A Ciência Da Cruz

São Luiz Maria Grigion de Montfort, Cruz, Jesus, Ciência

“Amigos da Cruz, que estudais um Deus crucificado, o mistério da cruz é um mistério desconhecido dos Gentios, repelido pelos Judeus e desprezado pelos hereges e pelos maus católicos; é, porém, o grande mistério que deveis aprender praticamente, na escola de Jesus Cristo, e que somente em sua escola podeis aprender. Procurareis em vão, em todas as academias da antiguidade, um filósofo que vô-lo haja ensinado; consultareis em vão a luz dos sentidos e da razão; não há senão Jesus Cristo que, por sua graça vitoriosa, vos possa ensinar e fazer saborear este mistério.

Tornai-vos hábeis, pois, nesta ciência supereminente, sob a direção de tão grande mestre, e tereis todas as outras ciências, pois ela as contém a todas soberanamente. É ela a nossa filosofia natural e sobrenatural, nossa teologia divina e misteriosa, e nossa pedra filosofal, que muda, pela paciência, os metais mais grosseiros em metais preciosos, as dores mais agudas em delícias, as pobrezas em riquezas, as humilhações mais profundas em glórias. Aquele dentre vós que melhor sabe levar a sua cruz, mesmo que não conheça o A nem o B, é o mais sábio de todos.

Escutai o grande São Paulo, que ao voltar do terceiro céu, onde conheceu mistérios ocultos aos próprios Anjos, exclamava não saber e não querer saber senão Jesus Cristo crucificado. Regozijai-vos, pobre idiota, ou pobre mulher sem espírito e sem ciência: se souberdes sofrer alegremente, sabereis mais que um doutor da Sorbonne que não soube sofrer tão bem quanto vós...”

(São Luiz Maria Grignion de Montfort – Carta aos Amigos da Cruz, 26)

Uma nova criação

“[a morte de Cristo] foi o fim de algo muito grande chamado de história humana, a história que foi simplesmente humana. As mitologias e as filosofias foram ali sepultadas, os deuses e os heróis e os sábios. Na grande frase romana eles haviam vivido. Mas como só podiam viver, eles só podiam morrer; e estavam mortos.

No terceiro dia os amigos de Cristo vieram para o local ao romper da manhã e encontraram o túmulo vazio e a pedra removida. De várias formas eles perceberam a nova maravilha, mas até mesmo eles mal se deram conta de que o mundo havia morrido naquela noite. O que estavam comtemplando era o primeiro dia de uma nova criação, com um novo céu e uma nova terra; e sob as aparências do jardineiro, Deus novamente caminhava no jardim, no frio não da noite e sim da madrugada.”

(Gilbert K. Chesterton – O Homem Eterno)

Ele vive e venceu…

 

A Ele, o Cristo,
o Alfa e o Ômega,
o Começo e o Fim,
o Inenarrável Começo,
o Incompreensível Fim,
o Rei,
a Ele, Jesus,
o Chefe,
o Senhor,
O que ressurgiu dentre os mortos,
O que está assentado à direita do Pai,
O que conduz ao Pai e é conduzido pelo Pai,
a Ele, glória e poder pelos séculos. Amém.

(Melitão de Sardes)

Depois da Cruz

Bem mais do que o medo das perseguições e o remorso da consciência, o que atormentava os discípulo era a ideia de lhes ter sido arrancado para sempre aquele que acreditavam ser o Filho do Homem. Ele, que caminhara com eles pelos prados verdes ao longo das margens do seu lago; ele, que sabia ser tão amável e tão forte; ele, que curava qualquer doença com uma só palavra; ele, que anunciava a todos a verdade e que agora, não mais existia, o seu corpo jazia sem respiração. Jamais voltariam a ouvir aquelas suas palavras “Digo-vos a verdade…”, nunca mais veriam as suas mãos, observadas inúmeras vezes na hora de partir o pão…

O desalento tomara conta dos discípulos: Por que Deus o havia abandonado? Por que havia abandonado todos eles?

(…)

Ele estava morto, não como um sábio que conseguira superar o limite normal do sofrimento humano, vencendo a dor unicamente com a força do espírito… Não, ele sofrera de verdade, e gritara, como milhões de homens, como qualquer criança, ou pássaro ferido, como qualquer ser animado. Ninguém correra em seu socorro quando sangrava na cruz, nenhum anjo atenuara a sua agonia. Não erraram os que disseram: “Este aqui salvou os outros, mas não pode salvar a si mesmo”.

Será que tudo isto não significava que Jesus não era aquele em quem tinham acreditado? Que não era o salvador de Israel e do mundo inteiro? Por conseguinte, a fé que nele haviam depositado fora um logro, e quando Pedro declarou naquele dia “Tu é o Messias”, dissera palavras ocas, sem sentido…. Aquela era a derrota decisiva, total, irremediável. Caíam desgraçadamente as suas mais íntimas esperanças, os seus sonhos fúlgidos… Homem algum jamais experimentara desilusão tão esmagadora.

O que lhes restava fazer? Escapar, fugir o mais rápido possível daquela cidade funesta. Voltar para a Galileia, voltar para suas casas, para seus barcos. Esquecer aquele homem, que enganara a si mesmo. E os arruinara a eles, seus pobres e desiludidos seguidores.

(Pe. Aleksandr Mien – Jesus, Mestre de Nazaré)

Vexilla Regis

Avançam os estandartes do Rei:
O mistério da Cruz ilumina o mundo.
Na cruz, a Vida sustou a morte,
E na Cruz a morte fez surgir a vida.

Do lado ferido
pelo cruel ferro da lança,
para lavar nossas máculas,
jorrou água e sangue.

Cumpriram-se então
Os fiéis oráculos de David,
quando disse às nações:
Deus reinará desde o madeiro”.

Ó Árvore formosa e refulgente,
Ornada com a púrpura do Rei!
Tu foste digna de tocar
Tão nobres membros.

Ó Cruz feliz, porque de teus braços
Pendeu o preço que resgatou o mundo.
Tu és a balança onde foi pesado
o corpo que arrebatou as vítimas do inferno.

Salve ó Cruz, única esperança nossa,
Neste tempo de Paixão
aumenta nos justos a graça
e dos crimes dos réus obtende a remissão.

Ó Trindade, fonte de toda salvação!
Ó Jesus, que nos dás a vitória pela Cruz,
Acrescentai para nós
O prêmio de vossa celeste mansão. Amém.

Fonte: Orações e Milagres medievais

Eis o meu Servo…

O senhor

Eis que meu Servo prosperará, crescerá, elevar-se-á, será exaltado.

assim o admirarão muitos povos: os reis permanecerão mudos diante dele, porque verão o que nunca lhes tinha sido contado, e observarão um prodígio inaudito.

Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos.

Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele.

À sua vista, muitos ficaram embaraçados - tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana,

‘e não relutei, não me esquivei. Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros.

Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado; enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado.’

Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado.

Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas.

Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, seguíamos cada qual nosso caminho; o Senhor fazia recair sobre ele o castigo das faltas de todos nós.

Foi maltratado e resignou-se; não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. (Ele não abriu a boca.)

Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender sua causa, quando foi suprimido da terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo?

Foi-lhe dada sepultura ao lado de facínoras e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em sua boca nunca tenha havido mentira.

Mas aprouve ao Senhor esmagá-lo pelo sofrimento; se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, terá uma posteridade duradoura, prolongará seus dias, e a vontade do Senhor será por ele realizada.

Após suportar em sua pessoa os tormentos, alegrar-se-á de conhecê-lo até o enlevo. O Justo, meu Servo, justificará muitos homens, e tomará sobre si suas iniquidades.

Eis por que lhe darei parte com os grandes, e ele dividirá a presa com os poderosos: porque ele próprio deu sua vida, e deixou-se colocar entre os criminosos, tomando sobre si os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados.

 

(Isaias 50, 5-6; 52, 13-15; 53 adapt.)

Meu Deus, por que me abandonastes?

 

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? E permaneceis longe de minhas súplicas e de meus gemidos?

Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis; imploro de noite e não me atendeis.

Eu, porém, sou um verme, não sou homem, o opróbrio de todos e a abjeção da plebe.

Todos os que me vêem zombam de mim; dizem, meneando a cabeça:

‘Esperou no Senhor, pois que ele o livre, que o salve, se o ama.’

Sim, fostes vós que me tirastes das entranhas de minha mãe e, seguro, me fizestes repousar em seu seio.

Eu vos fui entregue desde o meu nascer, desde o ventre de minha mãe vós sois o meu Deus.

Não fiqueis longe de mim, pois estou atribulado; vinde para perto de mim, porque não há quem me ajude.

Cercam-me touros numerosos, rodeiam-me touros de Basã; contra mim eles abrem suas fauces, como o leão que ruge e arrebata.

Derramo-me como água, todos os meus ossos se desconjuntam; meu coração tornou-se como cera, e derrete-se nas minhas entranhas.

Minha garganta está seca qual barro cozido, pega-se no paladar a minha língua: vós me reduzistes ao pó da morte.

Sim, rodeia-me uma malta de cães, cerca-me um bando de malfeitores. Traspassaram minhas mãos e meus pés: poderia contar todos os meus ossos. Eles me olham e me observam com alegria, repartem entre si as minhas vestes, e lançam sorte sobre a minha túnica.

Porém, vós, Senhor, não vos afasteis de mim; ó meu auxílio, bem depressa me ajudai.

Livrai da espada a minha alma, e das garras dos cães a minha vida.

Salvai-me a mim, mísero, das fauces do leão e dos chifres dos búfalos.

(Salmo 21, 2-3. 7-22 ed. Ave Maria)

“Sabeis o que eu fiz para vós”

paixão de Cristo, cruz, amigos da cruz

“Deus, por compaixão conosco, não nos revela antes do tempo os sofrimentos que nos estão preparados. Se a um réu condenado à forca fosse revelado desde o uso da razão o suplício que o esperava, poderia ele ter um só dia de alegria? Se, desde o começo de seu reinado, fosse mostrada a Saul a espada que o deveria traspassar; se Judas previsse o laço que deveria sufocá-lo, quão amarga não lhes seria a vida! Nosso amável Redentor, desde o primeiro instante de sua vida, tinha diante dos olhos os açoites, os espinhos, a cruz, os ultrajes da sua paixão, a morte dolorosa que o esperava. Quando via as vítimas que eram sacrificadas no templo, sabia muito bem que todas elas eram figura do sacrifício que esse Cordeiro imaculado deveria consumar no altar da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém, sabia que aí deveria sacrificar sua vida num mar de dores e de vitupérios. Quando olhava para sua querida Mãe, já a imaginava agonizante ao pé da cruz, junto a si moribundo. E assim, meu Jesus, a vista horrível de tantos males em toda a vossa vida vos afligiu sempre e vos atormentou antes do tempo de vossa morte. E vós aceitastes tudo e sofrestes por meu amor.

(…)

Sabeis o que eu fiz para vós (Jo 13,12). Senhor, eu sei quanto fizestes e padecestes por meu amor, e vós sabeis que até agora nada fiz por vós. Meu Jesus, ajudai-me a sofrer qualquer coisa por amor de vós, antes de me atingir a morte. Eu me envergonho de aparecer diante de vós, mas não quero ser mais aquele ingrato que tenho sido para convosco há tantos anos. Vós vos privastes de todo o prazer por mim; eu renuncio por vosso amor a todos os prazeres dos sentidos. Vós sofrestes tantas dores por mim; eu quero sofrer por vós todas as penas de minha vida e minha morte. Vós fostes abandonado e eu consinto em ser abandonado por todos, para que vós não me abandoneis, meu único e sumo bem. Vós fostes perseguido e eu aceito toda sorte de perseguições. Vós finalmente morrestes por mim e eu quero morrer por vós. Ah! meu Deus, meu tesouro, meu amor, meu tudo, eu vos amo, dai-me mais amor.”

(Santo Afonso Maria de Ligório –  A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, I, III, 3 e 8)

“Dê-me de beber”

“Num domingo, ao olhar uma foto de Nosso Senhor na Cruz, fiquei impressionada com o sangue que caía de uma das suas mãos divinas. Senti grande aflição pensando que esse sangue caía no chão sem que ninguém se apressasse em recolhê-lo. Resolvi ficar, em espírito, ao pé da Cruz para receber o divino orvalho que se desprendia, compreendendo que precisaria, a seguir, espalhá-lo sobre as almas... O grito de Jesus na Cruz ressoava continuamente em meu coração: "Tenho sede!" Essas palavras despertavam em mim um ardor desconhecido e muito vivo... Queria dar de beber a meu Bem-amado e sentia-me devorada pela sede das almas... Ainda não eram as almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos grandes pecadores. Ardia do desejo de arrancá-los às chamas eternas...

(…)

Parecia-me ouvir Jesus dizendo como para a samaritana: "Dê-me de beber!" Era uma verdadeira troca de amor; às almas, eu dava o sangue de Jesus; a Jesus, oferecia essas mesmas almas refrescadas pelo seu divino orvalho. Dessa forma, eu parecia desalterá-lo e mais lhe dava de beber, mais a sede da minha pequena alma aumentava e era essa sede ardente que Ele me dava como a mais deliciosa bebida do seu amor...”

(Santa Teresa do Menino Jesus – História de uma alma)

 
Copyright © 2013 Amigos da Cruz