“Concede-me a Tua pessoa como dom da graça”

Depois de consumares as palavras da Escritura,
E entregares ao Pai o Teu espírito,
Quando o soldado Te trespassou com uma lança,
Uma fonte brotou do Teu lado sagrado:

Água para lavar, na fonte sagrada do Batismo,
Sangue para beber, no mistério da Eucaristia,
Por causa da ferida da que nasceu da costela de Adão,
Pela qual pecou o primeiro homem.

A mim, que sou constituído duma carne marcada pelo pecado original 
E dum sangue amassado pela poeira,
Lavaste-me pelo orvalho do Teu lado.
E depois, caí de novo no pecado.

Não permitas que permaneça assim,
Mas digna-Te lavar-me de novo;
E, se essa graça não me for concedida,
Que ao menos meus pecados sejam regados por minhas lágrimas.

Abre a minha boca ao rio
Do sangue sagrado que corre do Teu lado
Para que eu beba a alegria
E exulte no Espírito Santo,

Que torne saboroso o gosto deste cálice
De amor imaculado e de vinho sem misturas.


Tu, que és o presente eterno do homem efémero,
Tu, que reclamo como presente,
Tu, que dás presentes às criaturas,
Mortais e imortais,
Concede-me a Tua pessoa como dom da graça,
Tu, que por todos repartes a vida.

(São Nersès Snorhali)

“Quem não tomar a sua cruz para Me seguir não pode ser Meu discípulo”

Uma vez que a nossa Cabeça subiu aos céus, é conveniente que os Seus membros (Col 2,19) sigam o seu Chefe, passando pelo caminho que Ele tomou com tanto sofrimento. Pois ‘não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na Sua glória? (Lc 24,26). Devemos seguir o nosso Chefe tão digno de amor, que levou o estandarte à nossa frente.’ Que cada homem tome a sua cruz e O siga; e chegaremos onde Ele está. Vê-se que muitos seguem este mundo a troco de honrarias insignificantes, e para tal renunciam ao conforto físico, ao seu lar, aos seus amigos, expondo-se aos
perigos da guerra – tudo isto para adquirirem bens exteriores! É portanto justo que pratiquemos a renúncia total para adquirir o puro bem que é Deus e que, assim, sigamos o nosso Chefe. Não é raro verem-se homens que desejam ser testemunhas do Senhor na paz, isto é, desde que tudo corra de acordo com os seus desejos. Querem muito tornar-se santos, mas sem fadiga, sem aborrecimento, sem dificuldade, sem que lhes custe coisa alguma. Ambicionam conhecer Deus, saboreá-l'O, senti-l'O, mas desde que não haja amargura. Porém, quando é preciso trabalhar, quando chegam até eles a amargura, as trevas e as tentações, quando já não sentem Deus e se sentem desamparados interior e exteriormente, as suas boas intenções desvanecem-se. Não são boas testemunhas, testemunhas adequadas do Salvador. Ah! Pudéssemos nós libertar-nos dessa busca e procurar sempre a paz no próprio cerne da infelicidade! Só aí nasce a verdadeira paz, aquela que permanece.

(Jean Tauler)

 
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