Qual a ‘chave’ para entendermos o mundo?


Como devemos olhar as coisas? Esta é a pergunta que todas as pessoas reflexivas fazem a si mesmas, e cada uma lhe responde a seu modo. Desejam pensar por meio de regras, mediante algo que esteja dentro delas e ao mesmo tempo lhes permita harmonizar e ajustar o que está fora. Essa é a necessidade experimentada pelas mentes reflexivas. Agora, permiti-me que pergunte: Qual é a chave real, qual a interpretação cristã deste mundo? Qual o critério que a Revelação nos dá para avaliar e medir este mundo? E a resposta é: o grande acontecimento deste tempo litúrgico, a Crucifixão do Filho de Deus.
A morte do Verbo eterno de Deus feito carne é a nossa grande lição quanto ao modo como devemos pensar e falar deste mundo. A sua Cruz atribuiu a tudo o que vemos o seu devido peso, a todas as riquezas, a todos os benefícios, a todas as categorias, a todas as distinções, a todos os prazeres; à concupiscência da carne, à concupiscência dos olhos e à soberba da vida. Pesou todas as emoções, as rivalidades, as esperanças, os medos, os desejos, os esforços e os triunfos do homem mortal. Deu significado ao instável e vacilante percurso da vida terrena, às suas provações, tentações e sofrimentos. Reuniu e tornou consistente tudo o que parecia discorde e sem propósito. Ensinou-nos como viver, como usar deste mundo, que aguardar, que desejar, que esperar. É a melodia em que se reúnem e harmonizam todas as dissonâncias da música deste mundo.
(Cardeal John Henry Newman)

“Sê o meu pastor…”

Ó Cristo, meu Deus, Tu abaixastes-Te para me levares aos ombros, a mim, ovelha perdida, e colocaste-me em verdes prados. Refrescaste-me nas fontes da verdadeira doutrina por intermédio dos Teus pastores, de quem Tu mesmo eras pastor antes de lhes confiares o Teu rebanho. (…) Mas, Senhor, aligeira o pesado fardo dos meus pecados que Te ofenderam gravemente; purifica o meu espírito e o meu coração. Guia-me por caminhos retos, como uma lâmpada que me ilumina. Dá-me a coragem de propagar a Tua palavra; que a língua de fogo do Teu Espírito me dê uma língua perfeitamente livre, e me torne sempre atento à Tua presença. Sê o meu pastor, Senhor,  (…) de modo que o meu coração não se desvie nem para a direita nem para a esquerda. Que o Teu Espírito me dirija pelo caminho reto, de modo a que as minhas ações se realizem até ao fim segundo a Tua vontade.

(S. João Damasceno)

“Deus é meu amigo!”


Pego hoje na pena para que as minhas palavras, estampando-se na folha em branco, sirvam para louvar perpetuamente o Deus bendito, autor da minha vida, da minha alma, do meu coração. Gostaria que todo o universo, com os planetas, todos os astros e os incomensuráveis sistemas estelares, fosse uma enorme extensão, polida e brilhante, onde eu pudesse escrever o nome de Deus. Gostaria que minha voz fosse mais potente que mil trovões, mais forte do que o bramido do mar, mais terrível que o estrondo dos vulcões, apenas para dizer: Deus! Gostaria que o meu coração fosse tão grande quanto o céu, puro como o dos anjos, simples como o da pomba (Mt 10,16), para nele colocar Deus! Mas, uma vez que toda esta grandeza com que sonhas não pode tornar-se realidade, contenta-te com o pouco e contido nada que és, meu irmão Rafael, porque o próprio nada deve satisfazer-te.
Porquê calar-me? Porquê escondê-lo? Porque não gritar ao mundo e publicar aos quatro ventos as maravilhas de Deus? Porque não dizer às pessoas e a todos os que querem ouvir: vedes aquilo que sou? Vedes o que fui? Vedes a minha miséria rastejando na lama? Pois pouco importa; maravilhai-vos: apesar de tudo isso, tenho Deus. Deus é meu amigo! Que o solo se afunde, e que o mar seque de espanto! Deus ama-me, a mim, com um tal amor que, se o mundo inteiro o entendesse, todas as criaturas se tornariam loucas e bradariam de assombro. E mesmo assim, seria pouco. Deus ama-me tanto, que nem os anjos o entendem!
A misericórdia de Deus é grande! Amar-me, a mim; ser meu amigo, meu irmão, meu pai, meu mestre. Ser Deus, e eu, ser o que sou! Como não enlouquecer; como é possível viver, comer, dormir, falar e lidar com as pessoas? Como é isso possível, Senhor! Eu sei; tu explicaste-me: é o milagre de tua graça.
(São Rafael Arnaiz Baron)

Começar pela fé


[Assim como, antes da sua Paixão, nosso Senhor entrou triunfalmente em Jerusalém enquanto as multidões gritavam “Hosana” e atapetavam o seu caminho com ramos de palmeira e com os seus mantos, mas tudo não passava de uma encenação vã e oca, na qual o Senhor não podia encontrar alegria] o mesmo se aplica a este mundo com todas as suas delícias, que são também desencantos. Não confiemos nele; não lhe entreguemos os nossos corações; não comecemos por ele. Comecemos pela fé; comecemos por Cristo; comecemos pela Cruz e pela humilhação a que ela conduz. Deixemo-nos atrair para Aquele que foi levantado, para que Ele possa dar-nos generosamente todas as coisas, juntamente consigo mesmo. Busquemos primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e então todas as coisas deste mundo nos serão acrescentadas (Mt 6, 33).
Só aqueles que começam pelo mundo que não se vê são capazes de desfrutar verdadeiramente deste mundo que se vê. Só quem primeiro se absteve dele pode alegrar-se nele. Só quem primeiro jejuou pode verdadeiramente banquetear-se. Só quem aprendeu a não abusar do mundo é capaz de usá-lo. Só quem o aceita como uma sombra da realidade vindoura, e por amor ao vindouro se desprende do presente, é que há de vir a herdá-lo.
(Cardeal John Henry Newman)

 
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