Os anjos

Celebramos hoje a festa dos santos anjos. [...] Mas que podemos dizer destes espíritos angélicos? Eis o que nos diz a fé: acreditamos que eles gozam da presença e da visão de Deus, que possuem uma felicidade sem fim, os bens do Senhor que «nem o olho viu, nem o ouvido ouviu, nem jamais passaram pelo pensamento do homem» (1Cor 2,9). O que pode um simples mortal dizer sobre este assunto a outros mortais, ele que é incapaz de conceber tais coisas? [...] Se é impossível falar da glória dos santos anjos em Deus, podemos pelo menos falar da graça e do amor que eles manifestam relativamente a nós, pois gozam, não apenas de uma dignidade incomparável, mas também de um espírito de serviço cheio de bondade. [...] Não podendo compreender a sua glória, deixamo-nos prender tanto mais fortemente à misericórdia de que estão cheios estes familiares de Deus, cidadãos do céu e príncipes do paraíso.
O próprio apóstolo Paulo, que contemplou com os seus olhos a corte celestial e que conheceu os seus segredos (2Cor 12,2), atesta que todos os anjos são «espíritos ao serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão-de herdar a salvação» (2Cor 12,2). Não tomeis tal afirmação por inconcebível, pois o Criador, o próprio Rei dos anjos, «não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos» (Mc 10,45). Que anjo desdenharia pois tal serviço, onde o
precedeu Aquele que os anjos servem no céu com pressa e alegria?

(São Bernardo, 1º Sermão para a festa de São Miguel) Fonte: Evangelho Quotidiano

A verdadeira devoção

A verdadeira devoção, Filoteia,  pressupõe o amor a Deus, ou melhor, ela mesma é o mais perfeito amor a Deus. Esse amor chama-se graça, porque adereça a nossa alma e a torna bela aos olhos de Deus. Se nos dá força e vigor para praticar o bem, assume o nome de caridade. E, se nos faz praticar o bem frequente, pronta e cuidadosamente, chama-se devoção e atinge então ao maior grau de perfeição. Vou esclarecê-lo melhor com uma explicação tão simples como natural.

Os avestruzes têm asas, mas nunca se elevam acima da terra. As galinhas voam, mas têm um voo pesado e o levantam raras vezes e a pouca altura. O voo das águias, das pombas, das andorinhas é veloz e alto e quase contínuo. De modo semelhante, os pecadores são homens terrenos e vão se arrastando de contínuo à flor da terra. Os justos, que são ainda imperfeitos, elevam-se para o céu pelas obras, mas fazem-no lenta e raramente, com uma espécie de peso no coração.

São só as almas possuidoras de uma devoção sólida que, à semelhança das águias e das pombas, se exalçam a Deus por um voo vivo, sublime e, por assim dizer, incansável. Numa palavra, a devoção não é nada mais que uma agilidade e viveza espiritual, da qual ou a caridade opera em nós, ou nós mesmos, levados pela caridade, operamos todos o bem de que somos capazes.

(São Francisco de Sales – Filoteia ou introdução à vida devota, I,1)

Spes unica

“Veja as cuspidas no meu rosto, que recebi por ti, para restituir-te o primitivo alento de vida que inspirei em teu rosto. Olha as bofetadas de meu rosto, que suportei para reformar à imagem minha teu aspecto deteriorado. Olha as chicotadas de minhas costas, que recebi para tirar da tua o peso de teus pecados. Olha minhas mãos, fortemente seguras com pregos na árvore da cruz, por ti, que em outro tempo estendeste funestamente uma de tuas mãos à árvore proibida”

(Autor desconhecido do sec. II)

O nome de Maria

O nome de Maria, que Joaquim e Ana impuseram a sua santa filha, era bastante comum entre os judeus. Encontra-se pela primeira vez na sagrada escritura para designar a irmã de Moisés. Há várias Marias no Evangelho: Maria Madalena, Maria Salomé e Maria, mulher de Cleóphas, o qual julga ter sido irmão de são José.

Podemos afirmar que Maria realizo a significação de seu nome. Significa ao mesmo tempo Senhora, isto é, Rainha e Luz. Grafava-se Miriam ou Mariam entre os judeus e adotamos a forma latina Maria.

Maria é, com efeito, Senhora ou Rainha  dos anjos, dos homens, do mundo inteiro. A Igreja a saúda muitas vezes com este nome,  principalmente nas ladainhas lauretanas. Costumamos, outrossim, chamá-la Nossa Senhora.

Maria é também nossa Luz, não, sem dúvida, como seu filho Jesus, que é o sol de justiça, mas como doce aurora que o precede, como a lua que o recorda, como a estrela matutina que o anuncia, nomes graciosos que lhe dá a Igreja.

(…)

Na verdade, depois do nome de Jesus o mais glorioso é o de Maria. Daí o costume frequente de impô-lo às crianças, na pia batismal, e aos religiosos na tomada de hábito.

Para que nasceu a Virgem Maria?


Quereis saber quão feliz, quão alto é e quão digno de ser festejado o Nascimento de Maria? Vede o para que nasceu. Nasceu para que dEla nascesse Deus.
Perguntai aos enfermos para que nasce esta celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Saúde; perguntai aos pobres, dirão que nasce para Senhora dos Remédios; perguntai aos desamparados, dirão que nasce para Senhora do Amparo; perguntai aos desconsolados, dirão que nasce para Senhora da Consolação; perguntai aos tristes, dirão que nasce para Senhora dos Prazeres; perguntai aos desesperados, dirão que nasce para Senhora da Esperança.
Os cegos dirão que nasce para Senhora da Luz; os discordes, para Senhora da Paz; os desencaminhados, para Senhora da Guia; os cativos, para Senhora do Livramento; os cercados, para Senhora da Vitória.
Dirão os pleiteantes que nasce para Senhora do Bom Despacho; os navegantes, para Senhora da Boa Viagem; os temerosos da sua fortuna, para Senhora do Bom Sucesso; os desconfiados da vida, para Senhora da Boa Morte; os pecadores todos, para Senhora da Graça; e todos os seus devotos, para Senhora da Glória.
E se todas estas vozes se unirem em uma só voz, dirão que nasce para ser Maria e Mãe de Jesus.
(Padre Antônio Vieira – fonte: Visão Cristã)

Um segredo de Cristo

A compaixão dele era natural, quase casual. Os estoicos, antigos e modernos, orgulhavam-se de cultuar as próprias lágrimas. Ele nunca ocultou as suas; mostrou-as claramente no rosto aberto ante qualquer visão do dia-a-dia, como a visão distante de sua cidade natal. No entanto, alguma coisa ele ocultou. Solenes super-homens e diplomatas imperiais orgulham-se de conter a própria ira. Ele nunca a conteve. Arremessou móveis pela escadaria frontal do templo e perguntou aos homens como eles esperavam escapar da danação do inferno. No entanto, alguma coisa ele ocultou. Digo-o com reverência; havia naquela chocante personalidade um fio que deve ser chamado de timidez. Havia algo que ele encobria constantemente por meio de um abrupto silêncio ou um súbito isolamento. Havia uma certa coisa que era demasiado grande para Deus nos mostrar quando ele pisou nesta nossa terra. Às vezes imagino que era sua alegria.

(G. K. Chesterton – Ortodoxia)

 
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