Os discípulos não entendiam…

“Escutai o que o Senhor vos pede: Se ignorais a Minha divindade, reconhecei ao menos a Minha humanidade. Vede em Mim o vosso corpo, os vossos membros, as vossas entranhas, os vossos ossos, o vosso sangue. E se o que pertence a Deus vos inspira temor, não vos agradará o que vos pertence a vós? Mas talvez a enormidade da Minha Paixão, da qual vós sois a causa, vos cubra de vergonha? Não temais. Esta cruz não foi mortal para Mim, mas para a morte. Estes pregos não Me penetram de dores, mas de um amor ainda mais profundo por vós. Estas feridas não provocam gemidos, mas fazem-vos entrar ainda mais no Meu coração. O esquartejar do Meu corpo abre-vos os Meus braços como um refúgio, não aumenta o Meu suplício. O Meu sangue não está perdido por mim, mas guardado para vosso resgate (Mc 10,45). Vinde pois, voltai par Mim e reconhecei o vosso Pai, vendo que Ele vos paga o mal com o bem, os insultos com o amor, e tão grandes feridas com uma tão grande caridade.”

(São Pedro Crisólogo)

Sobre tentações

Pois, guardai-vos também, filhas, de umas humildades que infunde o demónio com grande inquietação sobre a gravidade de nossos pecados. Costuma apertar aqui de muitas maneiras, até apartar a alma das comunhões e de ter oração particular (por o não merecerem, sugere-lhes aqui o demónio); e, quando se aproximam do Santíssimo Sacramento, em pensar se se prepararam bem ou não, se lhes vai o tempo em que haviam de receber mercês. Chega a coisa a ponto de fazer parecer à alma que, por ser assim, está abandonada de Deus e quase põe em dúvida a Sua misericórdia. Tudo quanto trata lhe parece perigo, e sem fruto tudo quanto faz, por bom que seja. Põe-lhe uma tal desconfiança que lhe caem os braços para fazer qualquer bem, porque se lhe afigura que o que é bem nos outros, nela é mal.
2. Olhai muito, filhas, a isto que vos direi, porque algumas vezes poderá ser humildade e virtude o terdes-vos assim por tão ruins e outra grandíssima tentação! Porque eu passei por isso, o conheço. A humildade não inquieta, nem desassossega, nem alvorota a alma, por grande que seja; mas vem com paz e gozo e sossego. Ainda que alguém, por se ver ruim, entenda claramente que merece estar no inferno, e se aflija, e lhe pareça de justiça que todos o hajam de aborrecer, e não ouse quase pedir misericórdia, se for boa a humildade, esta pena traz em si uma suavidade e contentamento que não nos quereríamos ver sem ela. Não alvorota nem aperta a alma; antes a dilata e torna apta para melhor servir a Deus. Essa outra pena tudo perturba, tudo alvorota, revolve toda a alma; é penosíssima. Creio que pretende o demónio que pensemos ter humildade e, se pudesse, a voltas com isto, desconfiássemos de Deus.
3. Quando assim vos achardes, atalhai o pensamento da vossa miséria o mais que puderdes, e ponde-o na misericórdia de Deus, no que Ele nos ama e padeceu por nós. E, se é tentação, até nem isto podereis fazer, pois o demónio não vos deixará sossegar o espírito nem pensar em nada, senão naquilo que mais vos afligir: Muito será se conhecerdes que é tentação. O mesmo fará sugerindo penitências desmedidas, para dar a entender que somos mais penitentes do que as outras e fazemos alguma coisa. Se vos andais escondendo do confessor ou da prelada, ou se, dizendo-vos eles que deixeis essas penitências não fazeis caso, é clara tentação. Procurai, por mais pena que vos dê - obedecer, pois nisto está a maior perfeição.
4. O demónio ainda vem com outra bem perigosa: uma segurança em nos parecer que, de maneira nenhuma, voltaríamos às culpas passadas e prazeres do mundo; «já compreendi e sei que tudo acaba e que mais gosto me dão as coisas de Deus». Esta, se é no princípio, é muito má, porque, com esta segurança, não se lhes dá nada de se porem de novo nas ocasiões, e faz lhes fechar os olhos, e praza a Deus que não seja muito pior a recaída. Porque o demónio, quando vê que lhe pode causar dano uma alma, fugindo-lhe e dar proveito a outras, faz tudo quanto pode para que ela não se levante. Assim, por mais gostos e provas de amor que o Senhor vos dê, nunca andeis tão seguras que deixeis de temer o poderdes tornar a cair, e guardai-vos das ocasiões.

(Sta. Teresa d’Ávila – Caminho de perfeição, XXXIX, 1-4)

À Imperatriz do Brasil

“Que dizer? Que elogio se há-de fazer à Virgem gloriosa e santa? Ela ultrapassa todos os seres, à exceção apenas de Deus; por natureza, é mais bela que os querubins, os serafins e todo o exército dos anjos. Nem as línguas do céu nem as da terra, nem as línguas dos anjos bastam para louvá-la. Virgem bendita, pomba pura, esposa celeste [...], templo e trono da divindade! Cristo, sol esplendoroso do céu e da terra, pertence-te. Tu és a nuvem luminosa que fez descer Cristo, Ele o brilho resplandecente que ilumina o mundo. Rejubila, ó cheia de graça, porta do céu; é de ti que fala o autor do Cântico dos Cânticos [...] quando exclama: ‘És horto cerrado, minha irmã, minha esposa, horto cerrado, fonte selada’ (4,12). [...] Santa Mãe de Deus, ovelha imaculada, tu trouxeste ao mundo o Cordeiro, Cristo, o Verbo encarnado em ti. [...] Que maravilha espantosa nos céus: uma mulher vestida de sol (Ap 12, 1), trazendo nos braços a luz!
[...] Que maravilha espantosa nos céus: o Senhor dos anjos que Se torna filho da Virgem. Os anjos acusavam Eva; agora, cumulam Maria de glória, porque Ela levantou Eva da queda e abriu as portas do céu a Adão, outrora expulso do Paraíso. [...] Imensa é a graça concedida a esta Virgem santa. É por isso que Gabriel a cumprimenta dizendo-lhe: ‘Rejubila, cheia de graça’, resplandecente como o céu. ‘Rejubila, cheia de graça’, Virgem ornada de virtudes sem número. [...] ‘Rejubila, cheia de graça’, tu que sacias os sedentos com as doçuras da fonte eterna. Rejubila, Santa Mãe Imaculada, tu que geraste Cristo, que te precede. Rejubila, púrpura real, tu que revestiste o Rei do céu e da terra. Rejubila, livro selado, tu que deste a ler ao mundo o Verbo, o Filho do Pai.”

(Santo Epifânio de Salamina, Homilia n°5)

Ave

Na antiguidade, a aparição dos Anjos aos homens era um acontecimento de grande importância e os homens sentiam-se extremamente honrados em poder testemunhar sua veneração aos Anjos.

Um Anjo se inclinar diante de uma criatura humana, nunca se tinha ouvido dizer antes que o Anjo tivesse saudado à Santíssima Virgem, reverenciando-a e dizendo: Ave.

Se antes o homem reverenciava o Anjo e o Anjo não reverenciava o homem, é porque o Anjo é maior que o homem e o é por três diferentes razões: Primeiramente, o Anjo é superior ao homem por sua natureza espiritual (o homem tem uma natureza corrutível e Não convém que a criatura espiritual e incorruptível renda homenagem à criatura corruptível); em segundo lugar, o Anjo ultrapassa o homem por sua familiaridade com Deus (com efeito, o Anjo pertence à família de Deus, mantendo-se a seus pés, mas o homem é quase estranho a Deus, como um exilado longe de sua face pelo pecado) e em terceiro lugar, o Anjo foi elevado acima do homem, pela plenitude do esplendor da graça divina que possui (Os Anjos participam da própria luz divina em mais perfeita plenitude. Pode-se enumerar os soldados de Deus, diz Jó (25, 3) e haverá algum sobre quem não se levante a sua luz? Por isso os Anjos aparecem sempre luminosos. Mas os homens participam também desta luz, porém com parcimônia e como num claro-escuro).

Por conseguinte, não convinha ao Anjo inclinar-se diante do homem, até o dia em que apareceu urna criatura humana que sobrepujava os Anjos por sua plenitude de graças , por sua familiaridade com Deus e por sua dignidade. Esta criatura humana foi a bem-aventurada Virgem Maria. Para reconhecer esta superioridade, o Anjo lhe testemunhou sua veneração por esta palavra: Ave.

(Santo Tomás de Aquino. O Pai Nosso e a Ave Maria, A saudação Angélica, n. 2-4 adapt.)

Os “profetas modernos” do Cristianismo


“Para um cristão, importa a fé, ou seja, o acolhimento da Palavra de Deus, que o torna participante do desígnio divino Ora, se alguém é crente, é também profeta, já que, olhando bem, a profecia significa não tanto o anúncio do futuro, mas do eterno e também do ‘presente’ compreendido como o eterno no tempo.
Além do mais, toda previsão realizou-se e esclareceu-se em Jesus Cristo, ‘o Profeta’ (cf. Jo 1,21), de modo que a profecia cristã coincide exatamente com o testemunho cristão (…)
Hoje, não raramente, escuta-se desejar e rezar para que a Igreja seja crível e seja profética. Trata-se de acréscimos supérfluos e quase deformantes. Pela sua própria natureza a Igreja é crível; de outro modo não seria a Igreja. Mais que ser crível, a preocupação deve ser a de ser crente: na fé e nas obras luminosas que a acompanham (cf. Mt 5,16) residem os motivos da credibilidade e são oferecidos os sinais da profecia, isto é, da viva e operante presença do Evangelho.
(…)
Tem-se, de tal modo, a ideia de que, para ser profeta, é necessário ultrapassar a doutrina e a práxis da Igreja institucional e hierárquica; isto é, seria preciso escolher uma Igreja “espiritual” e dinâmica e percorrer um caminho novo, com uma escuta mais fiel ao mundo e uma mais corajosa aliança entre fé e cultura.
(…)
Aos discípulos do Senhor não importa uma profecia como antecipação da cronologia ou previsão do futuro; não se esforçam para ler os ‘sinais dos tempos’, pois já possuem a leitura que Jesus Cristo morto e ressuscitado fez uma vez por todas. Nem mesmo se esforçam para convocar novos concílios que respondam às expectativas dos tempos, insatisfeitas com os concílios precedentes.
Os cristãos se preocupam na verdade com uma profecia que consiste numa ortodoxia sempre mais tradicional e, portanto, íntegra e límpida; alegram-se e são tomados de admiração com o carisma do Magistério que, em virtude da assistência do Espírito santo, assegura a fidelidade à Palavra de Deus; tornam evidente a comunhão com Cristo nas obras de fraternidade; pregam que o destino do homem é a vida Eterna.
E sabem que, como já agora Jesus Cristo está presente, existe já agora a verdadeira Igreja, mesmo não sedo ainda toda na condição gloriosa.
Todos os membros do Povo de Deus são chamados a ser profetas, exatamente porque são todos chamados a serem crentes. A profecia é a fé.”
(Inos Biffi – In: Visão Cristã)

Da utilidade das adversidades

1525187

1.Bom é passarmos algumas vezes por aflições e contrariedades, porque frequentemente fazem o homem refletir, lembrando-lhe que vive no desterro e, portanto, não deve pôr sua esperança em coisas alguma do mundo. Bom é encontrarmos às vezes contradições, e que de nós façam conceito mau ou pouco favorável, ainda quando nossas obras e intenções sejam boas. Isto ordinariamente nos conduz à humildade e nos preserva da vanglória. Porque, então, mais depressa recorremos ao testemunho interior de Deus, quando de fora somos vilipendiados e desacreditados pelos homens.
2.Por isso, devia o homem firmar-se de tal modo em Deus, que lhe não fosse mais necessário mendigar consolações às criaturas. Assim que o homem de boa vontade está atribulado ou tentado, ou molestado por maus pensamentos, sente logo melhor a necessidade que tem de Deus, sem o qual não pode fazer bem algum. Então se entristece, geme e chora pelas misérias que padece. Então causa-lhe tédio viver mais tempo, e deseja que venha a morte livrá-lo do corpo e uni-lo a Cristo. Então compreende também que neste mundo não pode haver perfeita segurança nem paz completa.

(Tomás de Kempis – Imitação de Cristo, I, XII, 1-2)

 
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