens prestam homenagem, que consegue e dá a cada um a vitória sobre a morte, ao destruir o poder desta em todos os que têm fé n'Ele e ostentam o sinal da Sua cruz?

(Santo Atanásio)

Faça-se em mim

Nossa Senhora do Carmo

Deus quer servir-Se de instrumentos para fazer as suas obras. […] Deus, que nos deu uma vontade livre, quer que O sirvamos livremente como instrumentos, ajustando a nossa vontade à sua, do mesmo modo que sua Santíssima Mãe, quando diz: ‘Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a sua palavra.’ A expressão ‘faça-se em mim’ deve ressoar constantemente nos nossos lábios, pois entre a vontade da Imaculada e a nossa deve existir uma harmonia completa. Então que devemos fazer? Deixemo-nos conduzir por Maria e nada teremos a temer.

(São Maximiliano Kolbe)

As virtudes de Cristo

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A humildade com que Cristo ‘Se esvaziou a Si mesmo, tomando a condição de servo’ (Fl 2,7) é para nós luz, como é luz também a Sua recusa da glória deste mundo, Ele que preferiu nascer num estábulo em vez de um palácio e sofrer uma morte vergonhosa numa cruz. É graças a esta humildade que somos capazes de ter consciência de quanto é detestável o pecado de alguém que, sendo pó apenas (Gn 2,7), um pobre homenzinho de nada, pelo poder do orgulho se glorifica e recusa a obedecer, ao passo que vemos a Deus infinito humilhado, desprezado e entregue ao bel-prazer dos homens.
A mansidão com que suportou a fome, a sede, o frio, os insultos, os golpes, as feridas, também ela é para nós luz, uma vez que ‘não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador’ (Is 53,7). É graças a esta mansidão que somos capazes de ver como a cólera é inútil, assim como a ameaça; então, dispomo-nos a sofrer e a servir a Cristo de todo o coração. É graças a ela que, por fim, compreendemos tudo o que nos é pedido: expiar os nossos pecados na submissão e no silêncio e suportar com paciência o sofrimento quando surgir. Assim Cristo suportou os Seus tormentos com essa brandura e paciência, não pelos Seus próprios pecados, mas pelos dos outros.
Irmãos caríssimos, reflitamos desde já em todas as virtudes que Cristo nos ensinou com a Sua vida exemplar, nos recomenda com o Seu estímulo e nos ajuda a imitar com a fortaleza da Sua graça.

(Lansperge, o Cartuxo)

Criai em mim um coração que seja puro

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Que venham os sábios, perguntando onde está Deus. Deus encontra-Se onde o sábio, com toda a sua orgulhosa ciência, não consegue chegar. Deus encontra-Se no coração desprendido, no silêncio da oração, no sofrimento como sacrifício voluntário, no vazio do mundo e das suas criaturas. Deus está na cruz; enquanto não amarmos a cruz, não O veremos, não O sentiremos. Calai-vos homens, que não parais de fazer barulho!
Ah, Senhor, como estou feliz no meu retiro! Como Te amo na minha solidão! Como gostaria de Te oferecer o que já não tenho, pois tudo dei! Pede-me, Senhor. Mas que posso eu dar-Te? O meu corpo, já o tens, é teu; a minha alma, Senhor, por que suspira ela se não por Ti, para que no fim acabes por tomá-la? O meu coração está aos pés de Maria, chorando de amor e sem querer mais nada se não Tu.
A minha vontade: por acaso desejo, Senhor, o que Tu não desejas? Diz-me, Senhor, qual é a tua vontade e porei a minha em uníssono. Amo tudo o que me envias e me dás, tanto a saúde como a doença, tanto estar aqui como ali, tanto ser uma coisa como outra; toma a minha vida, Senhor, quando o desejares. Como não ser feliz assim? Se o mundo e os homens soubessem. Mas eles não saberão, estão muito ocupados com os seus interesses, têm o coração muito cheio de coisas que não são Deus.

(São Rafael Arnáiz Barón)

A caridade

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Quem possui a caridade de Cristo cumpra os mandamentos de Cristo. Quem poderá descrever o vínculo da caridade divina? Quem poderá exprimir a magnificência da sua beleza? A altura a que nos eleva a caridade é inexprimível. A caridade une-nos a Deus, «a caridade cobre a multidão dos pecados» (1Ped 4,8), a caridade tudo aceita, tudo suporta com paciência. Nada há de indigno na caridade, nada de soberbo. A caridade não admite cismas, não promove discórdias, tudo realiza em perfeita harmonia; na caridade encontram a perfeição todos os eleitos de Deus, e sem a caridade nada é agradável a Deus. Na caridade nos acolheu o Senhor; pela sua caridade para conosco, Jesus Cristo nosso Senhor, segundo a vontade divina, derramou o seu sangue por nós, imolou a sua carne para redimir a nossa carne, deu a sua vida para salvar a nossa vida.
Vede, amados irmãos, como é grande e admirável a caridade, e como é inefável a sua perfeição. Quem é capaz de a praticar perfeitamente, a não ser aqueles a quem Deus torna dignos? Oremos, portanto, e supliquemos a sua misericórdia, para que nos faça viver na caridade, livres de toda a parcialidade humana. Passaram todas as gerações, desde Adão até hoje; mas aqueles que, por graça de Deus, foram perfeitos na caridade, alcançaram a terra dos santos e hão-de manifestar-se quando aparecer o reino de Cristo. 
Felizes de nós, irmãos caríssimos, se cumprirmos os preceitos de Deus na concórdia da caridade, porque pela caridade alcançamos o perdão dos pecados.

(São Clemente de Roma)

Imaculado Coração

viewNo Novo Testamento vemos que a fé de Maria, por assim dizer, ‘atrai’ o dom do Espírito Santo. Antes de tudo, na concepção do Filho de Deus, mistério que o próprio Arcanjo Gabriel assim explica: ‘O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra’ (Lc 1,35). O coração de Maria, em perfeita consonância com o Filho divino, é templo do Espírito da verdade (Jo 14,17), onde cada palavra e acontecimento são conservados na fé, na esperança e na caridade (cf Lc 2,19.51).
Assim, podemos estar certos de que, em todo o arco da vida escondida em Nazaré, o santíssimo coração de Jesus sempre encontrou no coração imaculado da Mãe uma chama ardente de oração e de atenção constante à voz do Espírito. O que aconteceu durante as bodas de Caná (Jo 2,1ss) é testemunho desta singular sintonia entre Mãe e Filho na busca da vontade de Deus. Numa situação cheia de símbolos da aliança, como o banquete nupcial, a Virgem Maria intercede e provoca, por assim dizer, um sinal de graça superabundante: o ‘vinho bom’, que remete para o mistério do Sangue de Cristo. Isto conduz-nos diretamente ao Calvário, onde Maria se encontra aos pés da cruz juntamente com as outras mulheres e com o apóstolo João. A Mãe e o discípulo recolhem espiritualmente o testamento de Jesus: as suas últimas palavras e o seu último suspiro, no qual Ele começa a efundir o Espírito; e recolhem o brado silencioso do seu sangue, inteiramente derramado por nós (cf Jo 19,25-34). Maria sabia de onde provinha aquele sangue: tinha-se formado nela por obra do Espírito Santo, e sabia que aquele mesmo poder criador ia ressuscitar Jesus, como Ele tinha prometido.
Assim, a fé de Maria apoiou a dos discípulos até ao encontro com o Senhor ressuscitado, e continuou a acompanhá-los também depois da sua Ascensão ao céu, na expectativa do ‘baptismo no Espírito Santo’ (cf Act 1,5). Eis porque Maria é, para todas as gerações, imagem e modelo da Igreja, que juntamente com o Espírito caminha no tempo invocando o retorno glorioso de Cristo: ‘Vinde, Senhor Jesus’ (cf Ap 22,17.20).

(Bento XVI)

Sagrado coração

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Senhor para onde levas Tu os que beijas e abraças, senão para o teu próprio coração? O teu coração, Jesus, é esse doce manancial da Tua divindade que está no teu íntimo, o vaso de ouro da alma, que ultrapassa todo o conhecimento (He 9,4). Bem-aventurados todos aqueles a quem o teu abraço atrai! Bem-aventurados aqueles que, fugindo para as profundezas, foram escondidos por Ti no segredo do teu coração, aqueles que levas aos
ombros, ao abrigo dos males desta vida (Sl 31,21). Bem-aventurados aqueles que não têm outra esperança se não o calor e a proteção das tuas asas (Sl 90,4).
A força dos teus ombros protege aqueles que escondes no fundo do teu coração (Lc 13,34), onde podem dormir tranquilamente. Uma doce espera os aguarda nesse abrigo de uma consciência santa, e da expectativa da recompensa que prometeste. A sua fraqueza não os faz desfalecer, nem nenhuma inquietude os faz murmurar (Sl 68,13).

(Guilherme de Saint-Thierry)

Oração para pedir a Sabedoria

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Concede-me, Deus misericordioso, que deseje com ardor o que Tu aprovas, que o procure com prudência, que o reconheça em verdade, que o cumpra na perfeição, para louvor e glória do Teu nome.
Põe ordem na minha vida, ó meu Deus, e permite-me que conheça o que Tu queres que eu faça, e que o cumpra como é necessário e útil para a minha alma. Que eu chegue a Ti, Senhor, por um caminho seguro e reto; caminho que não se desvie nem na prosperidade nem na adversidade, de tal forma que Te dê graças nas horas prósperas e nas adversas conserve a paciência, não me deixando exaltar pelas primeiras nem abater pelas segundas. Que nada me alegre ou entristeça, exceto o que me conduza a Ti ou de Ti me separe. Que eu não deseje agradar nem receie desagradar senão a Ti. Tudo o que passa se torne desprezível a meus olhos por Tua causa, Senhor, e tudo o que Te diz respeito me seja caro, mas Tu, meu Deus, mais do que o resto. Que eu nada deseje fora de Ti.
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Te conheça, uma vontade que Te busque, uma sabedoria que Te encontre, uma vida que Te agrade, uma perseverança que Te espere com confiança e uma confiança que te possua enfim. Concede-me ser atormentado com as Tuas dores pela penitência, recorrer no caminho aos Teus benefícios pela graça, gozar das Tuas alegrias sobretudo na pátria pela glória. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos.

(São Tomás de Aquino)

Virgem Santíssima como exemplo

Salve Maria Puríssima, de todas a mais bela

Cristo urge-nos. Cada um de vós há-de ser, não só apóstolo, mas apóstolo de apóstolos, arrastando outros convosco, movendo os demais para que também eles deem a conhecer Jesus Cristo. Talvez algum de vós me pergunte como pode dar esse conhecimento às pessoas. E eu respondo-vos: com naturalidade, com simplicidade, vivendo como viveis, no meio do mundo, entregues ao vosso trabalho profissional e aos cuidados da vossa família.
[...] A vida corrente pode ser santa e cheia de Deus; o Senhor chama-nos a santificar o trabalho quotidiano, porque aí está também a perfeição do cristão. Consideramo-lo [...] contemplando a vida de Maria.Não nos esqueçamos de que a quase totalidade dos dias que Nossa Senhora passou na Terra decorreram de forma muito semelhante à vida diária de muitos milhões de mulheres, ocupadas em cuidar da sua família, em educar os seus filhos, em levar a cabo as tarefas do lar. Maria santifica as mais pequenas coisas, aquilo que muitos consideram erradamente como não transcendente e sem valor: o trabalho de cada dia, os pormenores de atenção com as pessoas queridas, as conversas e as visitas por motivo de parentesco ou de amizade... Bendita normalidade, que pode estar cheia de tanto amor de Deus!Na verdade, é isso o que explica a vida de Maria: o amor. Um amor levado até ao extremo, até ao esquecimento completo de si mesma, contente por estar onde Deus quer que esteja e cumprindo com esmero a vontade divina. Isso é o que faz com que o mais pequeno dos seus gestos nunca seja banal, mas cheio de significado. Maria, nossa Mãe, é para nós exemplo e caminho. Havemos de procurar ser como Ela nas circunstâncias concretas em que Deus quis que vivêssemos.

(São Josemaría Escrivá de Balaguer)

“Vossa sou, para Vós nasci”

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Vossa sou, para Vós nasci,
Que quereis fazer de mim?

 
Soberana Majestade,
Eterna Sabedoria,
Bondade tão boa para a minha alma,
Vós, Deus, Alteza, Ser Único, Bondade,
Olhai para a minha baixeza,
Para mim que hoje Vos canto o meu amor.
Que quereis fazer de mim?

Vossa sou, pois me criastes,
Vossa, pois me resgatastes,
Vossa, pois me suportais,
Vossa, pois me chamastes,
Vossa, pois me esperais,
Vossa pois não estou perdida,
Que quereis fazer de mim?

Que quereis então, Senhor tão bom,
Que faça tão vil servidor?
Que missão destes a este escravo pecador?

Eis-me aqui, meu doce amor,
Meu doce amor, eis-me aqui.
Que quereis fazer de mim?

Eis o meu coração,
Que coloco em vossas mãos,
Com o meu corpo, minha vida, minha alma,
Minhas entranhas e todo o meu amor.
Doce Esposo, meu Redentor,
Para ser vossa me ofereci,
Que quereis fazer de mim?

Dai-me a morte, dai-me a vida,
A saúde ou a doença
Dai-me honra ou desonra,
A guerra, ou a maior paz,
A fraqueza ou a paz plena,
A tudo isso, digo sim:
Que quereis fazer de mim?

Vossa sou, para Vós nasci,
Que quereis fazer de mim?

(Santa Teresa de Ávila)

Eu Sou o Pão da Vida

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É admirável que Deus tenha feito chover o maná sobre os nossos pais e que eles tenham sido diariamente saciados com o pão do céu. É por isso que está escrito: ‘O homem comeu o pão dos anjos’ (Sl 77,25). Contudo, os que comeram este pão do deserto estão todos mortos. Pelo contrário, o alimento que agora recebes, este Pão vivo que desceu dos céus, é sustento para a vida eterna, e quem come deste Pão não morrerá jamais. Ele é o Corpo de Cristo.
Esse maná era do céu, este é do cimo dos céus; aquele era um dom do céu, este é o Senhor dos céus; aquele estava sujeito à corrupção quando era guardado nem que fosse até ao dia seguinte, a este é estranha toda a corrupção: quem dele prova com respeito não pode ser tocado pela corrupção. A água brotou dos rochedos para os hebreus, para ti brota o sangue de Cristo. A água saciou-os por momentos, o sangue lava-te para sempre. Os hebreus beberam e têm sede, mas tu, depois de teres bebido, nunca mais poderás ter sede (Jo 4,14). Aquilo era a pré-figuração, isto é a verdade plena. […]
O maná era a ‘sombra do que devia vir’ (Col 2,17). Escuta o que foi manifestado a nossos pais: ‘De fato, todos bebiam de um rochedo espiritual que os seguia, que era Cristo’ (1Cor 10,4). […] Tu conheceste o cumprimento, tu viste a luz plena, a verdade pré-figurada, o corpo do Criador. […] Sobre aquilo que comemos e aquilo que bebemos, diz o Espírito Santo: ‘Saboreai e vede como o Senhor é bom; feliz o homem que nele se abriga’ (Sl 33,9).

(Santo Ambrósio)

Uma oração

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Que eu não deseje nada fora de Ti. Concede-me frequentemente que eleve o meu coração até Ti e, quando fraquejar, que me arrependa da minha falta com pesar, com o firme propósito de me corrigir. Concede-me, Senhor Deus, um coração vigilante que nenhum pensamento estranho afaste para longe de Ti; um coração nobre que nenhuma afeição indigna abata; um coração reto que nenhuma intenção equivoca desvie; um coração firme que nenhuma adversidade quebre; um coração livre que nenhuma paixão violenta domine. Confere-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que Te conheça, um ardor que Te procure, uma sabedoria que Te encontre, uma vida que Te agrade, uma perseverança que Te espere com confiança e uma confiança que por fim Te possua. Confere-me pela penitência ser atribulado com aquilo que Tu suportaste, usar no caminho da Tua proteção pela graça, gozar das Tuas alegrias, sobretudo na pátria pela glória. Ó Tu que, sendo Deus, vives e reinas por todos os séculos. Amém.

(S. Tomás de Aquino)

Ressuscitou!

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Tu, que ao nascer do dia foste chorado
Pelas mulheres que perfumes levavam
Concede agora que o meu coração verta 
Lágrimas de fogo por Teu amor ardente.

E graças à boa nova que o anjo
Sentado na pedra clamava (Mt 28,2),
Faz que eu ouça o som
Da trombeta final que anuncia a ressurreição.

Do sepulcro novo e virgem
Ressuscitaste com Teu corpo nascido da Virgem;
Foste para nós as primícias
E o primogénito de entre mortos.

E a mim, a quem o Inimigo prendeu
Com o mal do corporal pecado
Digna-Te libertar-me de novo
Como o fizeste às almas prisioneiras dos mortos.

No jardim Te revelaste
A Maria Madalena,
Mas não permitiste que de Ti se aproximasse
Aquela que pertencia ainda à raça dos que caíram.

Revela-Te a mim, também, ao oitavo dia
Na grande e derradeira madrugada;
E que nesse momento permitas
À minha alma indigna que se aproxime de Ti.

(São Nersés Snorhali)

A Cruz…

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Hoje, avança a cruz, a criação exulta; a cruz, caminho dos perdidos, esperança dos cristãos, pregação dos apóstolos, segurança do universo, fundamento da Igreja, fonte para os que têm sede. Em grande doçura, Jesus é conduzido à Paixão: é conduzido ao julgamento de Pilatos; à hora sexta, escarnecem dele; até à hora nona, suporta a dor dos pregos; depois, a morte põe fim à sua Paixão. Na décima segunda hora, é descido da cruz: parece com um leão adormecido.
Durante o julgamento, a Sabedoria cala-Se e o Verbo nada diz. Os seus inimigos desprezam-No e crucificam-No. Aqueles a quem, ontem, tinha dado o seu corpo em alimento veem-No morrer de longe. Pedro, o primeiro dos apóstolos, foi o primeiro a fugir. André também fugiu, e João, que se inclinou sobre o seu peito, não impediu que um soldado Lhe perfurasse o lado com a lança. Os Doze fugiram; não disseram uma palavra em sua defesa, eles, por quem Ele dá a vida. Lázaro não está lá, ele, a quem Ele chamou à vida. O cego não chorou Aquele que lhe abriu os olhos para a luz, e os coxos, que graças a Ele podiam andar, não correram para junto dele.
Apenas um bandido, crucificado a seu lado, O confessa e Lhe chama seu rei. Ó ladrão, flor precoce da árvore da cruz, primeiro fruto da madeira do Gólgota! O Senhor reina: a criação rejubila. A cruz triunfa, e todas as nações, tribos, línguas e povos (Ap 7,9) vêm adorá-Lo. A cruz restitui a luz a todo o universo, dissipa as trevas e reúne as nações numa só Igreja, numa só fé, num só batismo no Amor. A cruz ergue-se no centro do mundo, cravada no Calvário.

(Santo Efrém)

Vem procurar a Tua ovelha perdida

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Senhor Jesus Cristo, que, para nos mostrares o cume das virtudes, escalaste a montanha com os Teus discípulos, ensinando-lhes as Beatitudes e as virtudes sublimes, prometendo-lhes recompensas próprias a cada um, concede que a minha fragilidade escute a Tua voz, adquira pela prática o mérito das virtudes, e que pela Tua misericórdia obtenha a recompensa prometida. Faz que, considerando o salário, não recuse o esforço do trabalho. Faz com que a esperança da salvação eterna me adoce o amargor do remédio, inflamando a minha alma com o esplendor da Tua obra. Senhor, do miserável que sou, faz um venturoso; conduz-me, pela Tua graça, das beatitudes terrenas às beatitudes da pátria.
Vem, Senhor Jesus, à procura do Teu servo, à procura da Tua ovelha errante e extenuada. Vem, Esposo da Igreja, à procura da dracma perdida. Vem, Pai de misericórdia, receber o filho pródigo que retorna a Ti. Vem, Senhor, porque só Tu podes chamar a ovelha que se extravia, reencontrar a dracma perdida, reconciliar o filho que partiu. Vem, para que haja salvação sobre a terra e alegria no céu! Converte-me a Ti e concede-me cumprir uma verdadeira e perfeita penitência, de modo que seja ocasião de alegria para os anjos. Meu doce Jesus, a Quem amo exclusivamente e acima de tudo, eu, pecador, rogo-Te, pela imensidade do Teu amor, que seja apenas consolado por Ti, meu tão doce Deus!

(Ludolfo de Saxe)

Quem será por mim?

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Ó Verdade querida, ó justa Retidão de Deus, como comparecerei perante ti, levando a minha iniquidade, o fardo da minha tão grande negligência? O tesouro da fé cristã e da vida espiritual, infelizmente, não o entreguei ao tesouro dos banqueiros da caridade, de onde o poderias ter retirado em seguida, segundo a tua vontade, aumentado com os juros de toda a perfeição. O talento que me foi confiado, o meu tempo, não só o gastei em vão, como o deixei fugir, desbaratado e totalmente perdido. Onde irei? Para que lado me voltarei? ‘Como poderei ausentar-me do Vosso espírito e como fugirei à Vossa presença?’ (Sl 138, 7).
Ò Verdade, tu tens por assessores inseparáveis a justiça e a retidão. Mal de mim se comparecer perante o teu tribunal sem ter advogado que responda por mim. Ó Caridade, vem resgatar-me. Responde tu por mim. Solicita tu o meu perdão. Defende tu a minha causa a fim de que, graças a ti, eu viva.
Já sei o que farei: ‘Elevarei o cálice da salvação’ (Sl 115, 13). Colocarei o cálice de Jesus sobre a bandeja vazia da Verdade. Assim suprirei tudo o que me falta. Assim cobrirei todos os meus pecados. Por esse cálice reconstruirei todas as minhas ruínas. Por esse cálice suprirei, dignamente e muito para além do necessário, tudo o que há em mim de imperfeito.
Ó Verdade querida, vir a ti sem o meu Jesus ser-me-ia intolerável; mas com o meu Jesus, comparecer perante ti será para mim coisa bem agradável e aprazível. Ó Verdade, senta-te agora no teu tribunal. ‘Nenhum mal temerei’ (Sl 22, 4).
(Santa Gertrudes d'Helfta)

Agredecidos porque agraciados

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Ele é feliz, aquele leproso samaritano que reconhecia que ‘não tinha nada que não tivesse recebido’ (1Cor 4, 7). Ele ‘salvaguardou o que lhe tinha sido confiado’ (2Tim 1, 12) e voltou para o Senhor, dando-Lhe graças. Feliz daquele que a cada graça recebida volta Àquele em que se encontra a plenitude de todas as graças, porque se nos mostrarmos reconhecidos por tudo o que recebemos, preparamos em nós lugar para a graça em maior abundância. Com efeito, apenas a nossa ingratidão entrava os nossos progressos após a nossa conversão.
Feliz pois aquele que se olha como um estrangeiro e que dá grandes ações de graças mesmo pelas mais pequenas dádivas, segundo o pensamento de que tudo o que se dá a um estrangeiro e a um desconhecido é uma dádiva puramente gratuita. Pelo contrário, ficamos infelizes e miseráveis quando, após nos termos mostrado inicialmente timoratos, humildes e devotos, esquecemos em seguida como era gratuito o que recebemos.
Peço-vos então, meus irmãos, ponhamo-nos cada vez mais humildemente sob a mão poderosa de Deus (1P 5, 6). Ponhamo-nos com grande devoção em ação de graças e Ele conceder-nos-á a única graça que pode salvar as nossas almas. Demonstremos o nosso reconhecimento não apenas por palavras e levianamente, mas através das obras e na verdade.

(São Bernardo)

“A terra que vemos não nos satisfaz”

Neusa-Dreckmann
A terra que vemos não nos satisfaz. É apenas um começo. Não é mais do que uma promessa dum porvir; nem mesmo na sua maior alegria, quando se cobre de todas as suas flores e mostra os seus tesouros escondidos da forma mais atraiva, mesmo então isso não nos basta. Sabemos que há nela muito mais coisas do que as que conseguimos ver. Um mundo de santos e de anjos, um mundo glorioso, o palácio de Deus, a montanha do Senhor Sabaoth, a Jerusalém celeste, o trono de Deus e de Cristo: todas essas maravilhas eternas, preciosíssimas, misteriosas e incompreensíveis se escondem por detrás do que vemos. O que vemos não é senão a camada exterior do reino eterno e é nesse reino que fixamos os olhos da nossa fé.
Mostra-Te, Senhor, como no tempo da tua natividade, em que os anjos visitaram os pastores; que a tua glória se expanda como as flores e a folhagem se desenvolvem nas árvores. Pelo teu poder, transforma o mundo visível nesse mundo mais divino que ainda não vemos. Que aquilo que vemos seja transformado naquilo em que cremos. Por mais brilhantes que sejam o sol, o céu, as nuvens, por mais verdejantes que sejam as folhas e os campos, por mais suaves que sejam os cantos dos pássaros, sabemos que isso não é tudo e que não queremos tomar a parte pelo todo. Essas coisas procedem dum centro de amor e de bondade que é o próprio Deus, mas não são a sua plenitude. Falam do céu, mas não são o céu. São apenas, de certa forma, raios dispersos, um ténue reflexo da sua imagem; são apenas migalhas que caem da mesa.
(Beato John Henry Newman)

Que doce é a cruz de Jesus!

CRUZ-JESUS
Jesus bendito, que me ensinaram os homens que Tu não me tenhas ensinado na Tua cruz? Ontem vi claramente que só aprendemos acorrendo a Ti e só Tu nos dás forças nas provas e tentações; que somente ao pé da tua cruz, vendo-Te pregado a ela, aprendemos o perdão, a humildade, a caridade, a bondade. Não Te esqueças de mim, Senhor; olha para mim, prostrado na tua frente, e concede-me o que Te peço. Depois, que venham os desprezos, que venham as humilhações, que me importa! Contigo a meu lado tudo posso. A lição prodigiosa, admirável, inexprimível que me dás com a tua cruz dá-me forças para tudo.
Cuspiram-Te, insultaram-Te, flagelaram-Te, pregaram-Te a uma cruz e, sendo Tu Deus, perdoaste, calaste-Te humildemente e ofereceste-Te a Ti próprio. Que posso dizer da tua Paixão? É melhor não dizer nada e que, no fundo do meu coração, medite no que o homem nunca poderá chegar a compreender; que me contente com amar profundamente, apaixonadamente, o mistério da tua Paixão.
Que doce é a cruz de Jesus! Que doce é sofrer perdoando! Como não ficar louco? Ele mostra-me o seu coração aberto aos homens e por eles desprezado. Onde já se viu e quem alguma vez sonhou suportar tamanha dor? Como vivemos bem no coração de Cristo!
(São Rafael Arnaiz Baron)

Convertamo-nos irmãos, convertamo-nos depressa.

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João Batista proclamava: 'Arrependei-vos porque está próximo o reino dos céus' (Mt 3,1). Bem-aventurado João, que quis que a conversão precedesse o julgamento, que os pecadores não fossem julgados mas recompensados, que os ímpios entrassem no Reino e não na punição. Quando proclamou João esta iminência do reino dos Céus? O mundo estava ainda na sua infância; mas para nós, que hoje proclamamos essa iminência, o mundo está extremamente velho e cansado. Perdeu as forças, perde as faculdades; os sofrimentos acabrunham-no; clama o seu enfraquecimento, ostenta todos os sintomas do fim.
Vamos a reboque de um mundo que se evade; esquecemos os tempos que aí vêm. Estamos ávidos de atualidade, mas não temos em consideração o julgamento que se aproxima. Não acorremos ao encontro do Senhor que chega.
Convertamo-nos irmãos, convertamo-nos depressa. O Senhor, pelo fato de tardar, de ainda esperar, revela o seu desejo de nos ver voltar para Ele, o desejo de que não pereçamos. Na sua grande bondade, continua a dirigir-nos estas palavras: ‘Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim na sua conversão, de maneira que ele tenha a vida’ (Ez 33,11). Convertamo-nos, irmãos; não tenhamos medo de o tempo estar a acabar. O tempo do Autor do tempo não pode ser encurtado. A prova disso é aquele malfeitor do Evangelho que, na cruz e na hora da sua morte, escamoteou o perdão, se apoderou da vida e, ladrão do paraíso com arrombamento, conseguiu penetrar no Reino.

(São Pedro Crisólogo)
 
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