São João da Cruz


Modo para chegar ao Tudo
Para chegares ao que não sabes,
Hás de ir por onde não sabes.
Para chegares ao que não gozas
Hás de ir por onde não gozas.
Para vires ao que não possuis,
Hás de ir por onde não possuis.
Para vires a ser o que não és,
Hás de ir por onde não és.

Modo de possuir tudo
Para vires a saber tudo,
Não queiras saber coisa alguma.
Para vires a gozar tudo,
Não queiras gozar coisa alguma.
Para vires a possuir tudo,
Não queiras possuir coisa alguma.
Para vires a ser tudo,

Oração diante do Santíssimo Sacramento

“Eis-me aqui, diante de vós, pobre e nu, a pedir graça e implorar misericórdia. Fartai este vosso pobre mendigo, aquecei minha frieza com o fogo de vosso amor, iluminai minha cegueira com a claridade de vossa presença. Fazei que me seja amargo tudo o que é terreno, que leve com paciência as penas e contrariedades, e que despreze e esqueça todas as coisas caducas e criadas. Levantai o meu coração a vós no céu, não me deixeis vaguear na terra. Só vós, desde hoje para sempre, me sereis doce e agradável, porque só vós sois minha comida e bebida, meu amor e minha alegria, delícia minha e meu único bem.

A Cruz revela Deus e o homem

“A cruz é revelação. Não revela uma coisa qualquer, mas Deus e o homem.
Descobre quem é Deus e como é o homem. Na filosofia grega existe estranho pressentimento disto: a imagem do justo crucificado descrita por Platão. O grande filósofo pergunta qual seria a situação, neste mundo, de um homem totalmente justo. Chega ao resultado de que a justiça de um homem só se torna perfeita e comprovada, caso ele tome sobre si a aparência da injustiça, porque só então aparece que ele não segue a opinião dos homens, mas se coloca unicamente ao lado da justiça por ela mesma. Portanto, de acordo com Platão, o justo autêntico há de ser um incompreendido e perseguido; aliás, Platão não receia escrever: ‘Então hão de dizer que o justo, nestas circunstâncias, será flagelado, torturado, amarrado, que os olhos lhe serão vazados a fogo e, finalmente, após todos estes maus tratos, será crucificado...’. Este texto, escrito 400 anos antes de Cristo, sempre voltará a comover profundamente o cristão. Na seriedade da reflexão filosófica prevê-se que o justo perfeito no mundo deve ser o justo crucificado; pressentiu-se aí algo daquela revelação do homem que se realiza na cruz.

Pai Nosso

“Perguntamos: como é que Deus é Pai? E quais são nossas obrigações para com Ele devido à sua paternidade? Chamamo-lo Pai, por causa do modo especial com que nos criou. Criou-nos à sua imagem e semelhança, imagem e semelhanças estas, que não imprimiu em nenhuma outra criatura inferior ao homem. Não é ele teu Pai, teu Criador que te estabeleceu? (Dt 32, 6).
Deus merece também o nome de Pai, por causa da solicitude particular que tem para com os homens no governo do universo. Nada escapa ao seu governo, sendo este exercido de modo diferente em relação a nós e em relação às criaturas inferiores a nós. Os seres inferiores são governados como escravos e nós como senhores. Ó Pai, diz o livro da Sabedoria (14, 3), vossa providência rege e conduz todas as coisas; e (12, 18) a nós governa com indulgência.
Deus, enfim, tem direito ao nome de Pai, porque nos adotou. Enquanto não deu, às outras criaturas, senão pequenas dádivas, a nós fez o dom de sua herança, e isso porque somos seus filhos. São Paulo diz (Rm 8, 17): Porque somos seus filhos, somos também seus herdeiros, e ainda (vers. 15): Vós não recebestes um espírito de servidão, para recairdes no temor, mas recebestes um espírito de adoção, que nos faz clamar: Abba, Pai.”

(São Tomás de Aquino – O Pai Nosso e a Ave Maria: Sermões de São Tomás de Aquino)

O Paráclito

“O Espírito Santo, torna-nos filhos e filhas de Deus. Ele compromete-nos nesta mesma
responsabilidade de Deus pelo seu mundo, pela humanidade inteira. Ensina-nos a contemplar o mundo, o próximo e nós mesmos com os olhos de Deus. Nós realizamos o bem não como escravos, que não são livres de agir de outra forma, mas fazemo-lo porque temos pessoalmente a responsabilidade pelo mundo; porque amamos a verdade e o bem, porque amamos o próprio Deus e portanto também as suas criaturas. Esta é a liberdade verdadeira, para a qual o Espírito Santo nos quer conduzir¹”

“O Paráclito, primeiro dom concedido aos crentes, ativo já na criação, está presente em plenitude na vida inteira do Verbo encarnado: com efeito, Jesus Cristo é concebido no seio da Virgem Maria por obra do Espírito Santo; no início da sua missão pública, nas margens do Jordão, vê-O descer sobre Si em forma de pomba; neste mesmo Espírito, age, fala e exulta; e é n'Ele que Jesus pode oferecer-Se a Si mesmo. No chamado «discurso de despedida» referido por João, Jesus põe claramente em relação o dom da sua vida no mistério pascal com o dom do Espírito aos Seus. Depois de ressuscitado, trazendo na sua carne os sinais da paixão, pode derramar o Espírito, tornando os seus discípulos participantes da mesma missão d'Ele. Em seguida, será o Espírito que ensina aos discípulos todas as coisas, recordando-lhes tudo o que Cristo tinha dito, porque compete a Ele, enquanto Espírito da verdade, introduzir os discípulos na verdade total. Segundo narram os Atos, o Espírito desce sobre os Apóstolos reunidos em oração com Maria no dia de Pentecostes, e impele-os para a missão de anunciar a boa nova a todos os povos. Portanto, é em virtude da ação do Espírito que o próprio Cristo continua presente e ativo na sua Igreja, a partir do seu centro vital que é a Eucaristia²”

(Papa Bento XVI – 1 - HOMILIA NA VIGÍLIA DE PENTECOSTES Sábado, 3 de Junho de 2006; 2 - EXORTAÇÃO APOSTÓLICA SACRAMENTUM CARITATIS, 12)

Você é virtuoso?

Virtudes, Caridade, Fé, esperança, cristianismo, catolicismo, moral

“Se lhe fizessem essa pergunta a sua modéstia o faria responder: ‘Não, não de um modo especial’. E, no entanto, se você é batizado e vive em estado de graça santificante, possui as três virtudes mais altas: as virtudes divinas da fé, da esperança e da caridade. Se cometesse um pecado mortal, perderia a caridade (ou o amor de Deus), mas ainda lhe ficariam a esperança e a fé.

Em religião, a virtude se define como o ‘hábito ou qualidade permanente da alma que lhe dá inclinação, facilidade e prontidão para conhecer e praticar o bem e evitar o mal’. (…) Se adquirimos uma virtude por nosso próprio esforço, desenvolvendo conscientemente um hábito bom, denominamos natural essa virtude. (…) Mas Deus pode infundir na alma uma virtude diretamente, sem esforço de nossa parte. Pelo seu poder infinito, pode conferir a uma alma o poder  e a inclinação para realizar certas ações que são sobrenaturalmente boas. Uma virtude desse tipo – o hábito infundido na alma diretamente por Deus – chama-se sobrenatural. Entre estas virtudes, as mais importantes são as três a que chamamos teologais: a fé, esperança e caridade.

Elas, junto com a graça santificante, são infundidas em nossa alma pelo sacramento do batismo. mesmo uma criança, se estiver batizada, possui as três virtudes, ainda que não seja capaz de praticá-las enquanto não chegar ao uso da razão. E, uma vez recebida, não se perde facilmente. A virtude da caridade, a capacidade de amar a Deus com amor sobrenatural, só se perde pelo pecado mortal.”

(Pe. Leo Trese – A Fé Explicada, pp. 96-97) 

O martírio no cristianismo primitivo

“Desde o começo do cristianismo o martírio aparece como a forma mais eminente de santidade cristã. Por isso mesmo o exemplo dos que morrem fortalece a coragem dos que lutam. Aquele que morre, derramando seu sangue por Cristo e pela Igreja já tem a garantia de salvação porque, como diz o Livro do Apocalipse II ‘lavaram suas vestes no sangue do cordeiro’ (Ap 7,13).

Esta teologia sobre o martírio vai dar origem ao culto aos mártires. Todos os que morriam por Cristo passam a ser venerados e caso sofram e sobrevivam passam a gozar de um respeito especial pela comunidade.

Além desta veneração aos mártires passam a acontecer outras medidas de caráter prático e litúrgico: Culto às relíquias e reverência às sepulturas dos mártires com as celebrações sendo feitas sobre elas; Celebração do aniversário do martírio; Composição de obras especiais narrativas, chamadas de ATAS E MARTÍRIO que são cada vez mais divulgadas e propaga das entre os cristãos. Mais tarde surgirão inclusive Atas Apócrifas. (…) O culto aos mártires dará origem ao culto dos santos em geral, ficando o costume de celebrar determinado santo no dia de sua morte.

(…)

O heroísmo de tantos mártires não apenas prova a verdade do cristianismo e ação do Espírito que faz superem o poder humano, levando seres frágeis a enfrentar a morte. O martírio não edifica a Igreja apenas pelo seu testemunho, mas possui ainda um valor redentor, pois aquele que entrega a sua vida, voluntariamente, pelo outro associa-se à obra redentora de Jesus Cristo. Clemente de Alexandria vai dizer que o martírio é a ‘plenitude da caridade’ e sobre ela é que se edifica a Igreja. Assim é que entendemos o fato da Igreja ser renovada, ainda hoje, pelo sangue de tantos mártires que se entregam por Jesus e pelo seu reino. No tempo do Império Romano as perseguições e nem os outros obstáculos enfrentados foram capazes de esmorecer a Igreja na sua caminhada. Aos poucos ela vai se estruturando como que um “Estado dentro de outro estado”. Quando, mais tarde, as estruturas do Império Romano ruírem, a Igreja será a única instituição vitoriosa à sua queda.”

(Pe. Inácio Medeiros, cssr – Caminhando pela História da Igreja, I – História Antiga)

 
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