Quem será ela?

Ela é formosa, poderosa e forte.
Treme a terra diante dela.
Quem será ela?

Ao pronunciar o sim foi fecundada da salvação.
Ela brilha, mas não é a luz.
Não é a graça mas a derrama em nós.

Para um povo ela é rainha.
Para um exército é comandante.
E para nós crianças é a mãe.

Ela é formosa, poderosa e forte.
Treme a terra diante dela.
Quem será ela?

(canção da Ir. Kelly Patrícia)

“Os patriarcas e os profetas desejaram ardentemente ver o Redentor, mas não tiveram essa felicidade”

Deus fez-nos nascer depois da vinda do Messias: quantas ações de graças não Lhe devemos! Uma vez operada a redenção por Jesus Cristo, quão maiores são os benefícios que recebemos! Abraão, os patriarcas e os profetas desejaram ardentemente ver o Redentor, mas não tiveram essa felicidade. Eles cansaram por assim dizer o céu com os seus suspiros e as suas súplicas: ‘Céus, destilai lá das alturas o orvalho, e as nuvens façam chover o Justo! [...] Enviai o Cordeiro soberano da terra’ (Is 45,8; 16,1 Vulg). [...] ‘Ele reinará nos nossos corações e nos livrará da escravatura na qual vivemos miseravelmente. Senhor, faz-nos ver a Tua bondade, e concede-nos a salvação’ (Sl 84,8). Quer dizer: ‘Apressa-Te, Deus misericordioso, a derramar sobre nós a Tua ternura, enviando-nos o objeto principal das Tuas promessas, Aquele que nos virá salvar.’ Foram estes os suspiros, foram estas as súplicas ardentes dos santos, antes da vinda do Messias; contudo eles foram privados durante quatro mil anos da felicidade de O ver nascer.
Esta felicidade estava-nos reservada a nós. Mas que fazemos? Que proveito tiramos dela? Sabemos amar este amoroso Redentor agora que Ele veio, que nos libertou das mãos dos nossos inimigos, que nos resgatou da morte eterna ao preço da Sua vida [...], que nos abriu o paraíso, que nos muniu de tantos sacramentos e de tantas ajudas poderosas para que O amemos e sirvamos em paz durante esta vida e nos alegremos para sempre na outra? [...] Minha alma, estarás realmente cheia de ingratidão se não amares o teu Deus, este Deus que quis ser enfaixado para te livrar das cadeias do inferno, pobre para te comunicar as Suas riquezas, fraco para te tornar forte contra os teus inimigos, oprimido pelo sofrimento e pela tristeza para lavar os teus pecados com as Suas lágrimas.
(Santo Afonso-Maria de Ligório)

Jesus nasceu!

Irmãos, informados do milagre, vamos como Moisés ver esta coisa extraordinária (Ex 3, 3): em Maria, o arbusto em chamas não se consome. A Virgem dá ao mundo a Luz mantendo a sua virgindade. [...] Corramos pois a Belém, a cidade da Boa Nova! Se formos verdadeiramente pastores, se permanecermos despertos em guarda, ouviremos a voz dos anjos que anunciam uma grande alegria: [...] ‘Glória a Deus nas alturas, porque a paz desceu à terra!’ Aonde ontem apenas havia maldição, teatros de guerra e exílio, a terra recebe a paz, porque hoje ‘da terra brotará a lealdade, desde o céu há-de olhar a justiça’ (Sl 84, 12). Eis o fruto que a terra dá aos homens, em recompensa pela boa vontade que reina entre eles (Lc 2, 14). Deus une-Se ao homem para elevar o homem às alturas de Deus. Ao ouvirmos esta novidade, irmãos, partamos para Belém, a fim de contemplarmos o mistério do presépio: uma criança envolta em panos repousa numa manjedoura. Virgem após o parto, a Mãe incorruptível abraça o Filho. Com os pastores, repitamos a palavra do profeta: ‘Como nos contaram, assim nós vimos na cidade do Senhor dos exércitos’ (Sl 47, 9). Mas por que procura o Senhor refúgio nesta gruta de Belém? Por que dorme numa manjedoura? Por que Se sujeita ao recenseamento de Israel? Irmãos, Aquele que traz a libertação ao mundo vem nascer na nossa submissão à morte. Ele nasce nesta gruta para Se mostrar aos homens, mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Está deitado numa manjedoura porque é Aquele que faz crescer a erva para o gado (Sl 103, 14), porque é o Pão da Vida que alimenta o homem com um alimento espiritual, para que também ele viva pelo Espírito. [...] Haverá festa mais feliz que a de hoje? Cristo, o Sol da Justiça (Mal 3, 20), vem iluminar a nossa noite. Aquele que tinha caído torna a levantar-se, aquele que fora vencido é libertado [...], aquele que tinha morrido regressa à vida. [...] Hoje, cantemos todos a uma só voz em toda a terra: ‘Por um homem, Adão, veio a morte; por este Homem, vem-nos hoje a salvação’ (cf Rom 5, 17).
(São Gregório de Nissa)

Deus à imagem do homem

Como é que o homem, com o seu olhar tão limitado, pode abranger o Deus que o mundo não pode abarcar? O amor não se incomoda de saber se uma coisa é adequada, conveniente ou possível. O amor [...] ignora a medida. Não se consola com o pretexto de que é impossível; a dificuldade não o detém [...]. O amor não consegue deixar de ver quem ama. [...] Como acreditar que se é amado por Deus sem O contemplar? Assim, o amor que deseja ver Deus, mesmo que não seja racional, é inspirado pela intuição do coração. Foi por isso que Moisés ousou dizer: ‘Se alcancei graça aos Teus olhos, revela-me as Tuas intenções (Ex 33, 13ss.), e o salmista: ‘Mostra-nos o Teu rosto’ (cf. 79, 4). [...]
Por conseguinte, conhecendo o desejo que os homens têm de O ver, Deus escolheu, para Se tornar visível, um meio que beneficiasse todos os habitantes da terra, sem com isso prejudicar o céu. Pode a criatura que Deus fez semelhante a Ele neste mundo ser considerada pouco digna no céu?: ‘Façamos o ser humano à Nossa imagem, à Nossa semelhança’ disse Deus (Gn 1, 26). [...] Se Deus tivesse retirado do céu a forma de um anjo, ter-Se-ia mantido invisível; se, em contrapartida, tivesse encarnado na terra numa natureza inferior à do homem, teria ofendido a divindade e teria rebaixado o homem, em vez de o elevar. Portanto, que ninguém, irmãos muito caros, considere uma ofensa a Deus o fato de Ele ter vindo aos homens como homem, e de ter encontrado este meio para ser visto por nós.

(São Pedro Crisólogo)

Arrepender-se

As portas estão abertas a todo aquele que, em sinceridade, com o coração, se voltar para Deus, e o Pai recebe com alegria um filho que verdadeiramente se arrependa. Qual é o sinal do arrependimento verdadeiro? Não voltar a cair em velhos erros e arrancar do coração, pela raiz, os pecados que nos punham em perigo de morte. Quando estes estiverem apagados, Deus virá habitar-nos. Porque, como diz a Escritura, um pecador que se converte e se arrepende encontrará no Pai e nos anjos do céu uma imensa e incomparável alegria (Lc 15,10). Eis por que o Senhor disse: ‘Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios’ (Os 6,6; Mt 9,13); ‘Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim na sua conversão’ (Ez 33,11). ‘Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve. Mesmo que sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a lã’ (Is 1,18). Só Deus, de fato, pode remir os pecados e não imputar erros, ainda que o Senhor Jesus nos exorte a perdoar, em cada dia, aos irmãos que se arrependem. E se nós, que somos maus, sabemos dar coisas boas aos outros (Mt 7,11), quanto não será capaz de dar ‘o Pai das misericórdias’ (2 Cor 1,3)? O Pai de toda a consolação, que é bom, cheio de compaixão, de misericórdia e de paciência por natureza, espera os que se convertem. E a verdadeira conversão supõe que deixemos de pecar e que não olhemos mais para trás [...]. Lamentemos amargamente, pois, os erros cometidos e peçamos ao Pai que os esqueça. Ele pode, na Sua misericórdia, desfazer o que foi feito e, com o orvalho do Espírito, apagar as nossas faltas passadas.

(São Clemente de Alexandria)

Por que os cristãos são amigos da Cruz?

[Republicação da primeira postagem do Blog]

Chamai-vos Amigos da Cruz. Como é grande este nome! Confesso-vos que ele me encanta e deslumbra. É mais brilhante do que o sol, mais elevado que os céus, mais glorioso e mais pomposo que os títulos mais magníficos dos reis e dos imperadores. É o grande nome de Jesus Cristo, a um tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem; é o nome inequívoco de um cristão.

Entretanto, se seu brilho me encanta, seu peso não me espanta menos. Quantas obrigações indispensáveis e difíceis contidas neste nome e expressas por estas palavras do Espírito Santo: ‘Sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo que Deus formou’ (I Pedro, 2,9).

Um Amigo da Cruz é um homem escolhido por Deus, entre 10 mil que vivem segundo os sentidos e a razão para ser unicamente um homem todo divino e elevado acima da razão, e todo em oposição aos sentidos, por uma vida e uma luz de pura fé e por um amor ardente pela Cruz.

Um Amigo da Cruz é um rei todo-poderoso e um herói triunfante do demônio, do mundo e da carne em suas três concupiscências. Pelo amor às humilhações, esmaga o orgulho de Satanás; pelo amor à pobreza, triunfa da avareza do mundo; pelo amor à dor, amortece a sensualidade da carne.

Um Amigo da Cruz é um homem santo e separado de todo o visível, cujo coração está acima de tudo quanto é caduco e perecível, e cuja conversa está no Céu; que passa pela Terra como estrangeiro e peregrino; e que, sem lhe dar o coração, a contempla com o olho esquerdo e com indiferença, calcando-a com desprezo aos pés.

Um Amigo da Cruz é uma ilustre conquista de Jesus Cristo crucificado no Calvário, em união com sua Santa Mãe; é um Benoni ou um Benjamim, filho da dor e da destra, gerado em seu dolorido coração, vindo ao mundo por seu lado direito atravessado e coberto da púrpura de seu sangue. Dada a sua extração sangrenta, só respira cruz, sangue e morte ao mundo, à carne e ao pecado, para estar totalmente oculto, aqui na Terra, com Jesus Cristo em Deus.

Enfim, um perfeito Amigo da Cruz é um verdadeiro porta-Cristo, ou antes, um Jesus Cristo, de maneira que possa, em verdade, dizer: ‘Vivo, mas não eu, é Jesus Cristo que vive em mim’ (Gal. 2, 20).

Sois, por vossas ações, meus queridos Amigos da Cruz, aquilo que vosso grande nome significa? Ou, pelo menos, tendes verdadeiro desejo e vontade verdadeira de assim vos tornardes, com a graça de Deus, à sombra da Cruz do Calvário e de Nossa Senhora da Piedade? Entrastes no verdadeiro caminho da vida, que é o caminho estreito e espinhoso do Calvário? Não estareis, sem o pensar, no caminho largo do mundo, que é o caminho da perdição? Sabeis bem que há um caminho que parece ao homem reto e seguro, e que conduz à morte?

(São Luiz Maria Grignion de Montfort)

3 anos de Blog!

Capa do E-book vol.1
Hoje, 14 de novembro, comemoramos o terceiro ano do Amigos da Cruz! Por isso vamos dar um presente a todos os nossos leitores: um e-book com algumas postagens publicadas ao longo desse tempo. Baixe aqui http://sdrv.ms/RDuQKj ou clique na imagem da capa do livro (acima) para obtê-lo. (O arquivo está no formato .pdf).

“Eu sempre estarei convosco”

eucaristia e padre ddd

Quantas pessoas dizem hoje em dia: ‘Gostaria de ver Cristo em pessoa, o Seu rosto, as Suas vestes, as Suas sandálias’. Pois bem, na Eucaristia, é Ele que tu vês, que tocas, que recebes! Desejavas ver as Suas vestes; e é Ele que Se dá a ti, não apenas para O veres, mas para O tocares, O receberes, O acolheres no teu coração. Que ninguém se aproxime, pois, com indiferença ou frouxidão, mas que todos venham a Ele animados de um amor ardente.

Tenhamos nós plena confiança em Deus. Não apresentemos objeções, mesmo quando o que Ele diz parece contrário aos nossos raciocínios e ao que vemos. Que a Sua palavra seja dona da nossa razão e mesmo da nossa vista. Assumamos esta atitude perante os mistérios sagrados: não vejamos neles apenas o que é apreendido pelos nossos sentidos, mas tenhamos sobretudo em conta as palavras do Senhor. A Sua palavra nunca nos pode enganar, ao passo que os nossos sentidos nos enganam facilmente; Ela nunca erra, mas eles erram frequentemente. Quando o Verbo diz: ‘Isto é o Meu corpo’, confiemos n'Ele, acreditemos e contemplemo-Lo com os olhos do espírito.

(São João Crisóstomo)

A herança do Senhor

‘Procurei o repouso em todas as coisas’ disse a Sabedoria de Deus; ‘e permanecerei na herança do Senhor’ (Sir 24,12). A herança do Senhor, em sentido universal, é a Igreja; de forma mais especial, é Maria; em sentido particular, é a alma de cada crente. [...] O texto continua: ‘Então o Criador do universo deu-me as Suas ordens, e aquele que me criou assentou a minha tenda. E disse-me: 'Habita em Jacó'’ (v. 8). Com efeito, procurando por toda a parte o descanso e não o encontrando em parte nenhuma, a Sabedoria de Deus, o Seu Verbo, deu-Se então como herança ao povo judeu, a quem, através de Moisés ‘falou e incumbiu’. [...] E Aquele que, por esta segunda criação, criou a Sinagoga, a mãe da Igreja, ‘repousou na Sua tenda’, na tenda da Aliança. Agora, na Igreja, repousa no sacramento do Seu Corpo.
E, como também procurou, por assim dizer, entre todas as mulheres Aquela de quem nasceria, escolheu muito especialmente Maria, que depois foi chamada ‘bendita entre todas as mulheres’ (Lc 1,28). [...] Cristo, que a criou nova criatura (cf 2Co 5,17), veio descansar no seu seio. Também a cada alma fiel e predestinada à salvação esta Sabedoria ‘incumbe e
fala’ quando quer e como quer. Fá-lo interiormente pela inteligência natural, pela qual ao vir ao mundo, ‘a todo o homem ilumina’ (Jo 1,9), e pela inspiração da graça [...]; ou seja, quer pela doutrina, quer pela criação (cf Rm 1,20). [...] E a Sabedoria de Deus, o Seu Verbo, criando e formando assim esta alma ‘em Cristo Jesus, para vivermos na prática das boas obras’ (Ef 2,10), vem repousar na sua consciência.

(Isaac da Estrela)

“Amarás o Senhor teu Deus…”

Os grandes da terra ufanam-se de possuir reinos e riquezas. Jesus Cristo tem a Sua felicidade em reinar nos nossos corações; é este o império que Ele almeja e que decidiu conquistar pela Sua morte na cruz: ‘Ele recebeu o poder sobre os seus ombros’ (Is 9,5). Por estas palavras, vários intérpretes [...] entendem a cruz que o nosso divino Redentor carregou aos ombros. ‘Este Rei do Céu, observa Cornélio a Lapídio, é um senhor bem diferente do demónio: este carrega os ombros dos seus escravos com pesados fardos. Jesus, pelo contrário, toma sobre Si mesmo todo o peso do Seu império; abraça a cruz e quer morrer nela para reinar no nosso coração.’ E Tertuliano diz que enquanto os monarcas da terra ‘trazem o cetro na mão e a coroa na cabeça como emblemas do seu poder, Jesus Cristo levou a cruz aos ombros. E a cruz foi o trono aonde Ele subiu para fundar o Seu reino de amor’. [...]
Apressemo-nos pois a consagrar todo o amor do nosso coração a esse Deus que, para o obter, sacrificou o Seu sangue, a Sua vida, a Si próprio. ‘Se conhecesses o dom de Deus, diz Jesus à samaritana, e Quem é Aquele que te diz 'Dá-me de beber' (Jo 4,10). Isto é: se conhecesses a grandeza da graça que recebes de Deus. [...] Oh, se a alma compreendesse que graça extraordinária Deus lhe faz quando lhe pede o seu amor nestes termos: ’Amarás o Senhor teu Deus’. Não ficaria um súdito que ouvisse o seu príncipe dizer-lhe: ‘Ama-me’ cativado por este convite? E não conseguirá Deus conquistar o nosso coração quando nos pede com tanta bondade: ‘Meu filho, dá-me o teu coração’? (Pr 23,26) Mas Deus não quer apenas metade deste coração; quere-o todo, sem reservas; este é o Seu preceito: ‘Amarás o
Senhor teu Deus com todo o teu coração’.

(Santo Afonso de Ligório)

Do Eterno amor de Deus para conosco

Considerai o amor Eterno que Deus vos tem, porque muito antes que Jesus Cristo sofresse na Cruz, por vós como homem, a sua Divina Majestade vos destinava à vida e vos amava extremamente. Mas quando começou Ele a amar-vos? Quando começou a ser Deus. E quando começou a ser Deus? Nunca; existiu sempre, e sem princípio nem fim, e desta forma amou-vos sempre e desde toda eternidade vos preparou os favores e graças que vos tem concedido. Ele diz pela boca do profeta: “amei-te com uma caridade perpetua e atraí-te misericordiosamente a mim” Entre outras coisas, pois, Deus tratou de vos fazer tomar boas resoluções de o amar e servir.

[…]

A bondade divina preparou, no seu amor e misericórdia, todos os meios gerais e particulares para a nossa salvação. Sim, não o duvidemos: assim como uma mãe prepara o berço, os paninhos e a ama para aquele que acaba de dar à luz, assim Nosso Senhor, com o desejo de nos gerar para a salvação e de nos tornar seus filhos, preparou sobre o altar da cruz tudo o que nos era preciso; o nosso berço espiritual, os nossos paninhos, a nossa ama e tudo quanto precisamos para a nossa felicidade; pois outra coisa não são os atrativos e as graças com os quais guia nossas almas para a perfeição.

(São Francisco de Sales – Pensamentos Consoladores. p. 37-38)

Santa Teresa de Lisieux

"Não quero ser santa pela metade, escolho tudo".

Santa Teresinha do Menino Jesus

“É preciso combater”

Transitamos por um território ocupado pelo inimigo, uma selva em que as armadilhas para os incautos estão escondidas a cada passo. Alguns por seus escrúpulos, outros por suas iras; outros por seu orgulho ou suas paixões, (nem sempre inconfessáveis, mas de igual modo daninhas, porque se prendem às criaturas), ou por sua falta de decisão ou por sua pouca reflexão; quantas vezes pela imprudência com que levamos adiante nossos bons propósitos. Em todas partes o diabo tem armadilhas e junto a cada emboscada está o anjo bom para nos prevenir. Não é uma alegoria. É uma verdade de Fé. É uma realidade concretíssima. Ainda que não ouçamos o tinir do aço de suas espadas, eles lutam por nós. Ainda que não escutemos suas insinuações, eles não deixam de fazê-lo para nosso bem ou para nosso mal. As forças celestes se batem pelo homem, eis aqui a razão de sua verdadeira dignidade.
E como participa o homem neste épico? Deve tomar posição em um dos dois lados, não há neutralidade possível; e ao fazê-lo, o outro lançará toda sua ira (se opta pelo bem) ou sua amorosa persuasão (se erra para o mal). Nesta guerra não há espectadores, senão partícipes necessários. “Quem te criou sem ti não te salvará sem ti”, disse Santo Agostinho. É preciso combater.

(Prólogo de Regras para o discernimento dos espíritos - R. P. L. M. BARRIELLE CPCR)

Santos Arcanjos, Combatei em nosso favor!!

Luta espiritual

“Não é possível edificar uma personalidade humana e espiritual robusta sem luta interior, sem este exercício de discernimento ente o bem e o  mal, sem esta estratégia para dizer ‘nãos’ eficazes e ‘sins’ convincentes? Talvez estejamos esquecidos de que, como testemunham os Evangelhos, Jesus mesmo lutou e não pode se subtrair a este confronto com o tentador. No entanto, todos deveríamos saber: o pecado está escondido à porta de nosso coração, sua sede está orientada para nós. Cabe a nós dominá-lo (ver Gn 4,7). No Novo Testamento o Apóstolo nos relembra: ‘o pecado nos persegue’, há ‘determinantes que nos seduzem’, há ‘desejos que se opõem à nossa carne’. Sim, há uma luta espiritual exigente, cotidiana, que reclama, da parte do cristão, a atitude própria daquele que vai à guerra, mas munido de armas espirituais. Essa luta tem por moldura nosso coração, o centro de nossa vida psicológica, moral e espiritual, o lugar da inteligência, da memória, da vontade, do desejo e de todos os sentimentos, o espaço de encontro entre Deus e o homem, entre o homem e seus semelhantes. Mas o coração pode igualmente encontrar-se exposto à doença da ‘esclerocardia’, se pouco a pouco se endurece pela ausência de escuta da Palavra de Deus e pelo consentimento ao que contradiz a vontade do Senhor.

Ter um coração unificado, um coração puro, sensível e capaz de discernimento, um coração que conserva e engendra pensamentos de amor, eis o objetivo da luta espiritual. Que arte apaixonante! Prepara-se, na vigilância, para a luta, para esta luta que Rimbaud definia como ‘mais dura que a guerra entre os homens’”

(Enzo Bianchi – Dar sentido ao tempo, as grandes festas cristãs publicação origina do Blog Adversus Heresis)

 

São Miguel Arcanjo, Defendei-nos no combate!

“Ó Cruz, Tu nos salvarás”

“Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu Filho único, para que todo o que n'Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Sabemos que aquele "dar" da parte do Pai teve um desenvolvimento dramático: chegou até ao sacrifício do Filho na cruz. Se toda a missão histórica de Jesus é sinal eloquente do amor de Deus, a sua morte é um sinal completamente singular, na qual se expressou de modo total a ternura redentora de Deus. Sempre no centro da nossa meditação deve portanto estar a Cruz; nela contemplamos a glória do Senhor que resplandece no corpo martirizado de Jesus. Precisamente nesta doação total de si sobressai a grandeza de Deus, sobressai o seu ser amor. É a glória do Crucificado que cada cristão está chamado a compreender, a viver e a testemunhar com a sua existência. A Cruz, a doação de si mesmo por parte do Filho de Deus é, definitivamente, o "sinal" por excelência que nos foi dado para compreender a verdade do homem e a verdade de Deus: todos nós fomos criados e remidos por um Deus que por amor imolou o seu único Filho. Eis por que na Cruz, "cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo o amor na sua forma mais radical" (Deus Caritas est n. 12)

(Papa Bento XVI, HOMILIA DURANTE A MISSA NA PARÓQUIA ROMANA DE "DEUS PAI MISERICORDIOSO" Domingo, 26 de Março de 2006)

A paternidade de Deus

“A paternidade de Deus é mais real do que a paternidade humana, porque nós, em última instância, é d’Ele que temos o ser; porque Ele pensou em nós e nos quis eternamente; porque Ele nos oferece a real, a eterna casa paterna. E se a paternidade terrena separa, a celeste une: céu, significa, portanto, aquela outra elevação de Deus, de onde todos nós viemos e para onde todos nós devemos ir. A paternidade ‘nos céus’ remete-nos para aquele nós maior, que ultrapassa todas as fronteiras, abate todos os muros e cria a paz.”

(Bento XVI – Jesus de Nazaré I, p. 132)

“Tomais e comei: isto é o meu corpo”

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele” (Jo 6,57). S. Dionísio Areopagita diz que o amor tende sempre à união com o objeto amado. E porque a comida se faz uma só coisa com quem a toma, por isso Nosso Senhor quis fazer-se comida, para que nós, recebendo-o na santa comunhão, nos tornássemos uma só coisa com ele: “Tomai e comei: isto é o meu corpo” (Mt 25,26). Como se quisesse dizer, assevera S. João Crisóstomo: Comei-me, para que nos tornemos um só ser (Hom. 15 in Joan), alimenta-te de mim, ó homem, para que de mim e de ti se faça uma só coisa. Assim como dois pedaços de cera derretidos, diz S. Cirilo Alexandrino, se misturam e confundem, da mesma forma uma alma que comunga se une de tal maneira a Jesus que Jesus está nela e ela em Jesus. Ó meu amado Redentor, exclama S. Lourenço Justiniano, como pudestes chegar e amar-vos tanto e de tal modo unir-vos a vós, que o vosso coração e do nosso não se fizesse senão um só coração? (De div. amor, c. 5). Tinha, pois, razão S. Francisco de Sales de dizer, falando da santa comunhão: O Salvador não pode ser considerado em nenhum outro mistério nem mais amável nem mais terno que neste, no qual se aniquila, por assim dizer, e se reduz a comida para penetrar em nossas almas e unir-se ao coração de seus fiéis: E assim, diz S. João Crisóstomo, nós nos unimos e nos tornamos um corpo e uma
carne com aquele em quem os anjos não ousam fixar seus olhares. Que pastor, ajunta o santo, alimenta suas ovelhas com seu próprio sangue? Mesmo as mães dão seus filhos a amas estranhas. Jesus, porém, nesse sacramento nos alimento com o seu próprio sangue e
une-se a nós (Hom. 60). Em suma, ele quer fazer-se nosso alimento e uma mesma coisa conosco, porque nos amava ardentemente (Hom. 51).

(Santo Afonso de Ligório – A paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, I, V, 2)

“Como um cordeiro levado ao matadouro…”

“Como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador” (Is 53,7). Nosso Senhor não foi comparado a um leão quando foi conduzido à morte. Como um cordeiro, uma ovelha, guardou silêncio quando foi conduzido à Paixão e à morte: ‘Como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, não abriu a boca’ na Sua humilhação.
Confirmando a palavra da profecia com a Sua conduta, guardou silêncio quando O levaram, calou-Se quando O julgaram, não Se queixou quando O flagelaram, não discutiu quando O condenaram, não Se irritou quando O amarraram. Não murmurou quando Lhe deram bofetadas, não gritou quando O despojaram das Suas vestes, tal como uma ovelha durante a tosquia. Não os amaldiçoou quando Lhe deram o fel e o vinagre; não Se irritou com eles quando O cravaram no madeiro.

(Filoxeno de Mabboug – Sobre a simplicidade)

Os “rios” da humildade

Pela humildade, vivemos com Deus e Deus vive conosco numa paz verdadeira; nela se encontra o fundamento vivo de toda a santidade. Podemos compará-la com uma fonte de onde jorram quatro rios de virtudes e de vida eterna (cf Gn 2,10). [...] O primeiro rio que jorra do solo verdadeiramente humilde é a obediência [...]; o ouvido torna-se humildemente atento, a fim de ouvir as palavras de verdade e de vida que provêm da sabedoria de Deus, e as mãos estão sempre prontas a cumprir a Sua muito cara vontade. [...] Cristo, Sabedoria de Deus, fez-Se pobre para nos tornar ricos (2Cor 8,9), tornou-Se servo para nos fazer reinar, e por fim morreu para nos dar a vida. [...] Para que saibamos segui-l'O e servi-l'O, disse-nos: «Aprendei de Mim porque sou manso e humilde de coração».
Com efeito, a mansidão é o segundo rio de virtudes que jorra do solo da humildade. «Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra» (Mt 5,5), ou seja a sua alma e o seu corpo, em paz. Porque no homem manso e humilde repousa o Espírito do Senhor; e, quando o nosso espírito é assim elevado e unido ao Espírito de Deus, carregamos o jugo de Cristo, que é suave e doce, e transportamos o Seu fardo leve. [...] Desta doçura íntima jorra um terceiro rio, que consiste em viver com paciência. Pela angústia e pelo sofrimento, o Senhor visita-nos. Se recebermos estes enviados com alegria no coração, então Ele mesmo virá, pois disse através do Seu profeta: «Aquando da angústia estarei ao seu lado, para o salvar e o honrar» (Sl 90,15). [...] O quarto e último rio de vida humilde é o abandono da vontade própria e de toda a busca pessoal. Este rio tem a sua origem no sofrimento suportado com paciência. O homem humilde [...] renuncia à sua própria vontade e abandona-se espontaneamente nas mãos de Deus. Torna-se assim uma só vontade e uma só liberdade com a vontade divina. [...] E este é o próprio cerne da humildade. [...] A vontade de Deus, que é a própria liberdade, liberta-nos o espírito de temor e torna-nos livres, libertos e despojados de nós mesmos. [...] Deus dá-nos então o Espírito dos eleitos, que nos faz exclamar com o Filho: «Abba, isto é, Pai» (Rm 8,15).

(Beato Jan van Ruusbroec)

O que Jesus trouxe ao mundo?

Mas então o que é que Jesus realmente trouxe, se não trouxe nem a paz para o mundo, nem o bem-estar para todos nem um mundo melhor? O que é que ele trouxe?

E a resposta é dada de um modo muito simples: Deus. […] Ele nos trouxe Deus: agora conhecemos o seu rosto, agora podemos chamar por ele. Agora conhecemos o caminho que como homens devemos percorrer neste mundo. Jesus trouxe Deus e assim a verdade sobre nosso fim e a nossa origem; a fé, a esperança e o amor. Somente por causa da dureza do nosso coração é que pensamos que isso seja pouco. Sim, o poder de Deus é suave neste mundo, mas é o verdadeiro, o poder que permanece. Parece que as coisas de Deus se encontram sempre “em agonia”. Mas se mostram como o que realmente subsiste e redime. As riquezas do mundo que Satanás podia mostrar ao Senhor desmoronaram-se entretanto. A sua glória, a sua doxa revelou-se apenas aparência. Mas a glória de Cristo, a glória do seu amor, humilde e sempre disposta  para o sofrimento, nunca se desmoronou e nunca perecerá.

(Bento XVI, Jesus de Nazaré, p. 54)

A Igreja adianta-se qual o despontar da aurora

A madrugada ou aurora é o tempo da passagem das trevas para a luz. Portanto, é muito justo dar estes nomes à Igreja de todos os eleitos. Pois, conduzida da noite da infidelidade à luz da fé, qual aurora depois das trevas, ela se abre para o dia com o esplendor da caridade celeste. O Cântico dos Cânticos bem o diz: Quem é esta que avança como aurora nascente? Em busca dos prêmios da vida celeste, a Santa Igreja é chamada aurora porque abandonou as trevas dos pecados e começou a refulgir com a luz da justiça.

Sobre esta qualidade de ser madrugada ou aurora, temos algo a pensar com mais sagacidade. A aurora e a madrugada anunciam ter passado a noite, no entanto, ainda não mostram toda a claridade do dia: repelem aquela, acolhem este, e, enquanto isso, as trevas se misturam. Que somos nós nesta terra, nós que seguimos a verdade, a não ser aurora ou madrugada? Já havendo realizado algo que pertence à luz, no entanto, ainda não nos libertamos inteiramente das trevas. Pelo Profeta foi dito a Deus: Diante de ti, nenhum vivente é justo. E em outro lugar: Em muitas coisas falhamos todos.

Por isso, quando Paulo diz: Passou a noite, não acrescenta logo: Chegou o dia, mas: O dia se aproximou. Ao dizer que, passada a noite, o dia não veio mas se aproximou, demonstra, sem qualquer dúvida, estar ainda na aurora, depois das trevas e antes do sol.

A Santa Igreja dos eleitos será então plenamente dia quando já não houver nela sombra de pecado. Será então plenamente dia quando for clara pelo perfeito ardor da luz em seu íntimo. Bem se mostra estar a aurora como que de passagem, nas palavras: E mostrastes à aurora seu lugar. Aquele a quem se mostra seu lugar é chamado daqui para ali, é claro. Qual é então o lugar da aurora, a não ser a perfeita claridade da visão eterna? Quando, conduzida, lá chegar, nada mais restará das passadas trevas da noite. A aurora apressa-se em alcançar seu lugar, no testemunho do salmista: Minha alma tem sede do Deus vivo; quando irei e aparecerei diante da face de Deus? A este lugar já conhecido a aurora apressava-se a chegar, quando Paulo dizia ter o desejo de morrer e estar com Cristo. E de novo: Para mim, viver é Cristo e morrer, lucro.

(São Gregório Magno)  

‘Do fundo do abismo, clamo a Vós, Senhor’

A oração é uma arma poderosa, um tesouro indestrutível, uma riqueza inesgotável, um porto ao abrigo das tempestades, um reservatório de calma; a oração é a raiz, a fonte e a mãe de bens consideráveis. Mas a oração de que falo não é medíocre nem negligente; é uma oração ardente, que brota do sofrimento da alma e do esforço do espírito. Eis a oração que sobe aos céus. Escuta o que diz o escritor sagrado: ‘Ao Senhor, no meio da angústia, eu clamo e Ele me ouve’ (Sl 119,1). Aquele que ora assim na sua angústia poderá, após a oração, desfrutar na sua alma de uma grande alegria.
Por ‘oração’ entendo não aquela que se encontra apenas na boca, mas a que brota do fundo do coração. Como as árvores cujas raízes estão profundamente enterradas não se quebram nem são arrancadas mesmo que os ventos desencadeiem mil assaltos contra elas, porque a suas raízes estão fortemente presas nas profundezas da terra, também as orações que vêm do fundo do coração, assim enraizadas, sobem ao céu com toda a segurança e não são desviadas por nenhum pensamento de falta de segurança ou de mérito. É por isso que o salmista diz: ‘Do fundo do abismo, clamo a vós, Senhor’ (Sl 129,1).
Se o fato de contares aos homens os teus infortúnios pessoais e descreveres as provações por que passaste traz algum alívio à tua desventura, como se através das palavras se exalasse uma brisa refrescante, com muito mais razão se falares ao Senhor dos sofrimentos da tua alma encontrarás consolo e conforto em abundância! De fato, muitas vezes os homens dificilmente suportam aqueles que vêm lamentar-se e chorar para o pé de si: afastam-se e repelem-nos. Mas Deus não age assim; pelo contrário, Ele faz com que te aproximes e abraça-te; e mesmo que passes o dia inteiro a narrar os teus infortúnios, ficará ainda mais disposto a amar-te e a acolher favoravelmente as tuas súplicas.

(São João Crisóstomo)

Ser uma casa de Deus

“O homem deve querer, deve seguir, deve procurar Deus em tudo o que faz; e quando tiver feito tudo – beber, dormir, comer, falar, ouvir –, deixe então completamente as imagens das coisas e esvazie o seu templo. Uma vez o templo esvaziado, uma vez expulso esse bando de vendedores, a imaginação que te estorva, poderás ser uma casa de Deus (Ef 2, 19). Terás então a paz e a alegria do coração, e mais nada te perturbará, nada do que agora te preocupa, te deprime e te faz sofrer.”

(Jean Tauler)

Preservada do pecado original

A Virgem foi preservada do pecado original, desde o primeiro instante de sua concepção e permaneceu sempre isenta de pecado mortal ou venial. Também está escrito, no Cântico dos Cânticos: (4, 7) Tu és formosa, amiga minha, e em ti não há mácula.
Com exceção da Santa Virgem, diz Santo Agostinho, em seu livro sobre a natureza e a graça; todos os santos e santas, em sua vida terrena, diante da pergunta: ‘estais sem pecados?’ teriam gritado a uma só voz: ‘Se disséssemos: estamos sem pecado (cf.1 Jo1,6), estaríamos enganando-nos a nós mesmos e a verdade não estaria conosco’. ’A Virgem santa é a única exceção. Para honrar o Senhor, quando se trata a respeito do pecado, não se faça nunca referência à Virgem Santa. Sabemos que a ela foi dada uma abundância de graças maior, para triunfar completamente do pecado. Ela mereceu conceber Aquele que não foi manchado por nenhuma falta’.
Mas o Cristo ultrapassou a Bem-aventurada Virgem. Sem dúvida, um e outro foram concebidos e nasceram sem pecado original. Mas Maria, contrariamente a seu Filho, lhe é submissa de direito. E se ela foi, de fato, totalmente preservada, foi por uma graça e um privilégio singular de Deus Todo Poderoso que é devido aos méritos de seu Filho, Jesus Cristo, Salvador do gênero humano. (N.T.).
(São Tomás de Aquino, Sermões, Saudação Angélica, n. 7)

Mãe de Cristo e nossa mãe

“A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade em simultâneo com a encarnação do Verbo, por disposição da Divina Providência foi na terra a nobre Mãe do Divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É, por esta razão, nossa Mãe na ordem da graça. Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura sem interrupção. [...] De fato, depois de elevada ao céu, não abandona esta missão salvadora mas, com a sua multiforme intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. Cuida com amor maternal dos irmãos do seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na terra, até chegarem à pátria bem-aventurada. Por isso, a Virgem é invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro, medianeira. [...] Nenhuma criatura se pode equiparar ao Verbo encarnado e redentor; mas, assim como o sacerdócio de Cristo é participado de diversos modos pelos ministros e pelo povo fiel, e assim como a bondade de Deus, sendo uma só, se difunde variamente pelos seres criados, assim também a mediação única do Redentor não exclui, antes suscita nas criaturas cooperações diversas, que participam dessa única fonte.”

(Lumen Gentium § 61-62 – CVII)

Trindade Eterna

Tu, Trindade eterna, és como um oceano profundo: quanto mais em Ti procuro, mais encontro; quanto mais encontro, mais procuro. Tu saciais-nos sem fim a alma pois, nas Tuas profundezas, sacias de tal modo a alma que ela torna-se indigente e faminta, porque continua a aspirar e a desejar ver-Te na Tua luz (Sl 35,10), ó luz, Trindade eterna [...]. Experimentei e vi com a luz da minha inteligência e na Tua luz, Trindade eterna, ao mesmo tempo, a imensidão das Tuas profundezas e a beleza da Tua criatura. Então vi que, ao revestir-me de Ti, tornar-me-ia na Tua imagem (Gn 1, 27), porque Tu dás-me, ó Pai eterno, algo do Teu poder e da Tua sabedoria. Essa sabedoria é o atributo do Teu Filho unigénito. Quanto ao Espírito Santo, que procede de Ti, Pai, e do Teu Filho, concedeu-me a vontade que me faz capaz de amar. Porque Tu, eterna Trindade, Tu és o Criador, e eu a criatura; soube assim, iluminada por Ti, na nova criação que fizeste de mim pelo sangue do Teu Filho unigénito, que foste tomada de amor pela beleza da Tua criatura.

(Santa Catarina de Sena – Diálogos)

Espírito Santo

Quem és, suave luz que me sacias
E que iluminas as trevas do meu coração?
Guias-me como a mão de uma mãe,
e se me soltasses
não mais poderia dar um só passo.
És o espaço
que envolve o meu ser e me protege.
Longe de Ti, naufragaria no abismo do nada
de onde me tiraste para me criar para a luz.
Tu, mais próximo de mim
do que eu própria,
mais intimo do que as profundezas da minha alma,
e contudo incompreensível e inefável,
para além de qualquer nome,
Espírito Santo, Amor Eterno!


Não és Tu o doce maná
que do coração do Filho
transborda para o meu,
o alimento dos anjos e dos bem-aventurados?
Aquele que Se elevou da morte à vida
também me despertou do sono da morte para uma vida nova.
E, dia após dia,
continua a dar-me uma nova vida,
de que um dia a plenitude me inundará por completo,
vida procedente da Tua vida, sim, Tu mesmo,
Espírito Santo, Vida Eterna!

(Santa Edith Stein – Poesia Pentecostes 1942)

“Meu Senhor e meu Deus!”

Escondidos numa casa, os apóstolos veem Cristo; Ele entra com todas as portas fechadas. Mas Tomé, então ausente [...], fecha os ouvidos e quer abrir os olhos. [...] Ele deixa explodir a sua descrença, esperando que o seu desejo seja atendido. ‘As minhas dúvidas só desaparecerão quando O vir, diz ele. Meterei o meu dedo nas marcas dos pregos, e ouvirei esse Senhor que tanto desejo. Não me importo que me acuse de falta de fé, desde que me encha com a Sua visão. Agora sou incrédulo, mas assim que O vir, acreditarei. Acreditarei quando O apertar em meus braços e O contemplar. Quero ver essas mãos perfuradas, que curaram as malfeitoras mãos de Adão. Quero ver esse lado, que derrubou a morte do lado do homem. Quero ser eu próprio testemunha do Senhor e o testemunho doutro não me basta. As vossas histórias exasperam a minha impaciência. A feliz notícia que trazeis só aviva a minha dúvida. Não me curarei deste mal, a não ser que toque o remédio das Suas mãos.’ O Senhor reapareceu e dissipou ao mesmo tempo a tristeza e a dúvida do Seu discípulo. Que digo? Ele não lhe dissipa a dúvida, ele preenche-lhe as expectativas. Ele entra com todas as portas fechadas.

(Basílio da Selêucida via Evangelho Quotidiano)

ALELUIA!!!!!

Novo dia surgiu
e o povo que andava nas trevas viu
uma intensa luz, teu clarão
tua glória... a resplandecer,
Novo povo a trilhar
um caminho aberto por tuas mãos
Obra nova enfim
já podemos ver, nova criação
Somos nos este povo alcançado por tua luz
fruto da tua obra na cruz

O Senhor nosso Deus
que merece o louvor, todo nosso amor
É o Rei que venceu, ao Cordeiro
a vitória, o poder, honra e glória (2x)
Ressuscitou, ressuscitou

Um só povo, um só corpo, um só canto pra Teu louvor
Tua Igreja, tua esposa celebrar o Teu amor
Soberano, Majestoso, Glorioso, Vencedor
Todos juntos, povo em festa
num banquete que não findará…

(Comunidade Shalom)

“Carregue a sua Cruz”

“Sua Cruz”

Que carregue a sua cruz; a sua! Que esse homem, que essa mulher raros, cujo preço toda a terra, de uma extremidade a outra, não poderia pagar, tome com alegria, abrace com ardor e leve aos ombros, com coragem, a sua cruz e não a de outro; a cruz que, com a minha sabedoria, fiz para ele em número, peso e medida; sua cruz, a que, com minhas próprias mãos, pus, com grande exatidão, suas quatro dimensões, a saber: sua espessura, seu comprimento, sua largura e sua profundidade, - sua cruz que lhe talhei de uma parte da que carreguei no Calvário, por um efeito da bondade infinita que tenho para com ele; - sua cruz, que é o maior presente que possa fazer aos meus eleitos na terra; - sua cruz, composta, em sua espessura, das perdas de bens, das humilhações, dos desprezos, das dores, das enfermidades e das penas espirituais que devem, por minha providência, chegar-lhe cada dia, até a morte, - sua cruz, composta, em seu comprimento, de um certo número de meses ou de dias em que ele deverá ser aniquilado pela calúnia, estar estendido num leito, ser forçado a mendigar, e tornar-se presa das tentações, da aridez, do abandono e de outras penas do espírito; - sua cruz, composta, em sua largura, das circunstâncias mais duras e mais amargas, sejam elas causadas pelos amigos, os criados ou os parentes; - sua cruz, enfim, composta, em sua profundidade, pelas mais ocultas penas com que o afligirei, sem que possa encontrar consolação nas criaturas que, por minha ordem, voltar-lhe-ão mesmo as costas e juntar-se-ão a mim para fazê-lo sofrer.

“Leve-a!”

Leve-a! E não a arraste, nem sacuda, nem reduza e, ainda menos, a esconda! isto é: leve-a bem alto na mão, sem impaciência nem pesar, sem queixa nem murmuração voluntária, sem partilha e sem alívio natural, sem envergonhar-se e sem respeito humano. Que a coloque sobre a fronte, dizendo com São Paulo: Que eu me abstenha de gloriar-me de outra coisa que não a Cruz de meu Senhor Jesus Cristo! Leve-a aos ombros a exemplo de Jesus Cristo, a fim de que essa cruz se torne para ele a arma de suas conquistas e o cetro de seu império. Enfim, coloque-a, pelo amor, em seu coração, para torná-la numa sarça ardente, que, sem consumir-se queime, noite e dia, de puro amor de Deus.

A Cruz!

A cruz; que ele a leve, pois nada existe que seja tão necessário, tão útil, tão doce ou tão glorioso quanto sofrer alguma coisa por Jesus Cristo.

(São Luis Grignion de Montfort – Carta aos amigos da Cruz, n. 18-20)

Meditação sobre a Paixão

“Vinde, vós todos que amais a Deus; vede o que Nosso Senhor fez por vós. Vinde, vós todos que fostes resgatados pelo sangue puríssimo do Cordeiro inocente; vede e compreendei o que Ele sofreu por causa do nosso pecado. Hoje abre-se para nós o Livro da Vida, os sete selos são quebrados (Ap 6). A verdade resplandece, nela se manifestam os tesouros da sabedoria e da ciência (Ro 11,33); brota a fonte que contém os mistérios de Deus. Hoje rompe-se o antigo véu (Mt 27,51), todas as aparências dão lugar à realidade. O Santo dos Santos abre-se de par em par, graças a Jesus, o Sumo Sacerdote (He 2,17). O sacrifício que Ele oferece não é senão o Seu próprio sangue. Hoje, em Jesus Cristo, é revelado o sentido de todos os símbolos, são descobertos todos os mistérios. Hoje abre-se o tesouro imenso do pai de família do qual fruirão plenamente todos os pobres, todos os fracos, todos os oprimidos. Cada um pode beber nas chagas do Senhor a graça de que mais necessita. [...] Hoje manifestou-se, acima de todas as coisas, o admirável mistério: o Rei dos homens faz-se o rebotalho da humanidade; o Altíssimo faz-se o último de todos; o Filho único de Deus oferece-Se livremente à cruz pelos pobres pecadores que somos nós. Ele quer pregar o pecado na cruz, matar a morte e, pelo Seu sangue precioso, destruir a nota da dívida onde estão registadas as nossas faltas (Col 2,14). [...] Não foi Ele que disse: ‘Quando Eu for elevado, atrairei tudo a Mim’ (Jo 12,32)? Tudo, quer dizer, todos os homens, em quem tudo se reúne. Muitos homens encontram a cruz; entre muitas tribulações, Deus leva-os a essa cruz, para os atrair a Si. Então eles carregam de bom grado a sua própria cruz e assim tornam-se verdadeiros amigos de Deus.”

(Jean Tauler – Meditação sobre a Paixão)

“Renuncie a si mesmo”

Se pois, alguém quiser vir após mim assim aniquilado e crucificado, que só se glorifique, como eu, na pobreza, nas humilhações e nas dores de minha Cruz! Renuncie a si mesmo!

Longe da Companhia dos Amigos da Cruz os sofredores orgulhosos, os sábios do século, os grandes gênios e os espíritos fortes, que são teimosos e convencidos de suas luzes e talentos! Longe daqui os grandes tagarelas, que fazem muito ruído e colhem apenas o fruto da vaidade! Longe daqui os devotos orgulhosos e que levam para toda parte o “quanto a mim” do orgulhoso Lúcifer, ‘Eu não sou como os outros’, que não podem suportar que os censurem sem desculpar-se, que os ataquem sem defender-se, que os rebaixem sem exaltar-se!

Tende bem cuidado para não admitir em vossa companhia os delicados e sensuais, que temem a menor picadela, que se queixam de mínima dor, que nunca provaram a crina, o cilício, a disciplina e, entre as suas devoções em moda, misturam a mais disfarçada e refinada delicadeza e falta de mortificação.

(São Luís de Montfort – Carta aos Amigos da Cruz, n. 17)

“Se alguém quiser vir após mim…”

“Se alguém...”

Se alguém, alguém, e não alguns, para marcar o pequeno número dos eleitos que se querem tornar conformes a Jesus Cristo crucificado, carregando a cruz. É tão pequeno esse número, tão pequeno, que se o soubéssemos ficaríamos pasmados de dor. É tão pequeno que não há apenas um em cada dez mil, como foi revelado a vários santos, - entre outros a São Simeão Estilita, segundo narra o santo abade Nilo, bem como Santo Efrém, São Basílio e alguns outros. É tão pequeno que, se Deus quisesse reuni-los, gritar-lhes-ia, como se outrora pela baca do profeta: reuni-vos de um a um, um desta província, outro deste reino.

Se alguém quiser...

Se alguém tiver vontade verdadeira, firme e determinada, não pela natureza, o costume, o amor próprio, o interesse ou o respeito humano, mas, por uma graça toda virtuosa do Espírito Santo, que não se dá a todos: ‘Nem a todos é dado conhecer os mistérios do reino dos céus’. O conhecimento do mistério da Cruz, na prática, só é dado a poucas pessoas. Para um homem subir ao Calvário e aí se deixar pregar na Cruz com Jesus, em sua própria pátria, é preciso que seja um bravo, um herói, um determinado elevado em Deus, que despreze o mundo e o inferno, seu corpo e sua vontade própria; um determinado a deixar tudo, a tudo empreender e a tudo sofrer por Jesus Cristo.

Sabei, queridos Amigos da Cruz, que aqueles dentre vós que não têm esta determinação, andam com um pé só, voam com uma só asa e não são dignos de estar no meio de vós, porque não são dignos de ser chamados Amigos da Cruz, que devemos amar, com Jesus Cristo, '’com um coração ardente e ânimo generoso’. Basta uma meia vontade, neste caso, para por, como uma ovelha preta, o rebanho a perder. Se em vosso aprisco já existe uma delas, entrada pela porta má do mundo, em nome de Jesus Cristo crucificado expulsai-a como a um lobo que estivesse entre os cordeiros!

Vir após mim

Se alguém quiser vir após mim, - que tanto me humilhei e aniquilei, que me tornei mais semelhante a um verme que a um homem, após mim, que só vim ao mundo para abraçar a Cruz; para colocá-la no centro de meu coração; para amá-la desde a minha juventude; para suspirar por ela durante a minha vida; para carregá-la com alegria, preferindo-a a todas as alegrias do céu e da terra; e que, enfim, só me contentei quando morri em seu divino abraço.

(São Luís Maria Grignion de Montfort – Carta aos Amigos da Cruz, n. 14-16)

As glórias futuras maiores que os sofrimentos presentes

‘Tenho como coisa certa que os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há-de revelar-se em nós’ (Rom 8,18). Por conseguinte, quem não há-de trabalhar de todas as formas possíveis para obter tal glória, para se tornar amigo de Deus, para se regozijar na companhia de Jesus Cristo e receber a recompensa divina depois dos tormentos e dos suplícios desta terra?
Para os soldados deste mundo, é glorioso entrar triunfalmente na sua pátria depois de terem vencido o inimigo. Não será glória bem maior retornar triunfalmente, depois de ter vencido o demónio, ao paraíso de onde Adão tinha sido expulso por causa do seu pecado? Trazer o troféu da vitória depois de ter abatido quem o tinha enganado? Oferecer a Deus como espólio magnífico uma fé intacta, uma coragem espiritual sem falhas, uma dedicação digna de elogios? Tornar-se co-herdeiro de Cristo, ser igualizado aos anjos, desfrutar com alegria do reino celeste com os patriarcas, os apóstolos, os profetas? Que perseguição pode vencer tais pensamentos, que nos podem ajudar a superar os suplícios?                                                                                A terra aprisiona-nos com as suas perseguições, mas o céu permanece aberto. Que honra e que segurança sair deste mundo com alegria, sair dele em glória, transpondo provas e sofrimentos! Fechar por um instante os olhos que veem os homens e o mundo, para os reabrir logo a seguir para verem Deus e Cristo! Se a perseguição assalta um soldado assim preparado, não poderá vencer a sua coragem. Mesmo que sejamos chamados ao céu antes da luta, a fé que assim se preparou não ficará sem recompensa. Na perseguição Deus coroa os seus soldados; na paz, coroa a boa consciência.

(São Cipriano)

Tu me curaste, fizeste-me ver!

Antes que brilhasse a luz divina,

Não me conhecia a mim mesmo.

Vendo-me então nas trevas e na prisão,

Preso num lamaçal,

Coberto de sujeira, ferido, com a minha carne inflamada,

Caí aos pés d'Aquele que me iluminara.

 

E Aquele que me iluminara tocou com as Suas mãos

Nas minhas cadeias e nas minhas feridas;

Do lugar onde a sua mão tocou e aonde o Seu dedo se chegou,

No mesmo momento me caíram as cadeias,

Desapareceram as feridas e toda a sujeira.

A mácula da minha carne desapareceu

E Ele tornou-a semelhante à Sua mão divina.

Estranha maravilha: a minha carne, a minha alma e o meu corpo

Participam da glória divina!

 

Assim que fui purificado e desembaraçado das minhas cadeias,

Ei-Lo que me estende uma mão divina,

Retira-me completamente do lamaçal,

Abraça-me, lança-se-me ao pescoço,

Cobre-me de beijos (cf. Lc 15, 20).

E a mim, que estava completamente exausto,

E tinha perdido as forças,

Pôs-me aos ombros (cf. Lc 15, 5),

E levou-me para fora do meu inferno.

 

Ele é a luz que me leva e me sustenta;

Conduz-me para uma grande luz.

Permite-me contemplar através de que tão misteriosa renovação

Ele próprio me tornou a modelar (cf. Gn 2, 7) e me arrancou à corrupção.

Concedeu-me o dom da vida imortal

E revestiu-me com uma túnica imaterial e luminosa

E deu-me sandálias, um anel e uma coroa

Incorruptíveis e eternos (cf. Lc 15, 22).

(São Simeão, o Novo Teólogo, monge e místico grego). Retirado de Visão Cristã.

“Pequei mais do que todos os homens…”

Meu Deus, na Tua compaixão
derrama sobre mim o olhar do Teu amor
E recebe a minha ardente confissão.

Pequei mais do que todos os homens,
pequei só contra Ti, Senhor;
faz-me participar da Tua misericórdia,
meu Salvador, porque me criaste. [...]
Meu Redentor, manchei a Tua imagem e semelhança (Gn 1, 26), [...]
desfiz em farrapos o vestuário de perfeição
que o próprio Criador fabricou para mim e estou nu;
em seu lugar quis usar uma farpela rasgada,
obra da serpente que me seduziu (Gn 3, 1-5). [...]
Fiquei fascinado com a beleza
da árvore que traiu a minha inteligência:
agora estou nu e coberto de vergonha. [...]

O pecado me revestiu de túnicas de pele (Gn 3, 21),
agora que fui despojado
das vestes tecidas pelo próprio Deus. [...]
E, como a prostituta, grito:
pequei contra Ti, só contra Ti.
Ó Salvador, acolhe as minhas lágrimas,
como aceitaste o perfume da pecadora (Lc 7, 36 ss.)

E, como o publicano, grito:
tem piedade de mim, ó Salvador.
Perdoa-me, porque de toda a descendência de Adão
ninguém pecou como eu. [...]
Prostrado como Davi (2 Sm 12),
estou coberto de lama;
Mas assim como ele se lavou nas próprias lágrimas,
lava-me Tu também, Senhor!

Ouve os gemidos da minha alma
e os suspiros do meu coração;
acolhe as minhas lágrimas
e salva-me, meu Redentor.
Porque Tu amas os homens
e queres que todos se salvem.
Faz-me voltar à Tua bondade
e nela me recebe,
porque estou arrependido.

(Santo André de Creta – Grande Cânon da Liturgia bizantina da Quaresma)

Viver do amor

Viver do Amor é dar sem olhar
Sem neste mundo exigir um salário.
Ah! Eu dou sem contar,
pois sei que quem ama é perdulário!
Ao Coração Divino, que transborda ternura,
Dei tudo. [...] Corro os meus dias ligeira, sem dor nem fraqueza
Nada mais tendo que esta minha riqueza:
Viver do Amor.


Viver do Amor é banir o temor,
Riscando a lembrança dos erros passados.
De meus pecados não vejo nem cor,
Com amor inflamante foram perdoados!
Ó doce fornalha, ó divina chama,
Morada que elejo com todo o fulgor,
Canto em teu fogo, e sou eu quem clama (cf Dn 3, 51):
"Vivo de Amor!” [...]


“Viver do Amor, que estranha loucura!”
O mundo me diz “Cessai de cantar!”
”Que os perfumes e a vida futura
Com utilidade os deveis empregar!”
Amar-Te, Jesus, se é perda, é ganho fecundo!
Para sempre são Teus meus perfumes, Senhor,
Quero cantar ao deixar este mundo:
"Morro de Amor !”


Amar é dar tudo e dar-se a si mesmo.

(Sta. Teresa do Menino Jesus)

“Reconheço que o meu coração Te negligenciou…”

“’Fogo sempre ardente, diremos com Santo Agostinho, inflama as nossas almas.’ Jesus Cristo, fizeste-Te homem para acender nos nossos corações o fogo do amor divino: como pudeste encontrar em nós tamanha ingratidão? Tudo fizeste para que Te amassem; chegaste a sacrificar o Teu sangue e a Tua vida. Porque razão ficam os homens insensíveis a tantas graças? Será que as ignoram? Não, eles sabem, eles creem que, por amor deles, vieste do céu revestir a carne humana e carregar com as suas misérias; eles sabem que, por amor deles, quiseste levar uma vida de sofrimento permanente e sofrer uma morte ignominiosa. Depois disto, como explicar que vivam no completo esquecimento da Tua bondade extrema? Eles amam os pais, eles amam os amigos, eles chegam mesmo a amar os animais [...]; é somente por Ti que não sentem amor nem gratidão! Mas que digo eu? Ao acusar os outros de ingratidão, estou a condenar-me a mim mesmo, pois o meu comportamento para conTigo foi pior do que o deles. Porém, a Tua misericórdia dá-me coragem; sei que ela me sustentou durante tanto tempo, para me perdoar e incendiar-me com o Teu amor, com a única condição de eu querer arrepender-me e amar-Te. Sim, meu Deus, quero arrepender-me [...]; quero amar-Te com todo o meu coração. Reconheço que o meu coração [...] Te negligenciou para amar as coisas deste mundo; mas também vejo que, apesar desta traição, Tu continuas a chamá-Lo. É por isso que, com toda a força da minha vontade, eu To dedico e To dou. Digna-Te incendiá-lo com o Teu santo amor; faz com que doravante ele só Te ame a Ti. [...] Amo-Te, meu Jesus; amo-Te, meu soberano Bem! Amo-Te, único amor da minha alma.
Maria, minha mãe, tu que és ‘a Mãe do amor formoso’ (Si 24,24 Vulg), obtém-me a graça de amar o meu Deus; é de ti que o espero.”

(Santo Afonso de Ligório)

‘As portas do inferno não prevalecerão’

“Cristo prometeu que, na força do seu Espírito Santo, estará sempre com sua Igreja. Ela já enfrentou as perseguições do Império Romano, a tragédia das invasões bárbaras, as lutas contra os tiranos do Sacro Império e dos monarcas absolutos, déspotas esclarecidos ou não. A Igreja já enfrentou o cativeiro dos papas em Avinhão durante quase setenta anos; sobreviveu à terrível experiência da dilaceração com a Reforma protestante, suportou dez péssimos papas consecutivos na época do Renascimento; já enfrentou a crítica do racionalismo, do iluminismo e do humanismo ateu do século XIX; sobreviveu à perseguição terrível dos regimes pagãos do século XX: o fascismo, o marxismo e o nazismo. Agora luta contra novos gigantes: a secularização, o consumismo, o ateísmo prático, a onda anti-cristã dos meios de comunicação de massa… E vencerá, mais uma vez. Ela perderá sempre mais poder político, poder de barganha, prestígio e até número de fiéis. Mas, isso, ela nunca deveria ter tido; a sua força não consiste nisso. Sua glória, sua força, seu arrimo é unicamente Cristo, loucura, escândalo e fraqueza para o mundo, sabedoria e poder de Deus para os que crêem… ‘As portas do inferno não prevalecerão’ – a promessa do Senhor a Pedro continua de pé!”

(Dom Henrique Soares, bispo auxiliar da Arquidiocese de Aracaju/SE)

Os efeitos da oração

Primeiramente, constitui um remédio eficaz contra todos os males. Livra-nos dos pecados cometidos: ‘Remistes, Senhor, a iniquidade de meu pecado, diz o Salmista (Sl 31,5-6) por isso todo homem santo dirigirá a Vós sua prece’. Assim pediu o ladrão sobre a cruz e obteve seu perdão, pois Jesus lhe respondeu: ‘Em verdade vos digo, hoje mesmo estareis comigo no paraíso’ (Lc 23,43), Do mesmo modo rezou o publicano e voltou para casa justificado (cf. Lc 18,14).
A oração nos liberta do medo dos pecados que virão, das tribulações e da tristeza. Alguém está triste entre vós? Reze com a alma tranquila (Tg 5,3).
A oração nos livra das perseguições dos inimigos. Está escrito no Salmo 108, 4: Em resposta ao meu afeto me fizeram mal; eu, porém, orava.
Em segundo lugar, a oração é um meio útil e eficaz para a realização de todos os nossos desejos. Tudo o que pedirdes na oração, diz Jesus, crede, recebereis (Mc 11,24).
Se não somos atendidos, será porque — ou não pedimos com insistência: é preciso rezar sem descanso (Lc 18, 1) — ou então não pedimos o que é mais útil à nossa salvação. ‘O Senhor é bom, diz Santo Agostinho, muitas vezes não nos concede o que queremos, para nos dar os bens, que desejaríamos receber, se nossa vontade estivesse bem de acordo com a sua divina vontade’. São Paulo é exemplo disso, pois, por três vezes, pediu para ficar livre de um forte sofrimento em sua carne e não foi atendido (cf. II Cor 12,8).
Em terceiro lugar a oração é útil, porque nos torna familiares de Deus. Que minha oração suba até vós, como a fumaça do incenso, diz o Salmista (Sl 140, 2).

(São Tomás de Aquino – Sermões sobre o Pai Nosso e a oração Angelical)

A oração é uma arma

“A oração, além disso, é a mais poderosa arma para nos defendermos dos nossos inimigos. Quem não se serve dela está perdido. Nem duvida o santo em afirmar que Adão caiu, porque não se recomendou a Deus na hora da tentação: ‘Adão pecou porque não rezou’. O mesmo escreveu São Gelásio, falando dos anjos rebeldes: ‘receberam em vão a graça divina… e porque não rezaram… caíram.’

São Carlos Borromeu, em uma carta pastoral, adverte que, entre os meios que Jesus Cristo nos recomendou no Evangelho, deu o primeiro lugar à oração. Ele quis que nisso se distinguisse as igrejas católicas e sua religião das outras seitas, querendo que de um modo especial elas se chamassem casa de oração. ‘Minha casa será chamada casa de oração’ (Mt 21, 13).   Conclui São Carlos Borromeu , na mesma carta, que a oração é o princípio, o progresso e o complemento de todas as virtudes. Por isso nas trevas, nas misérias e nos perigos em que nos achamos, não temos nenhum outro em quem fundar nossas esperanças, senão levantar nossos olhos a Deus e pela oração impetrar de sua misericórdia a nossa salvação: ‘como não sabemos o que devemos fazer, dizia o rei Josafá, não nos resta outro meio do que levantar os nossos olhos para Vós’ (2Cr 20, 12). E assim também fazia Davi, não encontrando outro meio para se livrar dos seus inimigos do que rogar continuamente ao Senhor, que o libertasse de suas ciladas: ‘os meus olhos se elevam sempre ao Senhor; porquanto ele tirará o laço de meus pés’ (Sl 25, 15). E assim não cessava de rezar o real profeta, dizendo ‘olha para mim e tem piedade de mim porque sou pobre e só’ . ‘Chamei a ti, Senhor, salva-me, para que guarde os teus mandamentos’  (Sl 118, 146). ‘Senhor, volvei para mim os Vossos olhos, tende piedade de mim e salvai-me, porque sem Vós nada posso e fora de Vós, não encontro quem possa ajudar-me’”.

(Santo Afonso de Ligório, A Oração, I, 9)

“Tu és o meu verdadeiro rei”

“Pela Tua graça, meu amor, meu Jesus, nesta hora do dia foste flagelado por mim, coroado de espinhos, lamentavelmente coberto de sofrimentos. Tu és o meu verdadeiro rei, para além de Ti não conheço ninguém. Tu fizeste-Te opróbrio dos homens, abjeto e repugnante como um leproso (cf Is 53,3) até a própria Judeia se recusar a reconhecer-Te como Seu rei (Jo 19,14-15). Por Tua graça, que pelo menos eu Te reconheça como meu rei! Meu Deus, dá-me esse inocente, tão ternamente amado, o meu Jesus, que por mim ‘pagou’ tão plenamente ‘aquilo que não tinha roubado’ (Sl 68,5); dá-Mo, para que Ele seja o apoio da minha alma. Que eu O receba no meu coração; que, pela amargura das Suas dores e da Sua Paixão, Ele reconforte o meu espírito.”

(Santa Gertrudes de Helfta, via Evangelho quotidiano)

Quanto te custou nos ter amado!




"Contemplai os mistérios do amor e vereis 'o seio do Pai', que 'nos deu a conhecer o Seu Filho unigênito', que é Deus (Jo 1,18). Deus é amor (cf. 1Jo 4,8) e, devido a este amor, deixou-Se ver por nós. No Seu ser inexprimível, é Pai; na Sua compaixão para conosco, tornou-Se Mãe. Ao amar, o Pai revela também uma dimensão feminina.
A prova incontestável é Aquele que gera de Si mesmo. E este Filho, fruto do amor, é amor. Por causa deste amor, Ele próprio Se baixou. Por causa deste amor, revestiu-Se da nossa humanidade. Por causa deste amor, sofreu livremente tudo o que diz respeito à condição humana. Assim, colocando-Se ao nível da nossa fraqueza porque nos amava, pôs-nos em igualdade à Sua força.
Quando estava a ponto de Se oferecer em sacrifício e Se dar a Si próprio como preço da redenção, deixou-nos um testamento novo: 'Dou-vos o Meu amor' (cf Jo 13,34; 14,27). Que amor é este? Qual o seu valor? Por cada um de nós, 'entregou a Sua vida' (1Jo 3,16), uma vida mais preciosa que todo o universo."
(São Clemente de Alexandria - publicado em Visão cristã)

Rainha da Paz, ora por nós!

“Salve Santa Mãe santa, que destes à luz o Rei do céu e da terra” (antífona de entrada). Hoje, oitavo dia depois do Natal e primeiro dia do ano, a Igreja dirige-se com esta antiga saudação à Santíssima Virgem Maria, invocando-a enquanto Mãe de Deus. O Filho eterno do Pai tomou n'Ela a nossa carne e tornou-se, através d'Ela “filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1, 1). Maria é, portanto, a verdadeira Mãe, a Theotokos, a Mãe de Deus! Se Jesus é a Vida, Maria é a Mãe da Vida. Se Jesus é a Esperança, Maria é a Mãe da Esperança. Se Jesus é a Paz, Maria é a Mãe da Paz, a Mãe do Príncipe da Paz. Entrando no novo ano, pedimos a esta Mãe santa que nos abençoe. Peçamos-lhe que nos dê Jesus, a nossa bênção completa, com a qual o Pai abençoou a história de uma vez por todas, fazendo com que se tornasse uma história de salvação. O Menino nascido em Belém é a Palavra eterna do Pai feita carne para nossa Salvação: é “Deus conosco” que traz consigo o segredo da verdadeira paz. Ele é o Príncipe da Paz (Is 7, 14; 9, 5).
[...]
”Salve, Santa Mãe!” O Menino que apertas contra o peito tem um nome querido aos povos da religião bíblica: “Jesus”, que significa “Deus salva”. Assim Lhe chamava o arcanjo, antes mesmo de que Ele fosse concebido no teu seio (Lc 2, 21). Na face do Messias recém-nascido reconhecemos a face de cada um dos teus filhos ultrajados e explorados. Reconhecemos em especial a face das crianças, seja qual for a sua raça, o país ou a cultura a que pertençam. Para elas, ó Maria, pelo futuro delas, te pedimos que enterneças os corações endurecidos pelo ódio, a fim de que se abram ao amor e de que a vingança ceda finalmente o lugar ao perdão. Ó Mãe, alcança-nos que a verdade desta afirmação – não há paz sem haver justiça e não há justiça sem haver perdão – se imprima no coração de todos. A família humana poderá assim reencontrar a paz verdadeira, que nasce do encontro entre a justiça e a misericórdia. Mãe santa, Mãe do Príncipe da Paz, ajuda-nos! Mãe da humanidade e Rainha da Paz, ora por nós!

(Beato João Paulo II, homilia de 01/01/02)

 
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