O que é a verdade?

Não foi apenas Pilatos que pôs de parte esta questão como insolúvel e, para sua função, impraticável. Ainda hoje, tanto na ágora política quanto na discussão acerca da formação do direito, a maioria sente aversão por ela. Mas, sem a verdade, o homem não se encontra a si mesmo; e, no fim de contas, abandona o campo aos mais fortes. “Redenção”, no sentido pleno da palavra, só pode consistir no fato de a verdade se tornar reconhecível. E esta se torna reconhecível, se Deus se torna reconhecível. Ele torna-se reconhecível em Jesus Cristo. N’Ele, Deus entrou no mundo, e desse modo fundou a medida da verdade no meio da história. Externamente, a verdade é impotente no mundo; como Cristo, que, segundo os critérios do mundo, é sem poder: Ele não possiu nenhuma legião. Acaba crucificado. Mas é precisamente assim, na carência total de poder, que el é poderoso, e só assim a verdade se torna força, sem cessar.

(Bento XVI – Jesus de Nazaré, v. 2)

O crucifixo

Crucifixo (1) (1)

(…)

Na grande avançada para o céu, sem ele, sem o sinal da cruz, não sabe a Igreja dar um passo, iniciar uma única cerimônia, esboçar uma bênção sequer. 

  Ó meu crucifixo! Pobre e humilde, banhado das minhas lágrimas na amorável penumbra de uma cela, como brilhas tu, iluminando-nos a vida e a morte, o sofrimento e o prazer, a terra e o céu, o tempo e a eternidade!

(…)

Levei-te aos lábios, cheguei-te ao coração. E ouvi, uma por uma, impressas em tuas chagas, todas as palavras dos livros sagrados. E cada palavra que te caiu dos lábios me foi direta ao coração como um dardo de fogo, desse fogo do Espírito Santo que, desde o meu batismo, permanece latente em minha alma pecadora. E eu disse: também eu te amo, também eu quero amar-te de todas as minhas forças. Tu me ensinas como e até quando ser-me-á  preciso amar o meu próximo. "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" - me dizes tu. Mandamento difícil e humilhante. Se se tratasse de fazer bem aos que fizeram bem - fácil e deleitoso me seria o cumprir a tua vontade, pois ela encontraria eco dentro em meu próprio coração. Mas, tu queres que eu perdoe aos que me fizeram mal, não somente que lhes perdoe, mas que os ame ainda como tu mesmo nos amaste. E eu vi as tuas chagas, contemplei-te as mãos e os pés traspassados de duros cravos, a cabeça coroada de espinhos, os braços abertos em atitude de perdão. E eu disse e repito, inteiramente rendido aos argumentos do teu amor: sim, ó meu Jesus, perdoo-lhes por amor de ti, perdoo-lhes porque mais gravemente tenho te ofendido que eles a mim.

(Leia o texto completo no original: Blog Via-Veritas-Vita)

Utilidade da penitência

Vamos fazer neste post um resumo das considerações do Padre Faber sobre as dez utilidades da mortificação ou penitência.

  1. Domar o corpo, a fim de submeter as paixões revoltosas ao poder da graça e à parte superior da nossa vontade. Não encontraremos em pessoa alguma a força de vontade ou a seriedade de espírito, se ela não se esforçar deveras por subjugar o corpo.
  2. Estender nosso horizonte espiritual: Criar a sensibilidade de consciência (consciência delicada - um dos maiores dons de Deus na vida espiritual). Se não é o único meio, pelo menos é um dos principais.
  3. Obter crédito diante de Deus. O sofrimento torna-se facilmente uma força perante as coisas de Deus. Quando nós queixamos de ficarem as nossas orações sem resposta, da falta de êxito dos nossos esforços para desarraigar algum pecado habitual, de cedermos às tentações, às surpresas do gênio ou da loquacidade, podemos atribuir tudo isto a nossa vida imortificada.
  4. Avivar o nosso amor a Deus. Manifestam e aumentam o nosso amor. E quando o objeto que amamos e contemplamos é, como Jesus, um objeto de dor e de sofrimentos, o amor nos excita com mais ou menos veemência a imitá-lo. 
  5. Desapegar-nos das vaidades do mundo e inundar-nos com a alegria espiritual. Nada em si é tão oposto às vaidades do mundo como a mortificação, que destrói tudo o que elas mais prezam e mais amam. A alegria espiritual, esta é como a enchente da maré, que entra por onde encontra lugar vazio. A proporção, portanto, que os nossos corações se desapegam das amizades terrenas, isto é, das afeições que não constituem para nós um dever, eles se tornam capazes de gozar da doçura de Deus. As pessoas mortificadas são sempre alegres.( Não existe santo triste, seria um triste santo). O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo. 
  6. Impedir que cometamos um erro grave, abandonando cedo demais a Via Purgativa: Grande perigo na vida espiritual. Muitos se apressam tanto no começo, que ficam sem respiração e abandonam por completo a corrida. Assemelham-se aos insensatos que correm loucamente para fugir de sua sombra. A natureza deseja sair do seu noviciado. A alma ligeiramente fatigada de vigiar a si mesma, quer agora converter o mundo. Peca por indiscrição e zelo imprudente. A água transborda a força de ferver, apagando assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo, pela indiscrição. Oh! quantos santos malogrados, heróis vencidos, vocações frustradas!!! Nenhum mal resultaria em demorarmo-nos por muito tempo nas regiões inferiores da vida espiritual. Pelo contrário, elevar-nos com demasiada rapidez, expõe-nos a muitos perigos. Um mal que foi mortificado, parece estar morto à primeira vista: finge-se morto assim como os lobos. Mas, então qual será a duração da Via Purgativa? Quem o poderá dizer? Depende do fervor, do grau de humildade; mas, em todo caso, devemos contá-la por anos e não por meses.
  7. Conceder-nos o dom da oração mental. O célebre autor espiritual Da Ponte, no 3º Tratado do seu "Guia Espiritual" conta minuciosamente uma visão que se manifestou, diz ele, a uma pessoa do seu conhecimento. Deus fez ver a esta pessoa o estado de uma alma tíbia e preguiçosa, dada à oração sem a mortificação. Eis a visão: Ela viu entre uma larga planície um alicerce profundo e muito firme, branco como o marfim, e ao lado passeava um jovem de resplandecente beleza. Este chamou-a e disse-lhe: Eu sou filho de um rei poderoso, e deitei este alicerce a fim  de construir um palácio onde pudésseis morar e receber-me quando vier vos visitar, o que farei frequentemente, com a condição de terdes um quarto pronto para me receber e de abrirdes logo que eu bater. Mais tarde, porém, virei morar sempre convosco, e vos alegrareis de me ter por vosso hóspede constante. Podeis julgar pela grandeza destes alicerces do que será o edifício. Entrementes farei a construção e vós deveis trazer-me todo o material. A dama começou a tornar-se muito admirada e aflita, por achar impossível trazer ela mesma todo o material necessário. O jovem porém disse: Não temais, podereis fazê-lo facilmente. Começai por trazer já alguma coisa e eu vos ajudarei. Então ela começou a procurar em redor para ver se encontrava qualquer coisa, mas parou logo e fitou o jovem, cuja beleza a encantava e deleitava; mas não se esforçou em lhe agradar, mesmo receou muito ao ver que a vigiava. Não obstante não corou com a sua desobediência, e, enquanto ficava ociosa, viu os alicerces cobrirem-se gradualmente com pó e com palha trazidos pelo vento e por vezes tais furacões de pó se levantavam que as escondiam por completo. Ou, então, chuvas torrenciais cobriam tudo com lama, lama esta que se estendia gradualmente e era a causa de uma vegetação fértil e má. Em breve, nada restava dos alicerces, e por fim um furacão encobriu também o jovem, e tudo desapareceu da sua vista sob um montão de imundícies. A dama muito se afligiu ao ver-se só, tanto mais que em breve foi cercada por detestáveis montes de cal, de areia e de pedra. Lastimou sua tibieza e sua ociosidade, mas crendo estar o jovem ainda escondido em alguma cavidade dos alicerces, clamou em alta voz: Senhor, eis que venho! Trago comigo o material; por favor aproximai-vos da construção; arrependo-me profundamente da minha lentidão e da minha indolência. Enquanto se mantinha nestas disposições a visão lhe foi explicada pelo seguinte modo: Os alicerces significam a fé e os hábitos das outras virtudes que Jesus Cristo infunde na alma no batismo, desejando construir nela um belo edifício de alta perfeição, com a condição de a alma cooperar com Ele, trazendo o material necessário, isto é, a observância dos preceitos divinos e dos conselhos, o que poderá fazer com o auxílio de Nosso Senhor. Mas a alma tantas vezes se deleita em meditar nos mistérios de Cristo, que se torna tíbia e ociosa, não se esforçando por lhe obedecer, e por esta falta de atenção e indolência, os pecados veniais obscurecem aos poucos os hábitos das virtudes, e os olhos da alma se tornam tão turvos que não podem mais ver a Nosso Senhor. Para castigar esta apatia, Ele permite, por vezes, que a alma caia em pecado mortal, que tudo mancha e tudo destrói. Em seguida, devido à misericórdia de Deus, a alma se arrepende, e encontra as pedras da contrição, a cal da confissão, e as areias da satisfação, e em alta voz implora a Jesus que perdoe os seus pecados e comece novamente a construção. 
  8. Dar à santidade profundeza e força, assim como os exercícios de ginástica desenvolvem os músculos e os robustecem. Isto refere-se ao que foi dito há pouco, de não abandonar cedo demais a Via Purgativa. Exemplo: Simeão Estilita quando primeiro começou a se sustentar sobre a coluna, ouviu no sono uma voz lhe dizer: Levanta-te, cava a terra. Pareceu-lhe ter cavado algum tempo e depois cessado, quando a voz lhe disse: cava mais fundo! Quatro vezes cavou, quatro vezes descansou, e quatro vezes a voz repetiu: cava mais fundo! Depois disse-lhe: Agora constrói tranquilamente. Este trabalho humilhante de cavar é a mortificação. Existe infelizmente uma piedade mesquinha e pobre, uma sentimentalidade religiosa que não se eleva além da beleza da devoção ou de um cerimonial comovente, devoção boa para o dia de sol, não para a tempestade; e o erro na construção desse edifício fraco e caduco está na falta da mortificação em sua base. (Falo com experiência material e espiritual: o escultor escolhe para matéria do seu trabalho, uma madeira ao mesmo tempo, fácil de cortar e firme, que é o cedro. Assim também ao esculpir Jesus Crucificado nas almas, é mister o escultor espiritual encontrar a docilidade da humildade e a firmeza da mortificação. Não há como trabalhar em matéria mole). 
  9. Utilidade que se refere às austeridades corporais. Estas levam a alma a atingir a graça mais alta da mortificação interior. É a maior das ilusões supor ser possível mortificar o juízo e a vontade, sem mortificar também o corpo. A mortificação interior é certamente mais excelente, todavia a exterior é mais eficaz. 
  10. A mortificação é uma escola excelente onde será adquirida a régia virtude da discrição. A discrição é o hábito de dar exatamente no alvo, e, para acertá-lo, é preciso ter no olhar uma exatidão e na mão uma firmeza sobrenaturais. É sobretudo no uso da mortificação que se exerce e se prova a discrição; esta virtude se manifesta na obediência, na humildade, na falta de confiança em si, na perseverança e no desapego das próprias penitências. Exemplo: Foi esta a prova imposta pelos bispos a Simeão Estilita. Enviaram um mensageiro ordenando-lhe que descesse da coluna. Se hesitasse, eles saberiam por este sinal que sua extraordinária vocação não provinha de Deus. Mas, apenas dada a ordem começou Simeão a executá-la. Na sua docilidade os bispos reconheceram a vontade de Deus e mandaram que permanecesse onde estava.

(Publicação original do Blog Via-Veritas-Vita)

 
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