Recorda-Te

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Recorda-Te das divinas ternuras
Com que cumulavas os mais pequenos.
Também eu quero receber as tuas carícias
Ah! Dá-me os teus beijos arrebatadores.
Para fruir no céu a tua doce presença,
Quero praticar as virtudes da infância.
Pois não disseste tantas vezes:
’O céu é das crianças’?
Recorda-Te.


‘Vinde a Mim, pobres almas sobrecarregadas,
E os vossos fardos se tornarão ligeiros.
E, ficando para sempre saciadas,
Do vosso seio jorrarão fontes de água’
Tenho sede, ó meu Jesus, e desejo essa água
Digna-Te inundar-me a alma com as suas torrentes divinas.
Para fazer a minha morada
No oceano do amor,
Venho a Ti.


Recorda-Te que, filha de luz,
Me esqueço tantas vezes de servir o meu Rei.
Oh! Tem piedade da minha imensa miséria
No teu amor, Jesus, perdoa-me,
Digna-Te tornar-me capaz das coisas do céu,
Mostra-me os segredos ocultos no evangelho.
Ah! Pois esse livro de ouro
É o meu maior tesouro.
Recorda-Te.


Recorda-Te da festa dos anjos,
Recorda-Te da harmonia dos céus,
E da alegria das sublimes falanges
Quando um pecador ergue os olhos para Ti.
Ah! Quero tornar maior esta grande alegria,
Jesus, quero rezar sem cessar pelos pecadores.
Pois vim para o Carmelo
Para povoar o teu céu.
Recorda-Te.

(Santa Teresinha do Menino Jesus)

Os Anjos

file_127990_Arcanjos_TopO ARTIGO

Os anjos são os nossos pastores; não só levam a Deus as nossas mensagens, como também trazem até nós as que Deus nos envia. Apascentam-nos a alma com doces inspirações e comunicações divinas; sendo bons pastores, protegem-nos e defendem-nos dos lobos, isto é, dos demónios.
Com as suas secretas inspirações, os anjos possibilitam à alma um conhecimento mais elevado de Deus; inflamam-na assim de uma chama mais viva de amor para com Ele; chegam até a deixá-la ferida de amor. A luz de Deus ilumina o anjo, penetrando-o com o seu esplendor e inflamando-o com o seu amor, porque o anjo é um espírito puro completamente
disposto a essa participação divina, mas, ao homem, ilumina-o habitualmente de uma maneira obscura, dolorosa e penosa, porque o homem é impuro e fraco.
Quando o homem se torna verdadeiramente espiritual e fica transformado pelo amor divino que o purifica, recebe a união e a amorosa iluminação de Deus com uma suavidade semelhante à dos anjos.
Lembrai-vos de como é vão, perigoso e funesto exultarmos com tudo o que não seja serviço de Deus, e considerai a tamanha infelicidade dos anjos que exultaram e se comprazeram com a sua própria beleza e seus próprios dons naturais; pois foi esse o motivo por que alguns deles caíram, privados de toda a beleza, no fundo dos abismos.

(São João da Cruz)

Mãe do Crucificado

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‘Cantarei eternamente as misericórdias do senhor’ (Sl 88,2). No cântico pascal da Igreja repercutem-se, com a plenitude do seu conteúdo profético, as palavras que Maria pronunciou durante a visita que fez a Isabel, esposa de Zacarias: ‘A sua misericórdia estende-se de geração em geração’. Tais palavras abrem, já desde o momento da Encarnação, uma nova perspectiva da história da Salvação. Após a ressurreição de Cristo, esta nova perspectiva passa para o plano histórico e, ao mesmo tempo, reveste-se de um sentido escatológico novo. Desde então sucedem-se sempre novas gerações de homens na imensa família humana, em dimensões sempres crescentes; sucedem-se também novas gerações do Povo de Deus, assinaladas pelo sinal da Cruz e da Ressurreição, o mistério pascal de Cristo, revelação absoluta daquela misericórdia que Maria proclamou à entrada da casa da sua parente.
Mãe do Crucificado, Maria é aquela que conhece mais profundamente o mistério da misericórdia divina. Conhece o seu preço e sabe quanto é elevado. Neste sentido chamamos-lhe Mãe da misericórdia, Nossa Senhora da Misericórdia, capaz de descobrir, primeiro através dos complexos acontecimentos de Israel, e depois daqueles que dizem respeito a cada um dos homens e à humanidade inteira, a misericórdia da qual todos se tornam participantes, segundo o eterno desígnio da Santíssima Trindade, ‘de geração em geração’.
Mãe do Crucificado e do Ressuscitado, tendo experimentado a misericórdia de um modo excepcional, ‘merece’ igualmente tal misericórdia durante toda a sua vida terrena e, de modo particular, aos pés da cruz do Filho. Em seguida, através da participação escondida e, ao mesmo tempo, incomparável na missão messiânica de seu Filho, foi chamada de modo especial para tornar próximo dos homens o amor que o Filho tinha vindo revelar: amor que encontra a sua mais concreta manifestação para com os que sofrem, os pobres, os que estão privados de liberdade os cegos, os oprimidos e os pecadores, conforme Cristo explicou.

(João Paulo II - Encíclica Dives in Misericordia)

Árvore das dores

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Acorda, minha alma, exprime as tuas obras,
Que elas repassem diante dos teus olhos
E que deles brotem lágrimas.
Revela a Cristo os teus atos e pensamentos,
E serás justificada.
Tem piedade de mim, meu Deus, tem piedade de mim.


Na cruz, ó Verbo, Palavra de Deus, ofereceste por todos
O teu corpo e o teu sangue;
O teu corpo para recriar o meu,
O teu sangue para me lavar.
Cristo, entregaste o teu espírito
Para me levares ao teu Pai.


Foi ao coração desta terra que o seu Criador veio para nos salvar.
Quis ser pregado na árvore das dores
E deste modo o paraíso perdido foi reencontrado.
É por isso que és adorado pelo céu e pela terra,
Por toda a criação,
Pela multidão dos resgatados vindos de todas as nações.


Que o sangue e a água que jorraram
Do teu lado trespassado
Sejam para mim um banho batismal,
Uma bebida redentora.
E assim, ungido pelas tuas palavras de vida como por um perfume,
E recebendo-as como bebida,
Ficarei duplamente purificado, ó Verbo, Palavra de Deus.


A Igreja é o cálice que recebe
O jorro vivificante do teu lado,
Fluxo duplo e único de conhecimento e perdão,
Imagem dos Testamentos, o Antigo e o Novo,
Reunidos num só.
Tem piedade de mim, meu Deus, tem piedade de mim.

(Santo André de Creta)

Natividade da Virgem Maria

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Hoje, o Criador de todas os coisas, o Deus Verbo, compôs uma obra nova, retirada do coração do Pai para ser escrita, como que com uma rosa, pelo Espírito que é a língua de Deus. Filha santíssima de Joaquim e de Ana, que escapaste aos olhares dos Principados e das Potestades e às setas inflamadas do Malvado (Col 1, 16; Ef 6, 16), tu viveste na câmara nupcial do Espírito, foste preservada intacta para seres Esposa de Deus e Mãe de Deus por natureza. Filha amada de Deus, honra de teus pais, todas as gerações te chamam bem-aventurada, como tu própria afirmaste com verdade (Lc 1, 48). Digna filha de Deus, beleza da natureza humana, reabilitação de Eva, nossa primeira mãe! Pois pelo teu nascimento aquela que tinha caído é levantada. Se, pela primeira Eva, ‘entrou a morte no mundo’ (Rom 5,12), porque ela se colocou ao serviço da serpente, em contrapartida, Maria enganou a serpente enganadora fazendo-se escrava da vontade divina, e assim introduziu a imortalidade no mundo.Tu és mais preciosa do que toda a criação, porque de ti somente recebeu o Criador em herança as primícias da nossa humanidade. A Sua carne foi feita da tua carne, o Seu sangue do teu; Deus alimentou-Se com o teu leite, os teus lábios tocaram nos lábios de Deus. Na presciência da tua dignidade, o Deus do universo amou-te; e, por te amar, predestinou-te e, nos últimos tempos (1Ped 1, 20), chamou-te à existência. Que Salomão, o sapiente, se cale; que Salomão não volte a dizer que ‘não há nada de novo debaixo do sol’ (Ecl 1, 9).

(São João Damasceno)

‘Quero, fica purificado.’

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Jesus não disse simplesmente: ‘Quero, fica purificado.’ Fez mais e melhor: ‘Estendeu a mão e tocou-lhe.’ Este é um fato digno de atenção. Dado que podia curá-lo por um ato da Sua vontade e pela palavra, porque lhe tocou com a mão? Pela única razão de mostrar, quero crer, que não era inferior mas superior à Lei; e também para mostrar que, dali em diante, nada é impuro para quem é puro. A mão de Jesus não ficou impura no contato com o leproso; ao invés, o corpo do leproso ficou purificado pela santidade dEssa mão. Cristo veio não apenas para curar os corpos, mas para elevar as almas à santidade; Ele ensina-nos aqui a cuidarmos da nossa alma, a purificá-la, sem nos preocuparmos com abluções exteriores. A única lepra a temer é a da alma, isto é, o pecado.
Quanto a nós, devemos dar continuamente a Deus ações de graças. Agradeçamos-Lhe não apenas pelos bens que nos concedeu, mas ainda pelos que concedeu aos outros: poderemos assim destruir a inveja, manter e fazer crescer o nosso amor ao próximo.

(São João Crisóstomo)

Oração de um pastor ao Bom Pastor

Ó Cristo, meu Deus, Tu abaixastes-Te para me levares aos ombros, a mim, ovelha perdida (Lc 15,5), e colocaste-me em verdes prados (Sl 22,2). Refrescaste-me nas fontes da verdadeira doutrina por intermédio dos Teus pastores, de quem Tu mesmo eras pastor antes de lhes confiares o Teu rebanho. E agora, Senhor, chamaste-me para estar ao serviço dos Teus discípulos, não sei por que desígnio da Tua Providência, pois só Tu o sabes.
Mas, Senhor, aligeira o pesado fardo dos meus pecados que Te ofenderam gravemente; purifica o meu espírito e o meu coração. Guia-me por caminhos retos (Sl 22,3), como uma lâmpada que me ilumina. Dá-me a coragem de propagar a Tua palavra; que a língua de fogo do Teu Espírito (At 2,3) me dê uma língua perfeitamente livre, e me torne sempre atento à Tua presença.
Sê o meu pastor, Senhor, e sê comigo o pastor das Tuas ovelhas, de modo que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda. Que o Teu Espírito me dirija pelo caminho reto, de modo a que as minhas ações se realizem até ao fim segundo a Tua vontade.

(São João Damasceno)

Manso e humilde

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Oh Jesus, quando fostes viajante neste mundo, dissestes: aprendei de Mim, que ‘sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito’. Oh poderoso monarca dos céus, sim, a minha alma encontra descanso ao ver-Vos, revestido com a forma e a natureza do escravo (Fil 2,7), abaixar-Vos a ponto de lavardes os pés aos apóstolos. Recordo-me então das palavras que proferistes para me ensinar a praticar a humildade: ‘Dei-vos o exemplo, para que façais como Eu fiz. Se compreenderdes isto, sereis felizes se o praticardes’ (Jo 13, 15-17). Compreendo-as, Senhor, estas palavras saídas do Vosso coração manso e humilde, e desejo praticá-las, com o auxílio da Vossa graça.
Desejo abaixar-me humildemente e submeter a minha vontade à das minhas irmãs, em nada as contrariando, sem verificar se têm o direito de mandar em mim. Ninguém tinha o direito de mandar em Vós, meu Bem-Amado, e contudo Vós obedecestes, não apenas à Santíssima Virgem e a São José, mas também aos Vossos carrascos. Agora, é na hóstia que Vos vejo assumir o cúmulo do Vosso aniquilamento. Que humildade a Vossa, oh Divino Rei da Glória! Oh meu Bem-Amado, sob o véu da branca hóstia, que manso e humilde de coração Vos mostrais! Oh Jesus, manso e humilde de coração, tornai o meu coração semelhante ao Vosso!

( Santa Teresinha do Menino Jesus)

A missão da Virgem Maria

Nossa Sra do Carmo

A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade em simultâneo com a encarnação do Verbo, por disposição da Divina Providência foi na terra a nobre Mãe do Divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É, por esta razão, nossa Mãe na ordem da graça. Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção.
De fato, depois de elevada ao céu, não abandona esta missão salvadora mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida com amor maternal dos irmãos do seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os
títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. Nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte.

(osntituição Dogmática Lumen Gentium)

Permaneço entre vós

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Tu ocupas o Trono
À direita do Pai (Sl 110 [109],1; Ap 5,7),
O Trono do Reino
Da glória eterna,
E desde o princípio
És de Deus o Verbo (Jo 1,1).

Dominas e reinas
Do Trono supremo (Ap 5,13);
Na tua forma humana,
Corpo transfigurado,
Desde que na Terra
Cumpriste a tua obra (Jo 17,4; 19,30).

Daí me vem a Fé,
Diz-mo o teu Verbo,
E porque acredito
Sou também feliz (Jo 20,29);
Daí me acompanha
Toda a esperança.

Onde permaneces
Estão também os teus (Jo 17,24);
E o Céu bendito
É a minha pátria;
E o Trono do Pai
É também o meu (Ap 3,21).

O Senhor eterno,
Criador de tudo,
Três vezes Santíssimo,
Abraçando todos,
É Senhor dum Reino
Sem ser deste mundo (Jo 18,36).

O meio do paço
Da alma humana
É morada perfeita
Da Santa Trindade (Jo 14,23),
Seu Trono celeste
Na Terra dos homens.

O Filho de Deus,
E Filho do Homem (Jo 5,27),
Salvou do Demónio
Tal Reino divino
E deu o seu Sangue
Por nosso resgate (Ap 12,10-11).

O seu Lado aberto (Jo 19,34)
Reúne esse Reino
Do Céu e da Terra
E é Fonte de Vida
Para todos nós,
Fonte de água viva (Jo 7,38).

O Coração de Jesus
É Coração da Trindade,
É centro e convergência
De todos os corações;
Porque nos oferece a vida
Da própria Divindade (Jo 6,40).

A sua força oculta
Nos atrai todos a Si (Jo 12,32)
E no coração do Pai
Nos dá a sua morada;
E nos leva na torrente
Do seu Espírito Santo.

(Santa Teresa Benedita da Cruz - Edith Stein)

Apoio firme para a fé

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A maior prova da fiabilidade do amor de Cristo encontra-se na sua morte pelo homem. Se dar a vida pelos amigos é a maior prova de amor (cf Jo 15,13), Jesus ofereceu a sua vida por todos, mesmo por aqueles que eram inimigos, para lhes transformar o coração. É por isso que os evangelistas situam na hora da Cruz o momento culminante do olhar de fé: naquela hora resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude. São João colocará aqui o seu testemunho solene, quando, juntamente com a Mãe de Jesus, contemplou Aquele que trespassaram (cf Jo 19,37): ‘Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também’ (Jo 19, 35).
É precisamente na contemplação da morte de Jesus que a fé se reforça e recebe uma luz fulgurante; é aqui que ela se revela como fé no seu amor inabalável por nós, amor que é capaz de penetrar na morte para nos salvar. É possível crer neste amor que não se subtraiu à morte para manifestar quanto me ama; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite-nos confiar-nos plenamente a Cristo.
Ora, a morte de Cristo desvenda a total fiabilidade do amor de Deus à luz da sua ressurreição. Enquanto ressuscitado, Cristo é testemunha fiável, digna de fé (cf Ap 1,5; Heb 2,17), apoio firme para a nossa fé.

(Papa Franscisco, Lumen Fidei)

‘Que o meu coração seja digno do fogo do Teu perfeito amor’

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Desde a minha infância, não parei de pecar, e Tu não cessaste de me fazer bem. Contudo, Senhor, que o Teu julgamento se transforme em misericórdia. Toma a ocasião do pecado para condenar o pecado. Que o meu coração seja digno do fogo do Teu perfeito amor, que o Seu calor intenso faça sair de mim e consuma todo o veneno do pecado! Que ponha a nu
e afogue nas lágrimas dos meus olhos toda a infecção da minha consciência. Que a Tua cruz crucifique tudo o que a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da vida corromperam devido à minha longa negligência.
Senhor, quem o desejar pode ouvir-me e desprezar a minha confissão: que me olhe prostrado como a pecadora aos pés da Tua misericórdia, banhando-os com as lágrimas do meu coração, vertendo sobre eles o perfume de uma terna devoção (Lc 7, 38). Que todos os meus recursos, por mais pobres que sejam, de corpo e alma, sejam usados para comprar este perfume que Te agrada.
Espalhá-lo-ei sobre a Tua cabeça, sobre Ti cuja cabeça é Deus; e sobre os Teus pés, sobre Ti cuja ponta é a nossa natureza fraca. Ainda que o fariseu murmure, Tu, meu Deus, tem piedade de mim! Ainda que o ladrão aperte os cordões da bolsa rangendo os dentes, desde que eu Te agrade, pouco me importa incomodar seja quem for.
Ó amor do meu coração, que em cada dia eu verta sem parar este perfume, porque espalhando-o sobre Ti, espalho-o também sobre mim. Concede-me o dom de Te entregar lealmente tudo o que tenho, tudo o que sei, tudo o que sou, tudo o que posso! Que fique sem nada! Estou aos pés da Tua misericórdia, aonde permanecerei, aonde chorarei, até que me faças escutar a Tua suave voz, o julgamento da Tua boca, a sentença da Tua e da minha justiça: ‘São-lhe perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou’ (Lc 7, 47).

(Guilherme Saint-Thierry)

Viver como Jesus viveu

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A verdadeira, a única perfeição, não é ter este ou aquele tipo de vida, é fazer a vontade de Deus; é ter a vida que Deus quer, onde Ele quer, e vivê-la como Ele próprio a viveria. Quando Ele nos permite escolher, então sim, procuremos segui-l'O passo a passo o mais exatamente possível, partilhar a Sua vida tal como ela foi, como os apóstolos o fizeram ao longo da Sua vida e após a Sua morte: o amor leva-nos a imitá-l'O. Se Deus permite esta escolha, esta liberdade, é precisamente porque quer que abramos as nossas velas ao vento do amor puro e, empurrados por ele, ‘corramos atrás do seu perfume’ (Ct 1,4 LXX), em imitação perfeita, como São Pedro e São Paulo.
E se um dia Deus quiser tirar-nos, por algum tempo ou para sempre, deste caminho tão belo e tão perfeito, não nos perturbemos nem nos surpreendamos. Os Seus desígnios são insondáveis: poderá fazer por nós, a meio ou no fim da caminho, o que fez ao geraseno no início. Obedeçamos, façamos a Sua vontade, andemos por onde Ele quiser, levemos a vida que a Sua vontade designar. Mas aproximemo-nos d'Ele com todas as nossas forças em toda a parte, e vivamos todas as situações, todas as condições, como Ele próprio as teria vivido, comportando-nos como Ele Se teria comportado se, pela vontade do Pai, Se tivesse encontrado na situação em que nós nos encontramos.

(Beato Charles de Foucauld)

Mistério de sombra e luz

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O fato do poder do mal no coração humano e na História da humanidade é indesmentível. Mantém-se a questão: como explicar este mal? A fé diz-nos que existem dois mistérios de luz e um mistério de noite que, no entanto, está rodeado pelos mistérios de luz. O primeiro mistério de luz é o seguinte: a fé diz-nos que não há dois princípios, um bom e um mau, mas
um único princípio, o Deus criador, e que este princípio é bom, somente bom, sem sombra de mal. É por isso que o ser também não é um misto de bem e de mal: o ser como tal é bom, e portanto é bom ser, é bom viver. Tal é o anúncio feliz da fé: só existe uma origem, que é boa, o Criador. Em seguida vem um mistério de obscuridade, de noite. O mal não provém da
origem do próprio ser, não é igualmente original. O mal provém de uma liberdade criada, de uma liberdade mal utilizada. Como foi isso possível? Como se produziu isso? As coisas permanecem obscuras. O mal não é lógico. Apenas Deus e o bem são lógicos, são luz. O mal permanece misterioso. Podemos adivinhar, mas não explicar; não podemos falar dele como de um fato que se segue a outro, uma vez que se trata de uma realidade mais profunda. Continua a ser um mistério de obscuridade, de noite. Mas surge de imediato um mistério de luz. O mal provém de uma origem subordinada. Deus é mais forte, com a Sua luz. É por isso que o mal pode ser ultrapassado. Então a criatura, o homem, pode ser curado. Tanto assim é que, em última análise, vemos que o homem não só pode ser curado mas efetivamente o é. Deus introduziu a cura. Ele entrou pessoalmente na história. À origem permanente do mal, Ele opôs a origem do bem puro. Cristo crucificado e ressuscitado, novo Adão, contrapõe ao rio poluído do mal um rio de luz. E este rio está presente na História: lembremo-nos dos santos, dos grandes santos mas também dos santos humildes, dos simples fiéis, e perceberemos que o rio de luz que provém de Cristo está presente, é poderoso.

(Bento XVI)

As sete alegrias da Virgem Maria

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Ó Virgem, Templo da Trindade, ao ver a vossa humildade o Deus de bondade enviou um mensageiro para vos dizer que de vós queria nascer. O anjo trouxe-vos a salvação da graça, vo-la explicou, nela consentistes e, ato contínuo, em vós encarnou o Rei da glória. Por essa alegria, vos rogamos, fazei-nos favorável este grande Rei. A vossa alegria seguinte foi terdes dado à luz o Sol, vós, a Estrela, sem que se produzisse em vós qualquer alteração ou mágoa: tal como a flor não perde o seu esplendor ao dar o seu perfume, assim também a vossa virgindade nada perdeu quando o Criador Se dignou nascer de vós. Maria, Mãe de bondade, sede-nos propícia no caminho que leva ao vosso Filho.
A estrela que vistes pairar por sobre o vosso Menino anunciou a terceira alegria, a adoração dos Magos, que Lhe vieram oferecer as variadas riquezas da terra. Maria, estrela do mundo, purificai-nos do pecado! A vossa quarta alegria chegou quando Cristo ressuscitou dentre os mortos: renasceu a esperança e foi banida a morte. Que quinhão repartis destas maravilhas, ó cheia de graça (Lc 1,28)! Ficou vencido o inimigo, o homem liberto e elevado até aos céus. Mãe do Criador, dignai-vos interceder assiduamente para que, depois desta alegria pascal e do labor duma vida inteira, sejamos aceites nos coros celestes!
A vossa quinta alegria foi terdes visto a vosso Filho subir ao céu envolvido em glória tal, que revelou mais do que nunca Aquele de quem sois a Mãe, o vosso próprio Criador, que ao elevar-Se mostrou aos homens o caminho das moradas celestes. Por esta nova alegria, fazei-nos, ó Maria, subir ao céu para convosco e com o vosso Filho gozarmos da felicidade eterna! Foi o divino Paráclito quem, sob a forma de línguas de fogo, fortificando e inflamando os apóstolos, vos trouxe ainda uma sexta alegria, curando o homem cuja boca o havia perdido e purificando a sua alma do pecado. Pela alegria desta visita, intercedei por nós junto do vosso Filho, ó Virgem Maria, para chegarmos ao dia do Juízo livres de toda a mancha.
Foi Cristo quem vos convidou à sétima alegria ao chamar-vos deste mundo à morada celeste e sentar-vos no trono onde recebeis incomparável devoção, envolvida por glória maior do que qualquer outro habitante do céu. Fazei-nos sentir o efeito da vossa ternura, ó Virgem, Mãe de bondade. Por esta alegria purificai-nos e conduzi-nos à bem-aventurança eterna! Levai-nos convosco à glória do Paraíso. Amém.

(Liturgia latina,Sequência dos séculos XIV/XV)

Nossa Senhora e a Eucaristia

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A Virgem Maria deu Jesus Cristo à luz, aqueceu-O nos seus braços, envolveu-O em panos e rodeou-O dos seus cuidados maternais. E é o corpo desse mesmo Jesus que hoje recebemos, é o Seu sangue redentor que bebemos no sacramento do altar. É isso que a fé católica tem por verdadeiro, é isso que a Igreja ensina com fidelidade.A língua humana não é capaz glorificar suficientemente aquela de quem tomou carne ‘o mediador entre Deus e os homens’ (1Tim 2, 5). O louvor humano não está à altura daquela de cujas entranhas puríssimas saiu o fruto que é o alimento das nossas almas, Aquele que diz de Si mesmo: ‘Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente’. Com efeito, nós fomos expulsos do paraíso de delícias por causa de um alimento, e é também por via de um alimento que reencontramos as alegrias do paraíso. Pelo alimento que Eva tomou, fomos condenados a um jejum eterno; pelo alimento que Maria nos deu, abriram-se para nós as portas do banquete celeste.

(São Pedro Damião)

Porque Maria é o “molde vivo” de Deus e dos Santos

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Maria é chamada por Sto. Agostinho, e é, com efeito, o molde vivo de Deus, forma Dei, o que quer dizer que foi nela somente que Deus feito homem foi formado ao natural, sem que lhe falte nenhum traço da Divindade; e é também somente nela que o homem pode ser formado em Deus ao natural, tanto quanto a natureza humana é disso capaz, pela graça de Jesus Cristo.
Um escultor pode fazer uma figura ou um retrato ao natural de duas maneiras: 1º) servindo-se de seu engenho, de sua fora, de sua ciência e dos instrumentos adequados para fazer essa figura de uma matéria dura e informe; 2º) pode lançá-lo numa forma. A primeira é demorada e difícil, e sujeita a muitos acidentes: muitas vezes basta um golpe de cinzel ou de martelo mal dado para estragar toda a obra. A segunda é rápida, fácil e suave, quase sem trabalho e sem esforço, contanto que o molde seja perfeito e reproduza o original, e que a matéria de que se serve, fácil de se manipular, não resista de maneira alguma à sua mão.
Molde perfeito em si mesmo, e que nos torna perfeitos em Jesus Cristo.
Maria é o grande molde de Deus, feito pelo Espírito Santo, para formar ao natural um Homem-Deus pela união hipotética, e para formar um homem Deus pela graça. Não falta a este molde nenhum traço da divindade; quem quer que nele se deixe manejar, nele recebe todos os traços de Jesus Cristo, verdadeiro Deus, duma maneira suave, proporcionada à fraqueza humana, sem muito trabalho e agonia; duma maneira segura, sem temor de ilusão, pois o demônio nunca teve e jamais terá acesso até Maria, santa e imaculada, sem sombra da menor mancha de pecado.

(São Luís Maria Grignion de Montfort)

Por que Maria nos é necessária

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Porque somente Maria encontrou graça diante de Deus.

1º) Somente Maria achou graça diante de Deus, tanto para si como para cada homem em particular. Os Patriarcas e os Profetas, todos os Santos da antiga lei não puderam encontrar essa graça.

Porque somente Maria é Mãe da graça.

2º) Por isso que Maria foi quem deu o ser a vida ao Autor de toda graça, é que a chamamos Mãe da graça, Mater gratiae.

Porque somente Maria possui, depois de Jesus, a plenitude da graça.

3º) Deus pai, de quem procedem, como de sua fonte essencial, todo dom perfeito e toda graça, deu-lhe todas as suas graças; de modo que a vontade de Deus, como diz S.Bernardo, lhe é dada nele e com ele.

Porque somente Maria é a tesoureira de todas as graças de Jesus.

4º) Deus a escolheu para tesoureira, ecônoma e dispensadora de todas as suas graças; de sorte que todas as suas graças e todos os seus dons passam por suas mãos; e segundo o poder que Ela recebeu, como diz São Bernardino, Ela distribui a quem quer, como quer, quando quer e quanto quer, as graças do Pai Eterno, as virtudes de Jesus Cristo e os dons do Espírito Santo.

Porque para ter Deus por Pai, é necessário ter Maria por Mãe.

5º) Assim como, na ordem natural, uma criança tem que ter um pai e uma mãe, da mesma maneira na ordem da graça é preciso que um verdadeiro filho da Igreja tenha a Deus por pai e Maria por mãe; e si se gloria de ter a Deus por pai, não tendo por Maria a ternura de um verdadeiro filho, é um enganador que só tem por pai ao demônio.

Porque os membros de Jesus devem ser formados pela Mãe de Jesus

6º) Desde que Maria formou o Chefe dos predestinados, que é Jesus Cristo, a Ela também compete formar os membros desse Chefe, que são os verdadeiros Cristãos; pois uma mãe não forma a cabeça sem os membros, nem os membros sem a cabeça. Quem quiser, pois, ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e de verdade, deve ser formado em Maria por meio da graça de Jesus Cristo, que nela reside em toda a plenitude, para ser plenamente comunicada aos verdadeiros membros de Jesus Cristo e aos seus verdadeiros filhos.

Porque é por Maria que o Espírito Santo produz os predestinados.

7º) Havendo o Espírito Santo desposado Maria, e tendo produzido nela, por ela e dela a Jesus Cristo, essa obra prima que é o Verbo encarnado; e como nunca a repudiou, continua a produzir todos os dias nela e por Ela de uma maneira misteriosa, porém verdadeira, os predestinados.

Porque é Maria que está encarregada de alimentar as almas, e de fazê-las crescer em Deus.

8º) Maria recebeu de Deus um domínio particular sobre as almas para nutri-las e as fazer crescer em Deus. Santo Agostinho diz mesmo que neste mundo os predestinados são todos encerrados no seio de Maria, e que não nascem senão quando essa boa Mãe os gera para a vida eterna. Por conseguinte, como a criança tira todo o alimento de sua mãe, que o dá proporcionado à sua fraqueza, da mesma maneira os predestinados tiram todo o alimento espiritual e toda a sua força de Maria.

Porque Maria deve habitar nos predestinados.

9º) Foi a Maria que Deus Pai disse: In Jacob inhabita: Minha filha, habita em Jacó. Foi a Maria que Deus Filho disse: In Israel Haereditare: Minha querida Mãe, tende vossa herança em Israel, quer dizer, nos predestinados. Enfim, foi a Maria que o Espírito Santo disse: In electis meis mitte radices: Lançai, minha Esposa fiel, raízes em meus eleitos. Todo aquele, pois, que é eleito e predestinado tem a Ssma. Virgem habitando em si, quer dizer, em sua alma, e aí a deixa lançar raízes de profunda humildade, de ardente caridade e de todas as virtudes.

(São Luís Maria Grignion de Montfort)

‘Em Quem poderíamos nós ser justificados, senão no Filho unigênito de Deus?’

Jesus-Salvador (2)

Até aos dias de hoje, que são os últimos, Deus permitiu-nos que nos deixássemos levar ao sabor de desordenadas inclinações, arrastados pelos prazeres e pelas paixões. Não é que tenha tido o menor dos prazeres com os nossos pecados; tolerava apenas este tempo de iniquidade, sem que nele consentisse. Preparava o tempo atual, o da justiça, para que, convencidos de termos sido indignos da vida durante esse período devido aos nossos erros, nos tornemos agora dignos dela pelo efeito da bondade divina.
Ele não nos odiou; não nos repeliu [...]. Tendo piedade de nós, tomou sobre Si a responsabilidade dos nossos erros, e enviou o Seu próprio Filho para nos resgatar: o santo para os ímpios, o inocente para os maus, ‘o justo para os injustos’ (1Pe 3, 18), o incorrupto para os corruptos, o imortal para os mortais. Que outra coisa a não ser a Sua justiça poderia cobrir, anular, os nossos pecados? Em Quem poderíamos nós ser justificados, senão no Filho unigênito de Deus? Dulcíssima troca, insondável obra, inesperados dons ! O crime de muitos é coberto pela justiça de apenas Um, e a justiça de Um único justifica a muitos culpados. No passado, Ele convenceu a nossa natureza da sua incapacidade em obter a vida; agora mostrou-nos o Salvador capaz de salvar o que não podia ser salvo. Quis, destes dois modos, dar-nos a fé na Sua bondade e fazer-nos ver n'Ele Aquele que alimenta, Aquele que é o pai, o mestre, o conselheiro, o médico, a inteligência, a luz, a honra, a glória, a força e a vida.

(Carta a Diogneto)

‘Porque buscais entre os mortos Aquele que vive?’

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Para mim, irmãos, ‘viver é Cristo e morrer é lucro’ (Fil 1,21). Irei, pois, para a Galileia, para o monte que Jesus nos indicou (Mt 28,16). Vê-l'O-ei e adorá-l'O-ei antes de morrer, para não mais morrer depois; porque ‘todo aquele que vê o Filho e acredita n'Ele tem a vida eterna’: ‘ainda que esteja morto, viverá’ (Jo 6,40; 11,25).
Agora, irmãos, em que é que a alegria do vosso coração é uma prova do vosso amor a Cristo? Por mim, eis o que penso: se chegastes um dia a amar Jesus, vivo, morto ou volvido à vida, neste dia em que os mensageiros proclamam a Sua ressurreição na Igreja, o vosso coração exulta e exclama: ‘Trouxeram-me esta notícia: Jesus, meu Deus, vive! E a esta notícia, o meu coração, que estava entorpecido de dor, que definhava de desânimo e estava prestes a sucumbir ao desespero, o meu coração recobrou vida.’ Com efeito, o som desta alegre mensagem reanima os pecadores que jaziam na morte. Sem ela, não nos restaria senão desesperar e enterrar no esquecimento aqueles que Jesus, subindo dos infernos, teria deixado no abismo.
Mas tu reconhecerás que o teu espírito retomou plenamente vida em Cristo se puderes dizer do fundo do coração: ‘Se Jesus vive, isso me basta! Se Ele vive, eu vivo, porque a minha vida depende d'Ele. Mais ainda, Ele é a minha vida, Ele é meu tudo. Que pode então faltar-me se Jesus vive? Mesmo que tudo o resto me faltasse, isso não teria nenhuma importância para mim, desde que Jesus esteja vivo!’

(Guerric d'Igny)

As chagas de Cristo

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Onde poderá a nossa fragilidade encontrar repouso e segurança senão nas chagas do Salvador? Perfuraram-Lhe as mãos e os pés e, com uma lança, o lado. Por esses orifícios abertos posso saborear o mel dos rochedos (cf Sl 80,17) e o óleo que corre da pedra dura, isto é, ‘saborear e ver como o Senhor é bom’ (cf Sl 33,9). Ele concebia pensamentos de paz (cf Jer 29,11) e eu não sabia. ‘Quem conheceu o pensamento do Senhor? Quem Lhe serviu de conselheiro?’ (Rom 11,34) Mas o cravo que nele penetrou tornou-se para mim a chave que abre o mistério dos seus desígnios.
Temos de ver através dessas aberturas. Os pregos e as chagas gritam que, verdadeiramente, na pessoa de Cristo, Deus Se reconcilia com o mundo. O ferro trespassou o seu ser e tocou o seu coração para que Ele nunca mais ignore como Se há-de compadecer das minhas fraquezas. O segredo do seu coração aparece a nu nas chagas do seu corpo; vê-se a descoberto o grande mistério da sua bondade, essa ternura misericordiosa do nosso Deus, ‘que das alturas nos visita como sol nascente’ (Lc 1,78). E como poderia essa ternura deixar de se manifestar nas suas chagas? Seria difícil mostrar mais claramente que pelas tuas chagas, Senhor, que Tu és manso e compassivo e duma grande misericórdia, pois não há maior amor do que dar a vida (Jo 15,13) pelos condenados à morte.
Todo o meu mérito é, pois, a piedade do Senhor e nunca me faltará mérito enquanto não Lhe faltar piedade. Se as misericórdias de Deus se multiplicarem, os meus méritos serão numerosos. Mas que acontecerá se eu tiver uma grande quantidade de faltas a censurar-me? ‘Onde abundou o pecado, superabundou a graça’ (Rom 5,20). E se ‘a bondade do Senhor é para sempre’ eu, por mim, ‘cantarei eternamente as misericórdias do Senhor’ (Sl 102,17; 88,2). Será esta a minha justiça? Senhor, farei memória da tua justiça, porque ela é a minha justiça, pois para mim Te tornaste justiça de Deus (cf Rom 1,17).

(São Bernardo)

Maria Madalena ao Pé da Cruz

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Beijo a tua paixão,
com a qual fui libertado das minhas más paixões.

Beijo a tua Cruz,
com a qual condenaste o meu pecado
e me libertaste da condenação à morte.

Beijo aqueles cravos,
com que removeste o castigo da maldição.

Beijo as feridas dos teus membros,
com que foram curadas as feridas da minha rebelião.

Beijo a cana com que assinaste o atestado da minha libertação
e com que feriste a cabeça arrogante do dragão.
Beijo a esponja encostada aos teus lábios incontaminados,
com que a amargura da transgressão
me foi transformada em doçura.

Tivesse podido eu degustar aquele fel,
que dulcíssimo alimento não teria sido!

Tivesse podido eu tomar o vinagre,
que bebida agradável!

Aquela coroa de espinhos
teria sido para mim um diadema régio.

Aquelas cusparadas
me teriam ornado como esplêndidas pérolas.

Aquelas zombarias
me teriam ornado como sinal de profundo obséquio.

Aquelas bofetadas
me teriam glorificado como o prestígio mais alto.

Eu te beijo, Senhor,
e a tua paixão é o meu orgulho.

Beijo a lança que dilacerou o documento da minha dívida
e abriu a fonte da imortalidade.

Beijo o teu lado do qual jorraram os rios da vida
e brotou para mim o rio perene da imortalidade.

Beijo a tua mortalha com que me adornaste
tirando-me minhas vestes vergonhosas.

Beijo o preciosíssimo sudário de que te revestiste
para envolver-me na veste dos teus filhos adotivos.

Beijo o túmulo
no qual inauguraste o mistério da minha ressurreição
e me precedeste pela estrada que sai do Hades.

Beijo aquela pedra
com a qual me tiraste o peso do medo da morte.

(Jorge de Nicomédia)

“Somente o amor pode coagir Deus…”

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‘Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho único’ (Jo 3,16). Este Filho único ‘foi oferecido’, não porque os seus inimigos prevaleceram, mas ‘porque Ele próprio o quis’ (Is 53,10-11). ‘Amou os seus e amou-os até ao fim’ (Jo 13,1). O fim é a morte, aceite por aqueles que ama; eis o fim de toda a perfeição, o fim do amor perfeito, porque ‘ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos’ (Jo 15,13).
Na morte de Cristo, este seu amor foi mais poderoso do que o ódio dos seus inimigos; pois o ódio fez apenas o que o amor lhe permitia. Judas, ou os inimigos de Cristo, entregaram-No à morte por um ódio maldoso. O Pai entregou o seu Filho e o Filho entregou-se a Si mesmo por amor (Rom 8,32; Gal 2,20). Mas o amor não é culpado de traição; está inocente, mesmo quando Cristo morre por sua causa. Porque apenas o amor pode fazer impunemente o que lhe agrada. Apenas o amor pode coagir Deus e como que impor-se a Ele. Foi ele que O fez descer do céu e O pôs na cruz, ele que derramou o sangue de Cristo para remissão dos pecados, num ato tão inocente como salutar. Todas as nossas ações para a salvação do mundo são, então, devidas ao amor. E este insta-nos, por uma lógica que se nos impõe, a amar Cristo tanto quanto outros O odiaram.

(Balduíno de Ford)

Por que temes levar a cruz, pela qual se vai ao Reino?

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A muitos parece dura esta palavra : ‘Renega-te a ti próprio, toma a tua cruz e segue Jesus.’ Por que temes levar a cruz, pela qual se vai ao Reino? Na cruz está a salvação; na cruz, a vida; na cruz, a proteção dos inimigos; na cruz se derrama toda a suavidade do alto; na cruz, a força do espírito; na cruz, a alegria da alma; na cruz, a suprema virtude; na cruz, a perfeição da santidade. Não há salvação da alma nem esperança da vida eterna senão na cruz. Pega, pois, na tua cruz e segue-O: caminharás para a vida eterna. Se morreres com Ele, também com Ele viverás (cf Rom 6,8). E, se fores seu companheiro no sofrimento, também o serás na glória.
Eis que tudo consiste na cruz; não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior. Anda por onde quiseres, procura o que desejares, não encontrarás mais elevado caminho no alto, nem mais seguro cá em baixo, do que o caminho da santa cruz.
Dispõe e ordena tudo segundo o que queres e vês; não encontrarás nada onde não haja que sofrer, voluntária ou necessariamente, e assim sempre encontrarás a cruz. Ou sofrerás dores no corpo, ou encontrarás tribulações na alma. Umas vezes serás abandonado por Deus, outras serás afligido pelo próximo e, pior ainda, muitas vezes pesar-te-ás a ti mesmo; e não poderás ser libertado ou aliviado com qualquer remédio ou consolação. Deus quer que aprendas a suportar o sofrimento sem consolações, que te submetas a Ele totalmente e te tornes mais humilde pela tribulação. E é necessário que tenhas paciência, se queres possuir a paz interior e merecer a coroa imortal.

(Tomás de Kempis, Imitação de Cristo)

Examina-te!

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Examina-te a fundo! Fomos trabalhando muito pela vida fora, ocupamos estes e aqueles postos de responsabilidade, triunfaste nesta ou naquela tarefa humana... Mas, na presença de Deus, não encontras nada que não devas lamentar? Tentaste de verdade servir a Deus e aos teus irmãos, os homens, ou fomentaste o teu egoísmo, a tua glória pessoal, as tuas ambições, o teu êxito exclusivamente terreno e penosamente caduco?

Se vos falo um pouco cruamente, é porque quero fazer uma vez mais um ato de contrição muito sincero e porque quereria que cada um de vós também pedisse perdão. À vista das nossas infidelidades, à vista de tantos erros, de fraquezas, de covardias - cada um das suas -, repitamos de coração ao Senhor aquelas contritas exclamações de Pedro: Domine, tu omnia nosti, tu scis quia amo te!; Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que te amo, apesar das minhas misérias! E atrevo-me a acrescentar: Tu sabes que te amo, precisamente por essas minhas misérias, pois me levam a apoiar-me em Ti, que és a minha fortaleza: quia tu es, Deus, fortitudo mea. E, a partir daí, recomeçamos.

(São Josemaría Escrivá)

“Calai-vos…”

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Deus encontra-Se no coração desapegado, no silêncio da oração, no sofrimento como sacrifício voluntário, no esvaziamento do mundo e das suas criaturas. Deus está na cruz, e enquanto não amarmos a cruz não O veremos, não O sentiremos. Calai-vos, homens, que não parais de fazer barulho!
Ah, Senhor, que feliz me sinto no meu retiro, como Te amo na minha solidão, quereria oferecer-Te aquilo que já não tenho, pois já Te dei tudo! Pede-me Senhor. Mas que posso eu dar-Te? O meu corpo, já o possuis, é teu; a minha alma, Senhor, por quem suspira ela, se não por Ti, para que Tu no fim venhas tomar posse dela? O meu coração está aos pés de Maria, chorando de amor e sem mais nada querer a não ser a Ti. A minha vontade: por acaso desejo eu, Senhor, alguma coisa que Tu não desejes? Diz-me; diz-me, Senhor, qual é a tua vontade e colocarei a minha em uníssono com a tua. Amo tudo o que Tu me envias e me dás, quer seja a saúde, quer seja a doença, quer seja estar aqui ou ali, ou ser uma coisa ou outra; toma a minha vida, Senhor, quando quiseres. Como é possível não ser feliz assim?
Se o mundo e os homens soubessem! Mas não o saberão: estão demasiado ocupados com os seus interesses, têm o coração demasiado cheio de coisas que não são Deus. O mundo vive muito com uma finalidade terrena; os homens sonham com esta vida em que tudo é vaidade, e assim não conseguem encontrar a verdadeira felicidade, que é o amor de Deus. Talvez consigam chegar a compreender essa felicidade, mas para a sentirem, são muito poucos os que renunciam a si próprios e tomam a cruz de Jesus (cf Mt 16,24), mesmo entre os religiosos. Senhor, as coisas que Tu permites! A tua sabedoria sabe o que faz. Mas segura-me na tua mão e não permitas que os meus pés escorreguem, pois sem Ti quem virá em meu socorro? E «se o Senhor não edificar a casa» (Sl 127,1)… Ah Senhor, como Te amo! Até quando, Senhor?

(São Rafael Arnaiz Baron)

 
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