Como Jesus, não ser como o mundo

“[Devemos] recordar a inversão de valores que se verifica na figura de Jesus Cristo, na sua mensagem. Desde o seu nascimento, Jesus não pertence àquele ambiente que, aos olhos do mundo, é importante e poderoso; e contudo é precisamente esse homem irrelevante e sem poder que Se revela como o verdadeiramente Poderoso, como Aquele de quem, no final das contas, tudo depente. Por conseguinte, faz parte do tornar-se cristão este sair do âmbito daquilo que todos pensam e querem, sair dos critérios predominantes, para entrar na luz da verdade sobre o nosso ser e , com essa luz, alcançar o justo caminho.”

(Bento XVI – A infância de Jesus, p.59-60)

Senhor, ensina-me a buscar-Vos…


"Senhor, ensina-me a buscar-Vos e revela-Vos a mim quando Vos procuro. Pois não posso buscar-Vos se não me ensinares, nem posso encontrar-Vos se não Vos revelares. Deixa-me buscar-Vos desejando, deixa-me desejar-Vos buscando; deixa-me encontrar-Vos no amor e amar-Vos encontrando. Senhor, eu Vos reconheço e agradeço por me haveres criado à Vossa imagem, a fim de que me lembre de Vós, Vos conceba e Vos ame; mas essa imagem foi por tantas maneiras desgastada e enfraquecida pelos vícios e obscurecida pela fumaça dos malfeitos, que não pode levar a cabo aquilo para que foi feita, a menos que Vós a renoves e a cries de novo. Os olhos da alma estão escurecidos pela sua enfermidade ou deslumbrados pela Vossa glória? Estão, ao mesmo tempo, obscurecidos em si e ofuscados por Vós. Senhor, essa é a luz inacessível na qual resides. Na verdade, não a vejo, porque ela é brilhante demais para mim; e, todavia, seja o que for que eu vejo, vejo-o graças a ela, como os olhos fracos vêem o que vêem graças à luz do sol, que não podem contemplar no próprio sol. Ó luz suprema e inabordável, ó verdade santa e abençoada, como estás longe de mim, que estou tão perto de Vós; como estás afastada da minha visão, se bem que eu esteja tão perto da Vossa! Em toda parte estás inteiramente presente, e não Vos vejo. Em Vós me movo e tenho em Vós o meu ser, e não posso chegar a Vós. Estás dentro e ao redor de mim, e não Vos sinto."
(Santo Anselmo) 
Publicação original: A Grande Guerra


Deus está no interior do homem

Se as pessoas que procuram a Deus soubessem! Se esses sábios que buscam a Deus no conhecimento intelectual e nas vãs discussões soubessem; se os homens soubessem onde se encontra Deus! Quantas guerras se evitariam; quanta paz não haveria no mundo, quantas almas seriam salvas. Insensatos e tolos, os que procuram a Deus onde Ele não está! Escutai e espantai-vos: Deus está no coração do homem, isso eu sei. Mas reparai, Deus vive no coração do homem quando esse coração está desapegado de tudo o que não é Ele, quando esse coração se apercebe de que Deus bate à porta (Ap 3,20) e, varrendo e limpando todas as suas salas, se dispõe a receber Aquele que é o único que o pode saciar.

Que bom é viver assim, com Deus no mais fundo do coração; que doçura tão grande vermo-nos cheios de Deus! [...] Custa pouco, não custa mesmo nada fazer tudo o que Ele quer, pois amamos a Sua vontade e até mesmo a dor e o sofrimento se tornam paz, pois sofremos por amor. Só Deus sacia a alma e a preenche plenamente. [...] Que venham os sábios perguntar onde está Deus: Deus encontra-Se onde o sábio, com toda a sua orgulhosa ciência, não consegue chegar.

(São Rafael Arnaiz Baron)

Um conselho do Padre Pio


Depois do amor a Nosso Senhor, recomendo-te o amor à Igreja, Sua Esposa. Ela é de algum modo a pomba que incuba e faz nascer os pequeninos do Esposo. Dá sempre graças a Deus por seres filho da Igreja, a exemplo de um tão grande número de almas que nos precederam nesta via bem-aventurada. Tem muita compaixão por todos os pastores, pregadores e guias espirituais, espalhados por toda a superfície da terra. Reza a Deus por eles, para que, sendo eles próprios salvos, sejam produtivos e facilitem a salvação das almas. Ora tanto pelas pessoas pérfidas como pelas fervorosas, ora pelo Santo Padre, por todas as necessidades espirituais e temporais da Igreja; porque é ela a nossa mãe. Faz também uma oração especial por todos os que trabalham para a salvação das almas, para glória do Pai.
(Padre Pio)

Arrependimento

Tu previste o desespero de Nínive, desviaste a ameaça já profetizada, e a Tua misericórdia venceu a Tua cólera, Senhor. Tem piedade, também nos dias de hoje, do Teu povo e da Tua cidade; derruba os nossos adversários com a Tua mão poderosa, por intercessão da Mãe de Deus, acolhendo o nosso
arrependimento.
O hospital do arrependimento está aberto a todas as doenças morais: vinde, apressemo-nos a recorrer a ele e a tomar vigor para as nossas almas. Foi pelo arrependimento que a pecadora encontrou a salvação, que Pedro foi libertado das suas negações, que Davi pôs fim ao sofrimento do seu coração, e foi por ele que os ninivitas foram curados (Lc 7,50; 2S 12,13). Portanto, não hesitemos, levantemo-nos, mostremos a nossa ferida ao Salvador e deixemos que Ele nos cure. Porque Ele ultrapassa todo o nosso desejo, tal é o acolhimento que faz do nosso arrependimento.
Nunca são exigidos honorários aos que O procuram, porque eles nunca poderiam oferecer um presente do mesmo valor da cura. Recuperaram a saúde gratuitamente, mas deram o que podiam dar: em vez de presentes, lágrimas, que são, para este Libertador, objetos preciosos de amor e desejo. Disso são testemunhas a pecadora, Pedro, Davi e os ninivitas, pois levaram apenas os seus gemidos quando foram ter aos pés do Libertador, e Ele acolheu o seu arrependimento.
As lágrimas são muitas vezes mais fortes que Deus, se assim podemos dizer, e fazem violência sobre Ele; porque o Misericordioso Se deixa alegremente acorrentar pelas lágrimas, pelo menos pelas lágrimas do espírito (cf. 2Cor 7,10). [...] Choremos, portanto, com o coração, à maneira dos ninivitas que, graças à contrição, abriram o céu e chamaram a atenção do Libertador, que recebeu o seu arrependimento.

(São Romano, o Melodista)

Saborear a Cruz!

Como exprimir o que a minha alma sentiu quando, da boca dum santo prelado, ouviu o que é já a minha loucura, o que me torna absolutamente feliz no meu exílio: o amor da cruz! Que bom seria ter a verve do rei David para poder exprimir as maravilhas do amor à cruz! A cruz de Cristo! Que mais posso dizer? Não sei orar, não sei o que é ser bom, não tenho espírito religioso, pois estou cheio do mundo. Só sei uma coisa, uma coisa que enche a minha alma de alegria, apesar de me ver tão pobre de virtudes e tão rico em misérias; sei apenas que tenho um tesouro que não trocaria por nada nem por ninguém: a minha cruz, a cruz de Jesus, essa cruz que é o meu único repouso. Como explicar isto? Quem não experimentou, não pode sequer suspeitar do que se trata. Ah, se todos os homens amassem a cruz de Cristo! Se o mundo soubesse o que é abraçar plenamente, verdadeiramente, sem reservas, em loucura de amor, a cruz de Cristo! Tanto tempo perdido em conversas, devoções e exercícios que são santos e bons, mas que não são a cruz de Jesus, não são o que há de melhor. Pobre homem que não prestas para nada, que não serves para nada, que arrastas a tua vida, seguindo como podes as austeridades da regra, contentando-te em esconder no silêncio os teus ardores: ama até à loucura o que o mundo despreza por não conhecer, adora em silêncio essa cruz, que é o teu tesouro, sem que ninguém se aperceba. Medita em silêncio diante dela nas grandezas de Deus, nas maravilhas de Maria, nas misérias do homem. Prossegue a tua vida sempre em silêncio, amando, adorando e unindo-te à cruz. Que queres mais? Saboreia a cruz, como disse hoje de manhã o senhor bispo. Saborear a cruz!

(São Rafael Arnaiz Baron)

O Resgate de Adão

Nós, os novos batizados, os filhos do batistério que acabámos de receber a luz, damos-Te graças, Cristo Deus. Tu iluminaste-nos com a luz do Teu rosto, Tu revestiste-nos com a veste que convém às Tuas núpcias (Sl 4, 7; Mt 22, 11). Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. Quem dirá, quem mostrará ao primeiro homem criado, Adão, a beleza, o brilho, a dignidade dos seus filhos? Quem contará também à infeliz Eva que os seus descendentes se tornaram reis, revestidos de uma veste de glória, e que com grande glória glorificam Aquele que os glorificou, brilhantes de corpo, de espírito e de veste? E quem os exaltou? Foi, evidentemente, a sua Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. Tu és brilhante e radioso, Adão. Ao ver-te, o teu adversário definha e exclama: Quem é este que vejo? Não sei. O pó foi renovado (Gn 2, 7), as cinzas foram divinizadas. O pobre doente foi convidado, foi refrescado, entrou e sentou-se à mesa, foi conduzido ao banquete e tem a audácia de comer e o desplante de beber Aquele que o criou. E quem Lho deu? Foi, evidentemente, a sua Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. Esqueceu as suas culpas antigas, não ostenta a menor cicatriz dos primeiros ferimentos. Abandonou os seus longos anos de paralisia na piscina, como tinha feito o paralítico, e deixou de trazer o leito aos ombros, mas traz às costas a cruz Daquele que teve piedade dele. Outrora, o Amigos dos homens (Sap 1, 6) lavou muitos homens nas águas, mas eles não brilharam assim; àqueles, porém, a Ressurreição tornou-os luminosos. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado. [...] Eis-te recriado, novo batizado, eis-te renovado; não curves as costas ao peso dos pecados. Possuis a cruz como cajado, apoia-te nela. Leva-a à tua oração, leva-a para a mesa, leva-a para o leito, leva-a para todo o lado como título de glória. [...] Grita aos demônios: Com a cruz na mão, ergo-me, louvando a Ressurreição. Glória a Ti, glória a Ti, porque tal foi do Teu agrado.

(São Romano, o Melodista)

Dias de luta

Quanto mais o rei se aproxima, mais necessidade temos de nos preparar. Quanto mais se aproxima o momento em que o prémio será atribuído ao lutador, melhor tem de ser a luta. É também o que acontece nas corridas: quando chega o final da corrida e o objectivo se aproxima, mais se estimula o ardor dos cavalos. […] Uma vez que a noite se desvanece e o dia surge, façamos as obras do dia; deixemos as obras das trevas.  Apressamo-nos a realizar as tarefas do dia; vestimo-nos depois de termos sido arrancados ao sono, para que o sol nos encontre prontos. O que fazemos nessa altura, façamo-lo agora: sacudamos os nossos sonhos, afastemo-nos das ilusões da vida presente, deixemos o sono profundo e revistamo-nos do fato da virtude. Porque o dia chama-nos à batalha, ao combate.

Não vos alarmeis ao escutar estas palavras de combate e de luta! Se vestir uma pesada armadura material é penoso, é desejável pelo contrário vestir a armadura espiritual, porque é uma armadura de luz. Então, brilharás com um brilho mais resplandecente que o sol e, cintilando com um fulgor radioso, estarás em segurança, porque são armas, armas de luz. Estaremos então dispensados do combate? Não! Temos de combater, mas sem nos deixarmos vencer pela fadiga e pela angústia. Porque não é tanto para a guerra que somos convidados, mas para uma festa e um júbilo.

(São João Crisóstomo)

São Miguel, São Rafael e São Gabriel, Rogai por nós!

A árvore da Cruz

Para mim, a árvore da cruz é a da salvação eterna. Alimenta-me e faço dela o meu banquete. Agarro-me através das suas raízes e, através dos seus ramos, expando-me; o seu orvalho purifica-me e o seu sopro, como um vento delicioso, torna-me fecundo. Ergui a minha tenda à sua sombra e, fugindo aos grandes calores, aí encontro um refúgio de frescura. É através das suas flores que floresço e os seus frutos são as minhas delícias; esses frutos que me estavam reservados desde as origens e com os quais me consolo sem limite. Quando tremo face a Deus, esta árvore protege-me; quando vacilo, ela é o meu apoio; é o preço dos meus combates e o troféu das minhas vitórias. É, para mim, o caminho estreito, o sendeiro escarpado, a escada de Jacó percorrida pelos anjos, no cimo da qual o Senhor está verdadeiramente apoiado (cf. Mt 7,14; Gn 28,12).
Esta árvore de dimensões celestes eleva-se da terra até aos céus, como planta imortal, fixada a meio caminho entre o céu e a terra. Sustentáculo de todas as coisas, apoio do universo, suporte do mundo habitado, abraça o cosmos e reúne os vários elementos da natureza humana. Ela própria é edificada com as cavilhas invisíveis do Espírito, para não vacilar ao ajustar-se ao divino. Tocando no seu topo o alto dos céus, firmando a terra com os seus pés e envolvendo por todos os lados, com os seus imensos braços, os espaços inumeráveis da atmosfera, ela é em si mesma completa em tudo e em todo o lado.

(Homilia Graga do século IV)

Que significa a Cruz?

mercy[1]

Outrora a cruz significou um castigo, agora tornou-se objeto de honra. Outrora símbolo de condenação, ei-la agora princípio de salvação. Pois ela é para nós a causa de numerosos bens: libertou-nos do erro, iluminou-nos nas trevas e reconciliou-nos com Deus; tínhamo-nos tornado para Ele inimigos e estranhos, e ela deu-nos a Sua amizade e aproximou-nos d'Ele. A cruz é para nós a destruição da inimizade, o garante da paz, o tesouro de mil bens. Graças a ela não erramos já pelos desertos, porque conhecemos o verdadeiro caminho. Não ficamos de fora do palácio real, porque encontrámos a porta. Não receamos as armas ardentes do diabo, porque descobrimos a fonte. Graças a ela já não somos viúvos, porque descobrimos o Esposo. Não temos medo do lobo, porque temos o bom pastor. Graças à cruz não tememos o usurpador, porque nos sentamos ao lado do Rei.

(São João Crisóstomo)

A glória da Cruz

‘Que eu jamais me glorie, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo’ (Gl 6,14). A cruz é a tua glória, a cruz é a tua soberania. Eis que tens a soberania sobre os teus ombros (Is 9,5). Quem carrega a cruz carrega a glória. É por isso que a cruz, que atemoriza os infiéis, é para os fiéis mais bela que todas as árvores do Paraíso. Cristo temeu a cruz? E Pedro? E André? Pelo contrário, desejaram-na. Cristo avançou para ela ‘como um noivo que sai de seu aposento e se lança em sua carreira’ (Sl 18,6): ‘Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa, antes de sofrer’ (Lc 22,15). Ele comeu a Páscoa sofrendo a sua Paixão, quando passou deste mundo ao Pai; na cruz, comeu e bebeu, inebriou-se e adormeceu.
Quem poderá agora temer a cruz? Senhor, poderei dar a volta ao céu e à terra, ao mar e às planícies, que nunca Te encontrarei senão na cruz. É nela que dormes, nela que apascentas o teu rebanho, nela que repousas à hora do meio-dia (Ct 1,7). Sobre esta cruz, aquele que está unido ao seu Senhor canta suavemente: ‘Vós sois, Senhor, para mim um escudo; vós sois minha glória, vós me levantais a cabeça’ (Sl 3,4). Ninguém Te procura, ninguém Te encontra, senão na cruz. Cruz de glória, enraíza-te em mim, para que eu seja encontrado em ti.

(São Bernardo)

“Concede-me a Tua pessoa como dom da graça”

Depois de consumares as palavras da Escritura,
E entregares ao Pai o Teu espírito,
Quando o soldado Te trespassou com uma lança,
Uma fonte brotou do Teu lado sagrado:

Água para lavar, na fonte sagrada do Batismo,
Sangue para beber, no mistério da Eucaristia,
Por causa da ferida da que nasceu da costela de Adão,
Pela qual pecou o primeiro homem.

A mim, que sou constituído duma carne marcada pelo pecado original 
E dum sangue amassado pela poeira,
Lavaste-me pelo orvalho do Teu lado.
E depois, caí de novo no pecado.

Não permitas que permaneça assim,
Mas digna-Te lavar-me de novo;
E, se essa graça não me for concedida,
Que ao menos meus pecados sejam regados por minhas lágrimas.

Abre a minha boca ao rio
Do sangue sagrado que corre do Teu lado
Para que eu beba a alegria
E exulte no Espírito Santo,

Que torne saboroso o gosto deste cálice
De amor imaculado e de vinho sem misturas.


Tu, que és o presente eterno do homem efémero,
Tu, que reclamo como presente,
Tu, que dás presentes às criaturas,
Mortais e imortais,
Concede-me a Tua pessoa como dom da graça,
Tu, que por todos repartes a vida.

(São Nersès Snorhali)

“Quem não tomar a sua cruz para Me seguir não pode ser Meu discípulo”

Uma vez que a nossa Cabeça subiu aos céus, é conveniente que os Seus membros (Col 2,19) sigam o seu Chefe, passando pelo caminho que Ele tomou com tanto sofrimento. Pois ‘não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na Sua glória? (Lc 24,26). Devemos seguir o nosso Chefe tão digno de amor, que levou o estandarte à nossa frente.’ Que cada homem tome a sua cruz e O siga; e chegaremos onde Ele está. Vê-se que muitos seguem este mundo a troco de honrarias insignificantes, e para tal renunciam ao conforto físico, ao seu lar, aos seus amigos, expondo-se aos
perigos da guerra – tudo isto para adquirirem bens exteriores! É portanto justo que pratiquemos a renúncia total para adquirir o puro bem que é Deus e que, assim, sigamos o nosso Chefe. Não é raro verem-se homens que desejam ser testemunhas do Senhor na paz, isto é, desde que tudo corra de acordo com os seus desejos. Querem muito tornar-se santos, mas sem fadiga, sem aborrecimento, sem dificuldade, sem que lhes custe coisa alguma. Ambicionam conhecer Deus, saboreá-l'O, senti-l'O, mas desde que não haja amargura. Porém, quando é preciso trabalhar, quando chegam até eles a amargura, as trevas e as tentações, quando já não sentem Deus e se sentem desamparados interior e exteriormente, as suas boas intenções desvanecem-se. Não são boas testemunhas, testemunhas adequadas do Salvador. Ah! Pudéssemos nós libertar-nos dessa busca e procurar sempre a paz no próprio cerne da infelicidade! Só aí nasce a verdadeira paz, aquela que permanece.

(Jean Tauler)

'Qual terreno somos ou queremos ser?'

Hoje, de modo especial, Jesus está semeando. Ao aceitar a palavra de Deus, nos tornamos o campo da fé. Por favor, deixe que a palavra do Senhor entre nas suas vidas. Deixe que entre em seus corações, germine, cresça. Deus faz tudo, mas vocês têm que permitir que Ele trabalhe nesse crescimento. Jesus nos diz que as sementes que caíram à beira do caminho, em meio às pedras e entre espinhos não deram fruto. Acredito que, com muita sinceridade, podemos nos perguntar: 'Qual terreno somos ou queremos ser?' Talvez sejamos como o caminho: ouvimos o Senhor porém nos deixamos tumultuar por tantos apelos superficiais? E eu lhes pergunto, agora me respondam silenciosamente: ‘serei eu um jovem atordoado ou como o terreno pedregoso? Acolhemos Jesus com entusiasmo mas somos inconstantes e diante das dificuldades não ter a coragem de ir contra a corrente'. Respondam silenciosamente. 'Terei eu valor ou serei eu um covarde?' Ou será que somos como um terreno espinhoso? As palavras negativas sufocam a palavra de Deus? Tenho o costume de jogar dos dois lados, ficar de bem com Deus e com o Diabo? Será que quero receber as sementes de Jesus e de vez em quando regar os espinhos e o que cresce de mau nos meus corações?

(…)

Sei que vocês apostam em algo grande, em escolhas definitivas que deem pleno sentido para a vida. É assim ou estou errado? Se é assim, façamos o seguinte. Todos em silêncio, olhando para dentro, para seus corações, e cada um fale com Jesus que quer receber a semente. Olhe Jesus. 'Jesus, tenho pedras, tenho espinhos, mas tenho esse cantinho de boa terra. Semeie aqui'. E em silêncio, permitem que Jesus plantem sua semente em boa terra. Lembrem-se desse momento. Cada um sabe o nome da semente que foi plantada agora. Deixem que frutifique. Deus vai cuidar dela.

(Papa Francisco, falando aos jovens na Vigília da JMJ, 27.07.2013)

Deus tornou-se homem…

Não foi simplesmente para partilhar a sua desgraça [que Jesus tornou-se homem], mas por empatia com a sua miséria e para os libertar: para Se tornar misericordioso, não como um Deus na Sua felicidade eterna, mas como um homem que partilha a situação dos homens. Maravilhosa lógica de amor! Como teríamos nós podido conhecer esta misericórdia admirável se ela não Se tivesse inclinado sobre a miséria existente? Como teríamos podido compreender a compaixão de Deus se ela tivesse permanecido humanamente estranha ao sofrimento? À misericórdia de um Deus, Cristo uniu pois a de um homem, sem a mudar, mas multiplicando-a, como está escrito: ‘Tu salvarás os homens e os animais, Senhor. Ó Deus, como fizeste abundar a Tua misericórdia!’ (Sl 35, 7-8 Vulg).

(São Bernardo)

Papa Francisco sobre a Cruz

“É um escândalo que Deus tenha vindo fazer-se um de nós; é um escândalo, e que tenha sido morto na Cruz, é um escândalo: O escândalo da Cruz. A Cruz segue sendo um escândalo, mas é o único caminho seguro: o da Cruz, o de Jesus, a encarnação de Jesus.”

(Papa Francismo, aos jovens argentinos na JMJ, 25/07/2013)

“Queridos jovens, confiemos em Jesus, abandonemo-nos totalmente a Ele! Só em Cristo morto e ressuscitado encontramos salvação e redenção. Com Ele, o mal, o sofrimento e a morte não têm a última palavra, porque Ele nos dá a esperança e a vida: transformou a cruz, de instrumento de ódio, de derrota, de morte, em sinal de amor, de vitória e de vida.

(…)

Tantos rostos acompanharam Jesus no seu caminho até a Cruz: Pilatos, o Cirineu, Maria, as mulheres… Também nós diante dos demais podemos ser como Pilatos que não teve a coragem de ir contra a corrente para salvar a vida de Jesus, lavando-se as mãos. Queridos amigos, a cruz de Cristo nos ensina a ser como o Cirineu, que ajuda Jesus levar aquele madeiro pesado, como Maria e as outras mulheres, que não tiveram medo de acompanhar Jesus até o final, com amor, com ternura. E você como é? Como Pilatos, como o Cirineu, como Maria?”

(Papa Francisco, na Via Sacra da JMJ, 26/07/2013)

O caminho e o fim

Se o mundo soubesse o que significa amar a Deus, ainda que pouco, também amaria o próximo. Quando se ama a Jesus, quando se ama a Cristo, também se ama aqueles que Ele ama. E Ele morreu de amor pelos homens. Porque, transformando o nosso coração no coração de Cristo, sentimos e percebemos os seus efeitos, e o maior de todos é o amor, o amor à vontade do Pai, o amor para com todos os que sofrem e gemem, o amor pelo irmão distante, seja ele inglês, japonês ou monge, o amor a Maria. Quem poderá compreender o amor de Cristo? Ninguém. Mas há quem tenha dele pequenas centelhas, ocultas e silenciosas, sem que o mundo o saiba. Meu Jesus, como és bom! Tudo fazes maravilhosamente! Mostras-me o caminho e mostras-me o fim. O caminho é a doce cruz, o sacrifício, a renúncia a si próprio, por vezes a batalha sangrenta que se resolve, por entre lágrimas, no Calvário ou no Jardim das Oliveiras. O caminho, Senhor, é ser o último, o doente, o pobre. Mas nada importa, pelo contrário! Estas renúncias são amáveis quando suscitam na alma a caridade, a fé e a esperança; é desta maneira que tu transformas os espinhos em rosas. E o fim? O fim és Tu, e apenas Tu. O fim é a posse eterna de Ti no céu, com Maria, com todos os anjos e todos os santos. Mas isso é no céu. E, para animar os débeis, os fracos, os cobardes como eu, Tu manifestas-Te por vezes ao seu coração e dizes-lhes: ‘Que procuras? Que queres? Por quem chamas? Repara, sou Eu. Eu sou a Verdade e a Vida.’ E então, Senhor, enches a alma dos Teus servos com doçuras inexprimíveis, que eles ruminam em silêncio e que mal conseguem explicar. Meu Jesus, como Te amo, a despeito do que sou. E quanto mais pobre e miserável sou, mais Te amo. E amar-Te-ei sempre; agarrar-me-ei a Ti e não Te deixarei mais – não sei que mais dizer.

(São Raphaël Arnaiz Baron)

A beleza da Cruz

Ó preciosíssimo dom da cruz! Vede o esplendor de sua forma! Não mostra uma figura mesclada de bem e de mal como aquela árvore do Paraíso, mas totalmente bela e excelente à vista e ao paladar. É uma árvore geradora de vida, não de morte; ilumina, não cobre de trevas; introduz no Paraíso, dele não expulsa; árvore em que Cristo, qual rei, com bravura sobe e vence o demônio, detentor do poder da morte e liberta o gênero humano da escravidão tirânica.

Sobre esta árvore o Senhor, qual valente guerreiro, ferido durante o combate em suas mãos, pés e lábios divinos, curou as chagas do pecado e nossa natureza ferida pelo mortífero dragão.

Mortos no princípio pela árvore, agora, pela árvore, recuperamos a vida; enganados antes pela árvore, na árvore repelimos a astuciosa serpente. Na verdade, novas e extraordinárias mudanças. Em vez da morte, dá-se a vida; em lugar da corrupção, a incorrupção; do opróbrio, a glória.

Tinha razão de exclamar o santo Apóstolo: “Quanto a mim, não quero gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo!” Pois a máxima sabedoria, aquela que floresceu da cruz, desafia a jactância da sabedoria do mundo e a arrogância da tolice. O tronco de todos os bens, elevado na cruz, extirpou todos os brotos da maldade e da injustiça.

Já as prefigurações desta árvore desde o princípio do mundo foram sinais e indícios de fatos em extremo admiráveis. Veja, quem tem vontade de saber. Noé, com seus filhos e as esposas, e com todas as espécies de animais, não se livrou da morte no dilúvio decretado por Deus numa pequena quantidade de madeira? E a vara de Moisés? Não é figura da cruz? Ora mudando a água em sangue, ora devorando as fictícias serpentes dos magos, ora dividindo o mar com seu toque, ora fazendo voltar as ondas a seu lugar e submergindo os inimigos. Mas sempre salvando aquele povo escolhido. Ainda figura da cruz, a vara de Aarão reverdecendo no mesmo dia, revelando o sacerdote legítimo.

Abraão também prefigurou-a ao pôr o filho amarrado sobre o feixe de lenha. Pela cruz a morte foi destruída e Adão recuperou a vida. Da cruz gloria-se todo apóstolo, por ela todo mártir é coroado, todo justo é santificado. Pela cruz revestimo-nos de Cristo, despojamo-nos do velho homem. Pela cruz, nós, ovelhas de Cristo, nos reunimos em um só rebanho, destinados que somos aos campos celestes.

(São Teodoro Estudita)

Da estrada real da Santa Cruz

1. A muitos parece dura esta palavra: Renuncia a ti mesmo, toma a tua cruz e segue a Jesus Cristo (Mt 16,24). Muito mais duro, porém, será de ouvir aquela sentença final: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (Mt 25,41). Pois os que agora ouvem e seguem, docilmente, a palavra da cruz não recearão então a sentença da eterna condenação. Este sinal da cruz estará no céu, quando o Senhor vier para julgar. Então todos os servos da cruz, que em vida se conformam com Cristo crucificado, com grande confiança chegar-se-ão a Cristo juiz.

2. Por que temes, pois, tomar a cruz, pela qual se caminha ao reino do céu? Na cruz está a salvação, na cruz a vida, na cruz o amparo contra os inimigos, na cruz a abundância da suavidade divina, na cruz a fortaleza do coração, na cruz o compêndio das virtudes, na cruz a perfeição da santidade. Não há salvação da alma nem esperança da vida, senão na cruz. Toma, pois, a tua cruz, segue a Jesus e entrarás na vida eterna. O Senhor foi adiante, com a cruz às costas, e nela morreu por teu amor, para que tu também leves a tua cruz e nela desejes morrer. Porquanto, se com ele morreres, também com ele viverás. E, se fores seu companheiro na pena, também o serás na glória.

3. Verdadeiramente, da cruz tudo depende, e em morrer para si mesmo está tudo; não há outro caminho para a vida e para a verdadeira paz interior, senão o caminho da santa cruz e da contínua mortificação. Vai para onde quiseres, procura quanto quiseres, e não acharás caminho mais sublime em cima nem mais seguro embaixo que o caminho da santa cruz. Dispõe e ordena tudo conforme teu desejo e parecer, e verás que sempre hás de sofrer alguma coisa, bom ou mau grado teu; o que quer dizer que sempre haverás de encontrar a cruz. Ou sentirás dores no corpo, ou tribulações no espírito.

4. Ora serás desamparado de Deus, ora perseguido do próximo, e o que é pior não raro serás molesto a ti mesmo. E não haverá remédio e nem conforto que te possa livrar ou aliviar; cumpre que sofras quanto tempo Deus quiser. Pois Deus quer ensinar-te a sofrer a tribulação sem alívio, para que de todo te submetas a ele e mais humilde te faças pela tribulação. Ninguém sente tão vivamente a paixão de Cristo como quem passou por semelhantes sofrimentos. A cruz, pois, está sempre preparada e em qualquer lugar te espera. Não lhe podes fugir, para onde quer que te voltes, pois em qualquer lugar a que fores, te levarás contigo e sempre encontrarás a ti mesmo. Volta-te para cima ou para baixo, volta-te para fora ou para dentro, em toda parte acharás a cruz; e é necessário que sempre tenhas paciência, se queres alcançar a paz da alma e merecer a coroa eterna.

5. Se levares a cruz de boa vontade, ela te há de levar e conduzir ao termo desejado, onde acaba o sofrimento, posto que não seja neste mundo. Se a levares de má vontade, aumenta-lhe o peso e fardo maior te impões; contudo é forçoso que a leves. Se rejeitares uma cruz, sem dúvida acharás outra, talvez mais pesada.

6. Pensas tu escapar àquilo de que nenhum mortal pôde eximir-se? Que santo houve no mundo sem tribulação? Nem Jesus Cristo, Senhor Nosso, esteve uma hora, em toda a sua vida, sem dor e sofrimento. Convinha, disse ele, que Cristo sofresse e ressurgisse dos mortos, e assim entrasse na sua glória (Lc 24,26). Como, pois, buscas tu outro caminho que não seja o caminho real da santa cruz?

(Tomás de Kempis – Imitação de Cristo)

A devoção a Maria protege contra a fúria de Satanás

Oh! Quanto desagrada ao demônio a perseverante devoção de uma alma à Mãe de Deus! Afonso Álvarez, muito devoto de Maria, foi atormentado pelo demônio com violentas tentações impuras, uma vez que estava rezando. Deixa essa tua devoção para com Maria, disse- lhe o inimigo, que eu deixarei de tentar-te. Foi revelado a S. Catarina de Sena, como atesta Luís Blósio, que Deus concedera a Maria, em consideração a seu unigênito, a graça de não cair presa do inferno pecador algum que a ela se recomendar devotamente. O próprio profeta Davi pedia já ao Senhor que o livrasse pelo amor que tinha à honra de Maria: Senhor, eu amei o decoro da vossa casa...; não percais com os ímpios a minha alma (SI 25, 8).

Diz “vossa casa”, porque Maria foi certamente aquela casa que o próprio Deus se preparou na terra para sua habitação, e onde ao fazer-se homem achou seu repouso. Assim está escrito nos Provérbios (9,1): A sabedoria edificou para si uma casa. — Não se perderá certamente, dizia o Pseudo-Inácio, mártir, quem é fiel na devoção a essa Virgem Mãe. E isso confirma S. Boaventura com as palavras: Senhora, os que vos amam gozam grande paz nesta vida, e na outra não verão a morte eterna. Nunca sucedeu, nem sucederá, assegura-nos o piedoso Blósio, que um humilde e diligente servo de Maria se perca eternamente.

Oh! quantos permaneceriam obstinados e se condenariam para sempre, se não se houvesse Maria empenhado junto ao Filho para usar de misericórdia em favor deles!Eis como exclama Tomás de Kempis. A muitas pessoas mortas em pecado mortal alcançou de Deus a divina Mãe suspensão da sentença, e vida para fazerem penitência. Assim opinam muitos teólogos e especialmente S. Tomás. Disso referem graves autores muitos exemplos. Entre outros, Flodoardo, que viveu no século IX, fala em sua Crônica de um certo diácono Adelmano de Verdun, que, tido já por morto e prestes a ser sepultado, volveu à vida e disse ter visto o lugar do inferno ao qual já estava condenado. Obtivera-lhe, porém, a Santíssima Virgem, a graça de voltar ao mundo e fazer penitência. Caso idêntico refere Súrio de um cristão romano, por nome André. Tendo morrido na impenitência, alcançara-lhe Maria a graça de voltar ao mundo para ganhar o perdão de seus pecados.

Estes e outros exemplos, entretanto, não devem servir para autorizar a temeridade dos que vivem em pecado, confiados de que Maria os haja de livrar do inferno, ainda que morram impenitentes. Rematada loucura fora, certamente, lançar-se alguém para dentro de um poço, na esperança de ver-se livre da morte, porque Maria em caso semelhante já preservou a outros. Muito maior loucura seria, entretanto, arriscar-se alguém a morrer no pecado, presumindo que a Santíssima Virgem o preservará do inferno.

Sirvam tais exemplos para reanimar a nossa confiança, ao considerarmos que a intercessão de Maria é de tal poder que livra do inferno até aos que morrem em pecado mortal. Quanto maior não será então ele, para impedir que se perca quem nesta vida a ela recorre com intenção de emendar-se e é fiel em a servir! Digamos-lhe, pois, com S. Germano: Ó nossa Mãe, que será de nós que somos pecadores, mas nos queremos emendar e recorremos a vós, que sois a vida dos cristãos? Ouvimos S. Anselmo garantir, ó Senhora, que não se perderá eterna mente todo aquele por quem orais uma só vez. Rogai por nós, então, e seremos salvos do inferno.

Quem ousará dizer-me, escreve Ricardo de S. Vítor, que Deus não me será propício no dia do juízo, se estiverdes ao meu lado, ó Mãe de Misericórdia? — O Beato Henrique Suso protestava que às mãos de Maria havia confiado sua alma. Se o juiz tivesse de condená-lo, queria que passasse a sentença pelas mãos misericordiosas da Virgem porque, como esperava, nesse caso ficaria suspensa a execução. O mesmo digo e espero para mim, ó minha Santíssima Rainha. Por isso quero repetir continuamente com S. Boaventura: Em vós, Senhora, pus toda a minha esperança, por isso seguramente espero não me ver perdido, mas salvo no céu para louvar-vos e amar-vos para sempre.

Exemplo

Pelo ano de 1604 viviam numa cidade de Flandres dois jovens estudantes, que, desleixando dos estudos, se entregavam a orgias e devassidões. Uma noite entre outras foram a certa casa de tolerância. Um deles, chamado Ricardo, depois de algum tempo, retirou-se para casa, e o outro ficou. Chegando Ricardo a casa, estava para acomodar-se, quando se lembrou que não havia rezado umas Ave-Marias, como era de seu costume fazê-lo em honra da Santíssima Virgem. Acabrunhado pelo sono, sem nenhuma vontade para rezar, fez, contudo, um esforço e rezou as Ave-Marias, embora sem devoção e por entre bocejos de sono. Deitou-se depois e adormeceu. Mas não tardou a ouvir bater à porta com muita força. E imediatamente, sem ele a abrir, vê diante de si seu companheiro de farras, mas desfigurado e medonho.

Quem és tu? — perguntou aterrorizado.

Tu não me conheces? — respondeu o outro.

Mas como te mudaste tanto? tu pareces um demônio.

Ai, pobre de mim! — exclamou aquele infeliz, — que, ao sair daquela casa infame, veio um demônio e me sufocou. O meu corpo ficou no meio da rua, e a minha alma está no inferno. Sabes, pois, acrescentou, que o mesmo castigo te tocava também a ti. Mas a bem-aventurada Virgem, pelo teu pequeno obséquio das Ave-Marias, te livrou dele. Ditoso de ti, se tu souberes aproveitar deste aviso, que a Mãe de Deus te manda por mim. Depois destas palavras, o condenado entreabriu a capa e mostrou as chamas e as serpentes que o atormentavam e desapareceu. Então Ricardo, chorando copiosamente, com o rosto em terra, deu graças a Maria, sua libertadora. Enquanto pensava como mudar de vida, ouviu tocar Matinas no convento dos franciscanos. Logo pensou: É aí que Deus me quer para fazer penitência. E foi pedir aos frades que o recebessem. Cientes de sua má vida, não queriam eles aceitá-lo. Contou-lhes então entre lágrimas o que havia acontecido. Dois religiosos foram à rua indicada, achando efetivamente o cadáver do companheiro, sufocado e negro como um carvão. Depois disso foi Ricardo admitido e levou uma vida penitente e exemplar. Mais tarde foi como missionário pregar nas índias e em seguida no Japão, onde teve finalmente a graça de morrer mártir, queimado vivo por amor de Jesus Cristo.

Oração

Ó Maria, ó Mãe caríssima, em que abismo de males me havia de achar, se não me tivésseis salvado tantas vezes com vossas mãos piedosíssimas? Há quantos anos estaria no inferno, se vossa poderosa intercessão dele não me houvesse preservado? Para lá me impeliram meus gravíssimos pecados; a justiça divina já me havia condenado; os demônios bramiam, procurando executar a sentença. Vós, porém, correstes sem eu vos chamar, sem vo-lo pedir, me salvastes. Ó minha querida libertadora, gue vos darei eu por tantas graças e por tanto amor? Vencestes a dureza do meu coração e me levastes a amar-vos e a confiar em vós. Ai! em que abismo de males teria caído mais tarde, se com vossa mão piedosa não me tivésseis auxiliado tantas vezes nos perigos em que tenho estado próximo a cair! Continuai a livrar-me do inferno e primeiramente do pecado que para lá me pode levar. Não permitais que haja de amaldiçoar-vos no inferno. Ó Senhora minha diletíssima, eu vos amo. Será possível que vossa bondade sofra que um servo vosso, que vos ama, seja condenado? Ah! obtende-me a graça de não ser mais ingrato para convosco, nem para com meu Deus, que por amor vosso tantas graças me tem dispensado. Ó Maria, que dizeis? Será possível que eu venha a me condenar? Condenar-me-ei se vos abandonar. Mas como terei jamais a presunção de abandonar-vos? Como poderei esquecer vosso amor para comigo? Sois, depois de Deus, o amor de minha alma. Eu não quero viver mais sem amar- vos. Eu hei de vos querer bem, eu vos amo e espero que sempre vos hei de amar, no tempo e na eternidade, ó criatura a mais bela, a mais santa, a mais doce, a mais amável deste mundo. Amém!

(Glórias de Maria – Santo Afonso Maria de Ligório)


Fonte: Blog a Grande Guerra

Um vinho novo

O Espírito Santo estendeu sobre a Virgem Maria a Sua sombra (Lc 1,35) e, no dia de Pentecostes, fortificou os apóstolos; a Ela, fê-lo para suavizar o efeito da vinda da divindade ao seu corpo virginal e a eles, para os revestir com a força do alto (cf. Lc 24,49), isto é, com a mais ardente

caridade. [...] Como teriam eles, na sua fraqueza, podido cumprir a sua missão de triunfar sobre a morte sem 'esse amor, mais forte que a morte', e de não permitir que 'as portas do abismo  prevalecessem sobre eles' sem esse amor mais inflexível que o abismo? (cf. Mt 16,18; Ct 8,6) Ora, ao ver esse zelo, alguns julgavam-nos ébrios (cf. At 2,13). Efetivamente, estavam ébrios, mas de um vinho novo [...], aquele que a 'verdadeira videira' deixara derramar do alto do céu, aquele que 'alegra o coração do homem' (cf. Jo 15,1; Sl 103,15). [...] Era um vinho novo para os habitantes da terra mas, no céu, encontrava-se em abundância [...], jorrava em golfadas pelas ruas e pelas praças da cidade santa, por onde espalhava a alegria do coração. [...] 

Assim, havia no céu um vinho especial que a terra desconhecia. Mas a terra tinha também qualquer coisa que lhe era própria e que era a sua glória — a carne de Cristo — e os céus tinham uma grande sede da presença dessa carne. Quem poderia impedir essa troca tão certa e tão rica em graça entre o céu e a terra, entre os anjos e os apóstolos, de forma que a terra possuísse o Espírito Santo e o céu a carne de Cristo? [...] 'Se Eu não for, o Paráclito não virá a vós', disse Jesus. Quer dizer, se não deixais partir aquilo que amais, não obtereis o que desejais. 'É melhor para vós que Eu vá' e que vos transporte da terra ao céu, da carne ao espírito; pois o Pai é espírito, o Filho é espírito e o Espírito Santo é também espírito. [...] E o Pai 'é espírito; por isso, os que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade' (Jo 4,23-24).

(São Bernardo)

‘Onde posso encontar repouso tranquilo?’

Onde encontrar repouso tranquilo e firme segurança para os fracos, a não ser nas chagas do Salvador? Ali permaneço tanto mais seguro, quanto mais poderoso é Ele para me salvar. O mundo agita, o corpo dificulta, o demônio arma ciladas; não caio, porque estou fundado em rocha firme. Pequei e pequei muito; a consciência abala-se mas não me perturba, pois me lembro das chagas do Senhor. ‘Ele foi ferido por causa de nossas iniquidades’. Que pecado tão mortal que a morte de Cristo não apague? Se vier à mente tão poderoso e  eficaz remédio, não haverá mal que possa aterrrorizar.

(São Bernardo)

Novo livro para baixar

Em homenagem ao dia de São Luís de Montfort (nosso padroeiro) disponibilizamos para download uma das suas obras mais conhecidas (e que nos dá nome!):
Capa Carta aos amigos da Cruz
Carta aos amigos da cruz .epub
Capa Carta aos amigos da Cruz
Carta aos amigos da Cruz .pdf

“Bem-aventurados os misericordiosos…”

Há três tipos de homens misericordiosos. Os primeiros dão os seus bens para complementar, com o que lhes é supérfluo, a penúria dos outros. Os segundos distribuem todos os seus bens e, para eles, daí por diante, tudo fica em comum com os outros. Quanto aos terceiros, não somente dão tudo, como também ‘se dão a si mesmos totalmente’ (cf. 2Co 12,15) e entregam-se pessoalmente aos perigos da prisão, do exílio e da morte, para tirar os outros do perigo em que estão a suas almas. São pródigos de si mesmos, porque são ávidos dos outros. Receberão a recompensa desse amor: ‘Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos’ (Jo 15,13). Tais são esses príncipes gloriosos da terra e servidores do céu de quem hoje ─ depois de longas privações ‘da fome, da sede, do frio e da nudez’, de muito duras penas e perigos pelos ‘seus compatriotas, pagãos e falsos irmãos’ (cf 2Co 11,26-27) ─ celebramos a morte magnificamente vitoriosa. A tais homens aplica-se bem esta frase: ‘Os seus feitos não serão esquecidos’, porque eles não se esqueceram da misericórdia. Sim, aos misericordiosos ‘na partilha foram destinados lugares aprazíveis e é preciosa a herança que lhes coube’ (cf Sl 15,6).

(Isaac de l'Étoile)

Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo?

Cristo ressuscitou! A paz esteja convosco! Hoje se celebra o grande mistério, fundamento da fé e da esperança cristã: Jesus de Nazaré, o Crucificado, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, conforme as Escrituras. O anúncio feito aos anjos, naquela aurora do primeiro dia depois do sábado, a Maria Madalena e às mulheres que foram ao sepulcro, o ouvimos hoje com renovada emoção: “Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, ressuscitou!

Da força deste amor, da fé firme na ressurreição de Jesus que funda a esperança, nasce e renova-se
constantemente o nosso testemunho cristão. É ali que se radica o nosso "Credo", o símbolo do qual atingiu a pregação inicial e que continua inalterado a alimentar o Povo de Deus.

(Bento XVI)

O que é a verdade?

Não foi apenas Pilatos que pôs de parte esta questão como insolúvel e, para sua função, impraticável. Ainda hoje, tanto na ágora política quanto na discussão acerca da formação do direito, a maioria sente aversão por ela. Mas, sem a verdade, o homem não se encontra a si mesmo; e, no fim de contas, abandona o campo aos mais fortes. “Redenção”, no sentido pleno da palavra, só pode consistir no fato de a verdade se tornar reconhecível. E esta se torna reconhecível, se Deus se torna reconhecível. Ele torna-se reconhecível em Jesus Cristo. N’Ele, Deus entrou no mundo, e desse modo fundou a medida da verdade no meio da história. Externamente, a verdade é impotente no mundo; como Cristo, que, segundo os critérios do mundo, é sem poder: Ele não possiu nenhuma legião. Acaba crucificado. Mas é precisamente assim, na carência total de poder, que el é poderoso, e só assim a verdade se torna força, sem cessar.

(Bento XVI – Jesus de Nazaré, v. 2)

O crucifixo

Crucifixo (1) (1)

(…)

Na grande avançada para o céu, sem ele, sem o sinal da cruz, não sabe a Igreja dar um passo, iniciar uma única cerimônia, esboçar uma bênção sequer. 

  Ó meu crucifixo! Pobre e humilde, banhado das minhas lágrimas na amorável penumbra de uma cela, como brilhas tu, iluminando-nos a vida e a morte, o sofrimento e o prazer, a terra e o céu, o tempo e a eternidade!

(…)

Levei-te aos lábios, cheguei-te ao coração. E ouvi, uma por uma, impressas em tuas chagas, todas as palavras dos livros sagrados. E cada palavra que te caiu dos lábios me foi direta ao coração como um dardo de fogo, desse fogo do Espírito Santo que, desde o meu batismo, permanece latente em minha alma pecadora. E eu disse: também eu te amo, também eu quero amar-te de todas as minhas forças. Tu me ensinas como e até quando ser-me-á  preciso amar o meu próximo. "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" - me dizes tu. Mandamento difícil e humilhante. Se se tratasse de fazer bem aos que fizeram bem - fácil e deleitoso me seria o cumprir a tua vontade, pois ela encontraria eco dentro em meu próprio coração. Mas, tu queres que eu perdoe aos que me fizeram mal, não somente que lhes perdoe, mas que os ame ainda como tu mesmo nos amaste. E eu vi as tuas chagas, contemplei-te as mãos e os pés traspassados de duros cravos, a cabeça coroada de espinhos, os braços abertos em atitude de perdão. E eu disse e repito, inteiramente rendido aos argumentos do teu amor: sim, ó meu Jesus, perdoo-lhes por amor de ti, perdoo-lhes porque mais gravemente tenho te ofendido que eles a mim.

(Leia o texto completo no original: Blog Via-Veritas-Vita)

Utilidade da penitência

Vamos fazer neste post um resumo das considerações do Padre Faber sobre as dez utilidades da mortificação ou penitência.

  1. Domar o corpo, a fim de submeter as paixões revoltosas ao poder da graça e à parte superior da nossa vontade. Não encontraremos em pessoa alguma a força de vontade ou a seriedade de espírito, se ela não se esforçar deveras por subjugar o corpo.
  2. Estender nosso horizonte espiritual: Criar a sensibilidade de consciência (consciência delicada - um dos maiores dons de Deus na vida espiritual). Se não é o único meio, pelo menos é um dos principais.
  3. Obter crédito diante de Deus. O sofrimento torna-se facilmente uma força perante as coisas de Deus. Quando nós queixamos de ficarem as nossas orações sem resposta, da falta de êxito dos nossos esforços para desarraigar algum pecado habitual, de cedermos às tentações, às surpresas do gênio ou da loquacidade, podemos atribuir tudo isto a nossa vida imortificada.
  4. Avivar o nosso amor a Deus. Manifestam e aumentam o nosso amor. E quando o objeto que amamos e contemplamos é, como Jesus, um objeto de dor e de sofrimentos, o amor nos excita com mais ou menos veemência a imitá-lo. 
  5. Desapegar-nos das vaidades do mundo e inundar-nos com a alegria espiritual. Nada em si é tão oposto às vaidades do mundo como a mortificação, que destrói tudo o que elas mais prezam e mais amam. A alegria espiritual, esta é como a enchente da maré, que entra por onde encontra lugar vazio. A proporção, portanto, que os nossos corações se desapegam das amizades terrenas, isto é, das afeições que não constituem para nós um dever, eles se tornam capazes de gozar da doçura de Deus. As pessoas mortificadas são sempre alegres.( Não existe santo triste, seria um triste santo). O coração se alivia por lhe ser retirado o fardo do corpo. 
  6. Impedir que cometamos um erro grave, abandonando cedo demais a Via Purgativa: Grande perigo na vida espiritual. Muitos se apressam tanto no começo, que ficam sem respiração e abandonam por completo a corrida. Assemelham-se aos insensatos que correm loucamente para fugir de sua sombra. A natureza deseja sair do seu noviciado. A alma ligeiramente fatigada de vigiar a si mesma, quer agora converter o mundo. Peca por indiscrição e zelo imprudente. A água transborda a força de ferver, apagando assim o fogo, isto é, destrói a ação do Espírito Santo, pela indiscrição. Oh! quantos santos malogrados, heróis vencidos, vocações frustradas!!! Nenhum mal resultaria em demorarmo-nos por muito tempo nas regiões inferiores da vida espiritual. Pelo contrário, elevar-nos com demasiada rapidez, expõe-nos a muitos perigos. Um mal que foi mortificado, parece estar morto à primeira vista: finge-se morto assim como os lobos. Mas, então qual será a duração da Via Purgativa? Quem o poderá dizer? Depende do fervor, do grau de humildade; mas, em todo caso, devemos contá-la por anos e não por meses.
  7. Conceder-nos o dom da oração mental. O célebre autor espiritual Da Ponte, no 3º Tratado do seu "Guia Espiritual" conta minuciosamente uma visão que se manifestou, diz ele, a uma pessoa do seu conhecimento. Deus fez ver a esta pessoa o estado de uma alma tíbia e preguiçosa, dada à oração sem a mortificação. Eis a visão: Ela viu entre uma larga planície um alicerce profundo e muito firme, branco como o marfim, e ao lado passeava um jovem de resplandecente beleza. Este chamou-a e disse-lhe: Eu sou filho de um rei poderoso, e deitei este alicerce a fim  de construir um palácio onde pudésseis morar e receber-me quando vier vos visitar, o que farei frequentemente, com a condição de terdes um quarto pronto para me receber e de abrirdes logo que eu bater. Mais tarde, porém, virei morar sempre convosco, e vos alegrareis de me ter por vosso hóspede constante. Podeis julgar pela grandeza destes alicerces do que será o edifício. Entrementes farei a construção e vós deveis trazer-me todo o material. A dama começou a tornar-se muito admirada e aflita, por achar impossível trazer ela mesma todo o material necessário. O jovem porém disse: Não temais, podereis fazê-lo facilmente. Começai por trazer já alguma coisa e eu vos ajudarei. Então ela começou a procurar em redor para ver se encontrava qualquer coisa, mas parou logo e fitou o jovem, cuja beleza a encantava e deleitava; mas não se esforçou em lhe agradar, mesmo receou muito ao ver que a vigiava. Não obstante não corou com a sua desobediência, e, enquanto ficava ociosa, viu os alicerces cobrirem-se gradualmente com pó e com palha trazidos pelo vento e por vezes tais furacões de pó se levantavam que as escondiam por completo. Ou, então, chuvas torrenciais cobriam tudo com lama, lama esta que se estendia gradualmente e era a causa de uma vegetação fértil e má. Em breve, nada restava dos alicerces, e por fim um furacão encobriu também o jovem, e tudo desapareceu da sua vista sob um montão de imundícies. A dama muito se afligiu ao ver-se só, tanto mais que em breve foi cercada por detestáveis montes de cal, de areia e de pedra. Lastimou sua tibieza e sua ociosidade, mas crendo estar o jovem ainda escondido em alguma cavidade dos alicerces, clamou em alta voz: Senhor, eis que venho! Trago comigo o material; por favor aproximai-vos da construção; arrependo-me profundamente da minha lentidão e da minha indolência. Enquanto se mantinha nestas disposições a visão lhe foi explicada pelo seguinte modo: Os alicerces significam a fé e os hábitos das outras virtudes que Jesus Cristo infunde na alma no batismo, desejando construir nela um belo edifício de alta perfeição, com a condição de a alma cooperar com Ele, trazendo o material necessário, isto é, a observância dos preceitos divinos e dos conselhos, o que poderá fazer com o auxílio de Nosso Senhor. Mas a alma tantas vezes se deleita em meditar nos mistérios de Cristo, que se torna tíbia e ociosa, não se esforçando por lhe obedecer, e por esta falta de atenção e indolência, os pecados veniais obscurecem aos poucos os hábitos das virtudes, e os olhos da alma se tornam tão turvos que não podem mais ver a Nosso Senhor. Para castigar esta apatia, Ele permite, por vezes, que a alma caia em pecado mortal, que tudo mancha e tudo destrói. Em seguida, devido à misericórdia de Deus, a alma se arrepende, e encontra as pedras da contrição, a cal da confissão, e as areias da satisfação, e em alta voz implora a Jesus que perdoe os seus pecados e comece novamente a construção. 
  8. Dar à santidade profundeza e força, assim como os exercícios de ginástica desenvolvem os músculos e os robustecem. Isto refere-se ao que foi dito há pouco, de não abandonar cedo demais a Via Purgativa. Exemplo: Simeão Estilita quando primeiro começou a se sustentar sobre a coluna, ouviu no sono uma voz lhe dizer: Levanta-te, cava a terra. Pareceu-lhe ter cavado algum tempo e depois cessado, quando a voz lhe disse: cava mais fundo! Quatro vezes cavou, quatro vezes descansou, e quatro vezes a voz repetiu: cava mais fundo! Depois disse-lhe: Agora constrói tranquilamente. Este trabalho humilhante de cavar é a mortificação. Existe infelizmente uma piedade mesquinha e pobre, uma sentimentalidade religiosa que não se eleva além da beleza da devoção ou de um cerimonial comovente, devoção boa para o dia de sol, não para a tempestade; e o erro na construção desse edifício fraco e caduco está na falta da mortificação em sua base. (Falo com experiência material e espiritual: o escultor escolhe para matéria do seu trabalho, uma madeira ao mesmo tempo, fácil de cortar e firme, que é o cedro. Assim também ao esculpir Jesus Crucificado nas almas, é mister o escultor espiritual encontrar a docilidade da humildade e a firmeza da mortificação. Não há como trabalhar em matéria mole). 
  9. Utilidade que se refere às austeridades corporais. Estas levam a alma a atingir a graça mais alta da mortificação interior. É a maior das ilusões supor ser possível mortificar o juízo e a vontade, sem mortificar também o corpo. A mortificação interior é certamente mais excelente, todavia a exterior é mais eficaz. 
  10. A mortificação é uma escola excelente onde será adquirida a régia virtude da discrição. A discrição é o hábito de dar exatamente no alvo, e, para acertá-lo, é preciso ter no olhar uma exatidão e na mão uma firmeza sobrenaturais. É sobretudo no uso da mortificação que se exerce e se prova a discrição; esta virtude se manifesta na obediência, na humildade, na falta de confiança em si, na perseverança e no desapego das próprias penitências. Exemplo: Foi esta a prova imposta pelos bispos a Simeão Estilita. Enviaram um mensageiro ordenando-lhe que descesse da coluna. Se hesitasse, eles saberiam por este sinal que sua extraordinária vocação não provinha de Deus. Mas, apenas dada a ordem começou Simeão a executá-la. Na sua docilidade os bispos reconheceram a vontade de Deus e mandaram que permanecesse onde estava.

(Publicação original do Blog Via-Veritas-Vita)

Lutas

Nem todos podem chegar a ser ricos, sábios, famosos... Em contrapartida, todos - sim, “todos” - estamos chamados a ser santos. Ser fiel a Deus exige luta. E luta corpo a corpo, homem a homem - homem velho e homem de Deus -, detalhe a detalhe, sem claudicar.

A provação, não o nego, está ficando demasiado dura: tens que subir a ladeira acima, a “contragosto”. - Que te aconselho? - repete: “Omnia in bonum!”, tudo o que sucede, “tudo o que me sucede”, é para meu bem... Por conseguinte - e esta é a conclusão acertada-, aceita isso, que te parece custoso, como uma doce realidade.

Hoje não bastam mulheres ou homens bons. - Além disso, não é suficientemente bom aquele que só se contenta em ser... quase bom: é preciso ser “revolucionário”. Perante o hedonismo, perante a carga pagã e materialista que nos oferecem, Cristo quer anticonformistas!, rebeldes de Amor!

A santidade, o verdadeiro afã por alcançá-la, não faz pausas nem tira férias.

Alguns comportam-se, ao longo da vida, como se o Senhor tivesse falado de entrega e de conduta reta somente àqueles a quem não custasse - não existem! - ou aos que não precisassem lutar. Esquecem que, para todos, Jesus disse: o Reino dos Céus arrebata-se com violência, com a luta santa de cada instante.

Que ânsias têm muitos de reformar! Não seria melhor que nos reformássemos todos - cada um -, para cumprirmos fielmente o que está mandado?

Temos de fomentar em nossas almas um verdadeiro horror ao pecado. Senhor - repete-o de coração contrito -, que eu não Te ofenda mais! Mas não te assustes ao notares o lastro do pobre corpo e das humanas paixões: seria tolo e ingenuamente pueril que descobrisses agora que “isso” existe. A tua miséria não é obstáculo, mas acicate para que te unas mais a Deus, para que O procures com constância, porque Ele nos purifica.

(São Josémaria Escrivá)

E-books para a Quaresma

Baixe o volume 2 da nossa série de coletânea de posts do Blog! Dessa vez, selecionamos textos penitenciais para ajudá-lo a “subir o Monte Carmelo” na Quaresma.

 
Sem título

Clique nos ícones abaixo para fazer download no formato desejado:


http://sdrv.ms/XzZILu      http://sdrv.ms/XzZvrN       https://onedrive.live.com/redir?resid=62DF3446BFE1EDD9%21120
 
 

Faz-me voltar, Senhor!

Como o rico que amava a vida de prazeres,
Eu amei os prazeres efêmeros,
Com este meu corpo animal,
Nos prazeres insensatos. [...]

E, de tantas benfeitorias
Que me deste gratuitamente,
Não Te devolvi o dízimo
Que de Ti tinha recebido.

Mas tudo o que estava sob o meu teto
Feito de terra, ar e mar,
As Tuas benfeitorias inumeráveis,
Pensava que eram propriedade minha.

De tudo isso nada dei ao pobre
E para as suas necessidades nada pus de lado:
Nem comida, para o esfomeado
Nem roupa, para o corpo nu.

Nem abrigo, para o indigente,
Nem morada, para o hóspede estrangeiro,
Nem visitei os doentes,
Nem cuidei dos prisioneiros (cf Mt 25,31ss).

Não me entristeci com a tristeza
Do homem triste, por causa do que lhe pesava;
Nem partilhei a alegria do homem feliz
Mas ardi de inveja dele.

Todos eles são outros Lázaros [...]
Que jazem à minha porta. [...]
Quanto a mim, surdo ao seu apelo,
Não lhes dei as migalhas da minha mesa. [...]

Lá fora, pelo menos, os cães da Tua lei
Consolavam-nos com a língua;
E eu, que ouvia o Teu mandamento,
Com a língua feri aquele que se Te assemelhava (cf. Mt 25,45). [...]

Mas dá-me aqui na terra arrependimento,
Para que faça penitência pelos meus pecados. [...]
Para que as minhas lágrimas parem
A fornalha ardente e as suas chamas. [...]

E, em vez da conduta de um homem sem misericórdia,
Estabelece, no mais fundo de mim, a piedade misericordiosa,
Para que, ao praticar a misericórdia com o pobre,
Eu possa obter misericórdia.

(São Nersés Snorhali)

“Segura bem o leme da fé…”

Segura bem o leme da fé, para que as fortes procelas do mar não te perturbem. O mar é, na verdade, grande e vasto, mas não temas: ele a tornou firme sobre os mares e sobre as águas a mantém inabalável (Sl 23,2).

Não é sem razão que, entre tantas agitações do mundo, a Igreja do Senhor, edificada sobre a pedra apostólica, permanece firme e, contra o ímpeto das águas, se apóia sobre inabalável fundamento. É batida pelas ondas, mas não abalada; e embora muitas vezes os elementos deste mundo a sacudam com grande fervor, ela oferece aos navegantes cansados o mais seguro porto de salvação. Ela flutua no mar, mas também corre pelos rios, sobretudo aqueles rios sobre os quais se diz: levantaram os rios a sua voz (Sl 92,3). São os rios que brotam do coração daqueles que beberam da água de Cristo e receberam o Espírito de Deus. Quando transbordam de graça espiritual, esses rios levantam a sua voz.

(Santo Ambrósio)

Grandes sinais no céu

O Senhor virá dos céus sobre as nuvens, Ele que subiu para cima das nuvens. Com efeito, Ele próprio o disse: “Verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória” (Mt 24,30).

Mas qual será o verdadeiro sinal da Sua vinda, não vá o poder do inimigo ousar simulá-lo a fim de nos perder? “Aparecerá, então, no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24,30). Ora, o sinal verídico e próprio de Cristo é a cruz. O sinal de uma cruz luminosa precede o rei, designando Aquele que tem primeiro de ser crucificado, a fim de que, à vista disso, aqueles que O tinham perfurado com os cravos e rodeado de emboscadas batam no peito (Zc 12,10), dizendo: “Eis Aquele que foi esbofeteado, Aquele a Quem cobriram o rosto de escarros, Aquele que rodearam de correntes, Aquele que outrora humilharam na cruz.” “Para onde havemos de fugir, a fim de evitar a Tua cólera?” (Ap 6,16). E, cercados pelos exércitos dos anjos, não poderão fugir para parte alguma.

Para os inimigos da cruz, o sinal será o temor; mas para os amigos dela será a alegria, pois terão acreditado nela e tê-la-ão pregado, ou terão sofrido por ela. Quem terá então a felicidade de ser considerado amigo de Cristo? Ele não desdenhará os que O serviram, esse rei glorioso que cerca a guarda dos Seus anjos e que está sentado no mesmo trono que o Pai. Pois, a fim de que os eleitos não sejam confundidos com os inimigos, “Ele enviará os Seus anjos com uma trombeta altissonante, para reunir os Seus eleitos desde os quatro ventos” (Mt 24, 31). Ele que não Se esqueceu de Ló no seu isolamento (Gn 19,15; Lc 17,28), como poderia esquecer-Se da multidão dos justos? “Vinde benditos de Meu Pai” (Mt 25,34), dirá àqueles que forem transportados nos carros de nuvens, depois de terem sido reunidos pelos anjos.

(São Cirilo de Jerusalém – publicação original padrehenrique.com)

“Como o barro nas mãos do oleiro, assim estais vós em minhas mãos” (Jr 18,6)

“Oh, que profundidade de riqueza,  de sabedoria e de ciência é a de Deus!  Como são insondáveis as Suas decisões e impenetráveis os Seus caminhos!  Quem conheceu o pensamento do Senhor?  Quem Lhe serviu de conselheiro?” (Rm 11,33s; 9,15s). Tu, Senhor, tens compaixão por quem queres; tens piedade de quem queres. Não é, portanto, o homem que quer ou que corre, mas Tu, Senhor, que és misericordioso.
Eis que o vaso de barro escapa à mão que o modelou [...]; escapa-se da mão que o segura e que o transporta. [...] Se lhe acontecer cair da Tua mão, que desgraça a sua. Porque se quebraria [...] em mil pedaços, ficaria reduzido a nada. Ele sabe-o e, pela Tua graça, não cai. Tem compaixão, Senhor, tem compaixão: Tu deste-nos forma e somos barro (cf Jr 18,6; Gn 2,7). Até aqui [...] permanecemos firmes, até aqui a Tua mão poderosa transportou-nos; estamos suspensos dos Teus três dedos: a fé, a esperança e a caridade, pelos quais susténs a massa da terra, a solidez da Santa Igreja. Tem compaixão, segura-nos; que a Tua mão não nos deixe cair. Mergulha os nossos rins e o nosso coração no fogo do Teu Espírito Santo (cf Sl 25,2); consolida o que formaste em nós para que não nos desagreguemos e não fiquemos reduzidos ao barro que somos, ou a absolutamente nada. Por Ti, para Ti fomos criados e para Ti estamos voltados. Formaste-nos e modelaste-nos, reconhecemo-lo; adoramos e invocamos a Tua sabedoria a administrar, a Tua bondade e misericórdia a conservar. Aperfeiçoa-nos, Tu que nos fizeste; aperfeiçoa-nos até à plenitude da Tua imagem e semelhança, segundo as quais nos formaste.

(Guilherme de Saint-Thierry)

Imensa misericórdia



Muitas são as minhas faltas e inumeráveis, contudo, não tão espantosas como a Tua misericórdia. Múltiplos são os meus pecados, mas sempre pequenos, comparados com o teu perdão. [...] Que efeito poderá ter um pouco de trevas sobre a Tua luz divina? Como pode uma pequena obscuridade rivalizar com os Teus raios, Tu que és grande! Como pode a concupiscência do meu corpo frágil ser comparada com a Paixão da Tua cruz? O que parecerão aos olhos da Tua bondade, ó Todo-Poderoso, os pecados de todo o universo? Eis que eles são [...] como bolha de água que, pela queda da Tua chuva abundante, desaparece imediatamente. [...] És Tu que dás o sol aos maus e aos bons, e fazes chover para todos indistintamente. Para uns a paz é grande por causa da espera da recompensa; [...] Mas àqueles que preferiram a terra, tu perdoas por misericórdia: dás-lhes um remédio de vida como aos primeiros; e esperas sempre o seu regresso a Ti.

(Gregório de Narek)
 
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