Todo teu

No Teu ventre lúcido, claro
Eu quero encerrar-me, ó Mãe.
E então dissipar minhas trevas
Em Tua puríssima Luz.

Eu quero ser nova semente,
Eu quero de Ti renascer.
E ser despertado para a vida
E a vida de Cristo viver.

Desenha em mim os Teus traços,
modela-me em Teu coração.
E o que desfigura a beleza,
Retira de mim com Tua mão.

Eu quero ser qual Teu Menino
Em Sua estatura crescer.
Eu quero ser todo teu, minha Mãe
Eu quero em teus braços viver

Todo teu, ó minha Mãe, quero ser.

Nicodemos Costa,
in álbum "Revelação", Comunidade Shalom

Prisioneiro do amor



Ah! Como é bom sentir a doce paz
E o amor que, suave, me leva a sorrir
É, você chegou. Qual ladrão me fitou
E roubou para si o meu coração.

E agora sem forças eu sou prisioneiro
Do mais belo amor
Do doce Jesus
Do meu bem da cruz,
Jesus

Nicodemos Costa
in álbum "Revelação", Comunidade Shalom

Que bom é contemplar o rosto do pequeno infante de Belém e perceber que Ele, já tão pequenino, nos  rouba o coração! Dele vê-se uma luz maravilhosa irradiar-se e atingir direto a nossa alma!
Como imaginar que este pequeno, anos depois, estará de braços abertos, deitado num outro madeiro que não o da manjedoura?
É que os dois Mistérios - o da Manjedoura e o da Cruz - são um único e mesmo Mistério: do amor de Deus por nós, da nossa Redenção. Adoremos o Cristo da gruta e o Homem do Calvário, no madeiro da menjedoura e no madeiro da Cruz. Amemos o Amor de Deus por nós.

Por que o Verbo se Fez carne?

O Verbo fez-Se carne para nos salvar, reconciliando-nos com Deus: «Foi Deus que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10). «O Pai enviou o Filho como salvador do mundo» (1 Jo 4, 14). «E Ele veio para tirar os pecados» (1 Jo 3, 5):
«Enferma, a nossa natureza precisava de ser curada; decaída, precisava de ser elevada; morta, precisava de ser ressuscitada. Tínhamos perdido a posse do bem; era preciso que nos fosse restituído. Encerrados nas trevas, precisávamos de quem nos trouxesse a luz; cativos, esperávamos um salvador: prisioneiros, esperávamos um auxílio; escravos, precisávamos dum libertador. Seriam razões sem importância? Não seriam suficientes para comover a Deus, a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar, já que a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz?» (80).
O Verbo fez-Se carne, para que assim conhecêssemos o amor de Deus: «Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele» (I Jo 4, 9). «Porque Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).

O Verbo fez-Se carne, para ser o nosso modelo de santidade: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim [...]» (Mt 11, 29). «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim» (Jo 14, 6). E o Pai, na montanha da Transfiguração, ordena: «Escutai-o» (Mc 9, 7) (81). De facto, Ele é o modelo das bem-aventuranças e a norma da Lei nova: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12). Este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos, no seu seguimento (82).


O Verbo fez-Se carne, para nos tornar «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4): «Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adopção divina, se tornasse filho de Deus» (83). «Porque o Filho de Deus fez-Se homem, para nos fazer deuses» (84). «Unigenitus [...] Dei Filias, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factos homo – O Filho Unigénito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses» (84).

80. São Gregório de Nissa, Oratio catechetica 15, 3: TD 7, 78 (PG 45, 48).
81. Cf. Dt 6, 4-5.
82. Cf. Mc 8, 34.
83.  Santo Ireneo de Lião, Adversus haereses 3, 19, 1: SC 211, 374 (PG 7, 939).
84. Santo Atanasio, De Incarnatione, 54, 3: SC 199, 458 (PG 25, 192B).
______________________
Fonte: Catecismo da Igreja Católica. §457-460.

Anjo do Menino Jesus



Ó Verbo de Deus, Glória do Pai,
Contemplava-Te no Céu.
Agora vejo-Te na terra
Feito mortal, o Altíssimo.

Criança cuja luz inunda
Os anjos da brilhante morada
Jesus, Tu vens salvar o mundo
Quem Teu amor compreenderá?

Ó Deus! No cueiro
Os anjos encanta
Verbo feito criança
Tremendo para Ti
Minha cabeça curvo.
Quem este mistério compreenderá?

Um Deus criança se faz?
Vem na terra exilar-se
Ele, o Eterno...O Onipotente!
Divino Jesus, Beleza Suprema
Quero responder ao Teu amor
Para provar como Te amo
Sempre sobre Ti velarei.

Santa Teresinha do Menino Jesus
apud cd "Em uma noite escura", irmã Kelly Patrícia.

Sermão de Natal

Seríamos levados antes a adiar nosso sermão, tal a sublimidade e o mistério do nascimento de Cristo. A Virgem deu à luz; quem o explicará? O Verbo se fez carne; quem explanará este mistério? Se o Verbo de Deus vagiu na boca de uma criança, como poderá falar dele o homem cheio de imperfeição? Mas como a estrela iluminou os magos em busca da Luz, assim a palavra do pregador deve dar a conhecer a seus ouvintes o nascimento de Deus, a fim de se regozijarem com o encontro de Cristo e, mais que perscrutarem seus divinos segredos, honrarem com dádivas o Menino-Deus. Orai, irmãos meus, para que se digne crescer, pouco a pouco, em minha palavra, aquele que aceitou crescer num corpo como o nosso.

O evangelista diz ter o anjo falado assim: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”. Não temas, Maria. E por quê? Porque achaste graça. Temer não é próprio de quem recebe, – é próprio de quem perde. Recebeste, concebendo, a graça do divino germe, e não perdeste o brilho de tua virgindade, ao entregá-la à luz. “Não temas, Maria”. Que pode temer a que concebe a segurança do mundo, a alegria dos séculos? Temor não existe, onde se trata de algo divino, não humano; onde há consciência de virtude, não de impureza. Que pode temer a mãe daquele a quem temem até os que infundem temor? Que pode temer aquela cujo assessor é o juiz da própria causa, e que tem sua integridade como testemunho de sua inocência? “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus”.

A Virgem acolheu em seu seio o Verbo divino, o qual, desde a eternidade, coexistia com Deus. Fez-se grandioso templo da Divindade, ela, morada humilde e humana. Aquele que não podia ser contido na pequenez do corpo humano, ia-lo na estreiteza do ventre virginal. “Eis que conceberás no ventre”. Bastaria ter dito: “conceberás “; por que acrescentou: “no ventre”? Para indicar ser real a concepção, não aparente; para atestar que o nascimento seria real, não fictício; para demonstrar que assim como Cristo, enquanto Deus, procede do verdadeiro Deus, enquanto homem tem um corpo que é fruto bendito da verdadeira concepção. É, pois, herético afirmar que Cristo tomou um corpo etéreo e apenas tenha aparentado a forma de homem. “Eis que conceberás no ventre e darás à luz um filho, ao qual chamarás Jesus”.

Em hebraico, “Jesus” significa “Salvador”. Com razão, pois, tudo está salvo na Virgem, quando ela gerou o Salvador de tudo. “chama-lo-ás Jesus”. Porque com este nome é adorada a majestade augusta da divindade; todos os que habitam os céus, os que povoam a terra, os que gemem nas profundezas do inferno prosternam-se ante esse nome e o adoram. Ouvi as palavras do Apóstolo: “Ao nome de Jesus se dobrará todo joelho, no céu, na terra e nos infernos” 1. É o nome que deu vista aos cegos, ouvido aos surdos, curou os coxos, deu fala aos mudos, vida aos mortos, libertou os possessos do demônio. Mas se o nome é tão sublime, quanto não o será o poder de seu dono? O mesmo anjo diz quem seja aquele que detém esse nome: “Ele será chamado Filho do Altíssimo”. Vede: o que a Virgem concebe não é germe da terra, mas do céu. A Virgem deu à luz e seu filho é o Filho de Deus! Portanto, os que pretendem encontrar algo de apenas humano nesse nascimento estão injuriando ao Altíssimo!

“E o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacó, e seu reino não terá fim”. São palavras que o herege procura toldar em favor de seu erro. “Eis, diz aqui, é o anjo quem fala: o Senhor Deus lhe dará… Então, não é maior aquele que dá do que aquele que recebe? E o que recebe, acaso já possuía o que recebe?”

Nós, porém, irmãos, escutemos tais palavras do anjo, não como os pérfidos hereges, mas como verdadeiros fiéis; sejam-nos fundamento para a fé, não pretexto para o erro. “O Senhor Deus lhe dará”. Que Deus? O próprio Verbo, que era, no princípio, Deus 2. A quem dará? Ao que se fez carne e habitou entre nós. Ouçamos ao Apóstolo, que diz: “Deus estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo” 3. Consigo, não com outro. Portanto, Deus, que estava em Cristo, se dava a si mesmo o reino, em Cristo, conferindo ao corpo assumido o que desde sempre possuía na divindade.

“Dar-lhe-á o Senhor Deus a sede de Davi seu pai”. Veja-se: quando recebe, chama-se filho de Davi; quando dá, Filho de Deus. Ele mesmo disse: “tudo o que o Pai tem é meu” 4. De onde, pois, vem essa necessidade de receber, se existe a posse de tal poder? “Tudo o que o Pai tem é meu”. Quem recebe o que já é seu? Porventura é graça de um doador aquilo que o receptor já possui? Confessemos que houve um receptor, mas foi o que nasceu, o que assumiu a carne e a infância, o que sofreu o presépio e os trabalhos da vida, o que sentiu fome e sede, o que não fugiu às injúrias, o que subiu à cruz e padeceu a morte, o que ingressou no sepulcro; a este atribui, ó herege, a recepção de algo! Por que pensas que Deus despreza receber a honra, se recebeu injúrias? Pensas que lhe aborrece receber do Pai um reino, ele que dos inimigos recebeu afrontas e até a morte? Herege, tudo o que é injúria, temporal, recebido, tudo o que importa diminuição e inclui a morte, entende não dizer respeito à divindade e sim ao corpo! Assim não farás injúria ao Filho, não colocarás distâncias na Trindade.

Mas voltemos ao nosso tema: “Dar-lhe-á o trono de Davi seu pai”. Aquele, pois, que no céu se assenta junto do Pai, na terra recebe o trono de Davi. Aquele que reinou sempre, reina com relação a nós, na herança de Davi, que assume para sempre. Alegremo-nos, amados irmãos, pois quem é, em si, o Rei, se digna reinar em nós. Regozijemo-nos, pois vem reinar na terra a fim de que nós possamos reinar no céu. Sim, escutai o Apóstolo: “se com ele sofrermos, cem ele reinaremos” 5. Nasceu para nós e vem a nós precisamente para isso: para nos dar um reino! Ele mesmo o prometeu, com as palavras: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a origem do mundo” 6. Preparado para vós, disse ele, não para mim. Virá para ficar sempre entre nós, para estar sempre ante nossos olhos aquele que agora só está em nosso coração. Virá trazer a confiança de sua familiaridade aos que participarão de seu reino. “E seu reino não terá fim!”

Alegrai-vos os que credes em sua vinda, porque vos prometeu um reino, onde os cargos são irremovíveis e as dignidades perpétuas. Quem não ambiciona o infinito? Quem prefere o perecível? Quem, comprando por ouro as honrarias passageiras, não deseja receber gratuitamente as eternas?

Irmãos meus, trata-se aí de cargos, de postos, de dignidades, sim, mas se não se der crédito à verdade do Evangelho não se obterão tais prêmios eternos. Se nos agrada o serviço de Cristo, se aspiramos militar sempre sob as suas ordens, armemo-nos com as armas de Cristo, vigiemos, sejamos sóbrios, vençamos o demônio, detestemos os vícios. Para podermos alcançar os prêmios e coroas de Jesus Cristo nosso Senhor, que com o Pai reina agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém. 

São Pedro Crisólogo, "Sermão de Natal" (P.L. 52, 585-588)

Antífonas O (III): O radix Jessé (Ó rebento de Jessé)

Ei-vos, pois, a caminho, ó Filho de Jessé, para a cidade de vossos antepassados. Ergueu-se a Arca do Senhor, e avança, portando em si o Senhor que nela está, em direção ao lugar onde poderá repousar.

Os Anjos vos escoltam, vosso fiel Esposo vos envolve com toda a sua ternura, o céu em vós se compraz, e a terra vibra sob o venturoso peso do seu Criador e de sua augusta Rainha. Avançai, ó Mãe de Deus e dos homens, Propiciadora toda-poderosa em quem está contido o divino Maná que salvaguarda o homem da morte! Nossos corações vos seguem, acompanham e, como vosso Real antepassado, nós juramos "que não entraremos em nossas casas, não nos deitaremos em nossas camas, não fecharemos nossos olhos, não daremos repouso às nossas têmporas, até que tenhamos encontrado em nossos corações uma morada para o Senhor que portais em vosso seio, uma tenda, para o Deus de Jacó."

Vinde, pois, assim velado pelas entranhas puríssimas do Arco sagrado, ó rebento, descendente de Jessé, até que possais surgir para brilhar diante dos olhos dos povos, como um estandarte vitorioso. Então, os reis vencidos calar-se-ão diante de vós, e as nações vos aclamarão. Apressai-vos, ó Messias! Vinde e vencei todos os nossos inimigos, e libertai-nos.

Dom Guéranger
L´année liturgique O ano litúrgico - Advento - XVII dezembro

Fonte: www.mariedenazareth.com

Antífonas O (II): O Adonai

Ò Senhor supremo! Adonai! Vinde remir-nos, não mais em vosso poder, mas na vossa humildade.

Vós, outrora, vos manifestastes a Moisés, vosso servidor, em meio a chamas divinas; surgindo do centro de raios e relâmpagos, destes a Lei a vosso povo: agora, não se trata mais de atemorizar, mas de salvar. Eis porque vossa mãe puríssima, Maria, tendo tomado ciência de que José, seu esposo, obedecendo ao edito do Imperador, deveria dirigir-se a Belém para o recenseamento, ocupou-se dos preparativos de vosso venturoso nascimento.

Ela preparou para vós, divino Sol, as humildes roupinhas que iriam cobrir a vossa nudez, protegendo-vos da frieza deste mundo que criastes, no momento em que estáveis por surgir, no centro da noite e do silêncio. É desta forma que vós nos liberais da servidão do orgulho que nos marca, e que vosso braço se mostra mais poderoso, embora parecendo mais frágil e inerte aos olhos dos homens.

Tudo está pronto, ó Jesus! Vossas roupinhas vos aguardam: parti depressa e vinde a Belém, para nos resgatar das mãos de nosso inimigo.

Dom Guéranger
L´année liturgique O ano litúrgico - Advento - XVII dezembro

Fonte: www.mariedenazareth.com

Antífonas O (I): O Sapientia

Ó Sabedoria incriada, que em breve se tornará visível ao mundo, que fique bem claro neste momento que vós dispondes de sobre todas as coisas! Eis que, por meio de vossa divina permissão, um edito do Imperador Augusto acaba de ser publicado, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Cada cidadão do Império deve registrar-se na própria cidade.

O príncipe, em seu orgulho, acredita ter enfraquecido toda a espécie humana em benefício próprio. Os homens, em todo o globo, se agitam, aos milhões, e atravessam o imenso mundo romano em diversos sentidos; eles pensam que estão obedecendo a um homem, mas é a Deus que o fazem.

Essa grande agitação tem um único objetivo: levar um homem e uma mulher que habitam humilde casa em Nazaré, da Galileia até Belém; isto para que a mulher, desconhecida entre os homens da terra, porém, querida do céu, tendo chegado ao final da gravidez - o nono mês após a concepção - venha dar à luz, em Belém, Àquele que fora exaltado nas palavras do Profeta: "E tu, (Belém) Efrata, posto que, pequena demais entre milhares de Judá, de ti sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade, ó Belém!..." (Mq 5, 1)

Ó sabedoria divina! Como sois forte, para assim chegar aos vossos objetivos de forma invencível, apesar de oculta aos homens! Como sois meigo, respeitando, sem qualquer violência, a liberdade deles! E, como sois paternal em vossa providência e precaução, para com as nossas necessidades! Escolhestes Belém para nascer, porque Belém significa a Casa do Pão. Assim, vós nos mostrais que vosso desejo é o de ser nosso Pão, nosso sustento e nosso alimento de vida. Alimentados por um Deus, não morreremos jamais.

Dom Guéranger
L´année liturgique O ano litúrgico - Advento - XVII dezembro

Fonte: www.mariedenazareth.com

Preparai os Caminhos do Senhor!

Dos Sermões de São Máximo de Turim (séc. V), bispo:

João não falava apenas do seu tempo quando anunciou o Senhor aos fariseus, dizendo: «Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as Suas veredas» (Mt 3,3). João brada hoje em nós, e o trovão da sua voz abala o deserto dos nossos pecados. Mesmo abafada pelo sono do martírio, a sua voz ressoa ainda e continua a dizer-nos: «Preparai os caminhos do Senhor, endireitai as Suas veredas».

João Batista ordenou, pois, que preparássemos os caminhos do Senhor. Vejamos que caminho preparou ele para o Salvador.

Desde o princípio, traçou e ordenou na perfeição o caminho para a chegada de Cristo, pois foi em todas as coisas sóbrio, humilde, contido e virgem. É ao descrever todas estas virtudes que o evangelista afirma: «João trazia uma veste de pêlos de camelo e um cinto de couro à volta da cintura; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre» (Mt 3,4). Que sinal maior de humildade pode haver num profeta do que o desprezo pelas vestes elegantes, em troca de pêlos rugosos? Que mais profundo sinal de fé pode haver do que estar sempre pronto, de rins cingidos, para desempenhar todas as tarefas servis? Que marca de abstinência mais notável pode haver, do que a renúncia às delícias desta vida, para se alimentar de gafanhotos e mel silvestre?

Todos estes comportamentos do profeta eram, a meu ver, proféticos em si mesmos. Que o mensageiro de Cristo se vestisse de pêlos de camelo significava, muito simplesmente, que Cristo, ao vir a este mundo, Se revestiria do nosso corpo humano, deste tecido grosso, enrugado pelos nossos pecados. O cinto de couro significa que a nossa frágil carne, orientada para o vício antes da vinda de Cristo, seria por Ele conduzida à virtude.

Fonte: Blog Visão Cristã

O Testemunho de João


Do Comentário ao Evangelho de São João, por São Tomás de Aquino (1225-1274), sacerdote teólogo dominicano e doutor da Igreja:
Toda a criatura foi feita para dar testemunho de Deus, visto que toda a criatura é como que uma prova da Sua bondade. A grandeza da criação testemunha à sua maneira a força e a onipotência divinas, e a sua beleza dá testemunho da divina sabedoria.
Certos homens recebem de Deus uma missão especial: dão testemunho de Deus não apenas de um ponto de vista natural, pelo fato de existirem, mas antes de maneira espiritual, pelas suas boas obras.
No entanto, aqueles que, não satisfeitos por receberem os dons divinos e por bem fazerem pela graça de Deus, comunicam os seus dons a outros através da palavra, de encorajamentos e de exortações, esses são ainda mais especialmente testemunhas de Deus. João é uma dessas testemunhas: ele veio para difundir os dons de Deus e anunciar os Seus louvores.
Esta missão de João, este papel de testemunha, é de uma grandeza incomparável, porque ninguém pode dar testemunho de uma realidade senão na medida em que dela participa. Jesus dizia: «Nós falamos do que sabemos e damos testemunho do que vimos» (Jo 3,11). Dar testemunho da verdade divina pressupõe que conhecemos essa verdade. Foi por isso que Cristo teve também um papel de testemunha. «Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade» (Jo 18,37).
Mas Cristo e João tinham esse papel de maneira diferente. Cristo tinha em Si mesmo essa luz: mais ainda, Ele era essa luz. Enquanto João apenas participava nela. É por isso que Cristo dá um testemunho completo, manifesta a verdade perfeitamente. João e os outros santos apenas o fazem na medida em que recebem esta verdade.
Missão sublime, a de João: implica a sua participação na luz de Deus e a sua semelhança com Cristo, que também Se empenhou nesta missão.






Lembrar-Vos-eis de mim, Senhora?

 
Dizei-me, Senhora, dizei-me:
Quando eu partir desta terra,
Lembrar-Vos-eis de mim?
Quando forem divulgados
Meus tempos no mal gastados
E todos os pecados
Que eu, mesquinho, cometi,
Lembrar-Vos-eis de mim?
Quando o momento chegar
Do juízo de aterrar,
Remédio espero alcançar
De vossos doces rogos:
Lembrar-Vos-eis de mim?
Quando estiver na afronta
De prestar rigorosa conta
Dos muitos bens que de Vós
E de vosso Filho recebi,
Lembrar-Vos-eis de mim?
Quando minha alma aterrada,
Temendo ser condenada
Por se ver muito culpada,
Tiver mil queixas de si,
Lembrar-Vos-eis de mim?
Dizei-me, Senhora, dizei-me:
Quando eu partir desta terra,
Lembrar-Vos-eis de mim?
 
(Tradução do poema "Dime, Señora", de Juan Álvarez Gato, 1445-1510)
Fonte: (Revista Arautos do Evangelho, Nov/2005, n. 47, p. 52)

Oração à Imaculada Conceição



Ó minha Senhora, minha Imaculada, alegro-me convosco por ver-vos enriquecida de tanta pureza. Agradeço e proponho agradecer sempre a nosso comum Criador por ter-vos ele preservado de toda mancha de culpa. Disso tenho plena convicção, e para defender este vosso tão grande e singular privilégio da Imaculada Conceição, juro dar até a minha vida. Estou pronto a fazê-lo, se preciso for. Desejaria que o mundo universo vos reconhecesse como aquela formosa aurora, sempre adornada da divina luz; como aquela arca eleita de salvação, livre do comum naufrágio do pecado; como aquela perfeita e imaculada pomba, qual vos declarou vosso divino Esposo; como aquele jardim fechado, que foi as delícias de Deus; como aquela fonte selada, na qual o inimigo jamais pôde entrar para turvá-la; como aquele cândido lírio, finalmente, que, brotando entre os espinhos dos filhos de Adão, enquanto todos nascem manchados da culpa e inimigos de Deus, vós nascestes pura e imaculada, amiga de vosso Criador.
Consenti, pois, que ainda vos louve, como vos louvou vosso próprio Deus; Toda sois formosas e em vós não há mancha. Ó pomba puríssima, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus! Dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria, vós que sois tão bela aos olhos do Senhor, não recuseis olhar com vossos piedosíssimos olhos as chagas tão asquerosas de minha alma. Olhai-me, compadecei-vos de mim, e curai-me. Ó belo irmã dos corações, atraí para vós também este meu miserável coração. Tende piedade de mim, que não só nasci em pecado, mas ainda depois do batismo manchei minha alma com novas culpas, ó Senhora, que desde o primeiro instante de vossa vida aparecestes bela e pura aos olhos de Deus. Que, graça vos poderá negar o Deus que vos escolheu para sua Filha, sua Mãe e sua Esposa, e por essa razão vos preservou de toda mancha? Virgem Imaculada, a vós compete salvar-me, dir-vos-ei com S. Filipe Néri. Fazei que me lembre de vós; e não vos esqueçais de mim. Parece tardar mil anos o momento de ir contemplar vossa beleza no Paraíso, para melhor louvar-vos e amar-vos, minha Mãe, minha Rainha, minha Amada, belíssima, dulcíssima, puríssima, imaculada Maria. Amém.
(Santo Afonso Maria de Ligório)

In Hoc Signo Vinces


“Cristo Jesus, que era de condição divina,
não Se valeu da sua igualdade com Deus,
mas aniquilou-Se a Si próprio.
Assumindo a condição de servo,
tornou-Se semelhante aos homens.
Aparecendo como homem,
humilhou-Se ainda mais,
obedecendo até à morte
e morte de cruz.
Por isso Deus O exaltou
e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes,
para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem
no céu, na terra e nos abismos,
e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor,
para glória de Deus Pai.” (São Paulo, Fl 2, 6-11)
 
Celebramos a festa da santa cruz, que dissipou as trevas e nos restituiu a luz. Celebramos a festa da santa cruz, e juntamente com o Crucificado somos elevados para o alto, para que, deixando a terra do pecado, alcancemos os bens celestes. Tão grande é o valor da cruz, que quem a possui, possui um tesouro. E chamo a justamente tesouro, porque é na verdade, de nome e de facto, o mais precioso de todos os bens. Nela está a plenitude da nossa salvação e por ela regressamos à dignidade original.
Com efeito, sem a cruz, Cristo não teria sido crucificado. Sem a cruz, a Vida não teria sido cravada no madeiro. E se a Vida não tivesse sido crucificada, não teriam brotado do seu lado aquelas fontes de imortalidade, o sangue e a água, que purificam o mundo; não teria sido rasgada a sentença de condenação escrita pelo nosso pecado, não teríamos alcançado a liberdade, não poderíamos saborear o fruto da árvore da vida, não estaria aberto para nós o Paraíso. Sem a cruz, não teria sido vencida a morte, nem espoliado o inferno.
Verdadeiramente grande e preciosa realidade é a santa cruz! Grande, porque é a origem de bens inumeráveis, tanto mais excelentes quanto maior é o mérito que lhes advém dos milagres e dos sofrimentos de Cristo. Preciosa, porque a cruz é simultaneamente o patíbulo e o troféu de Deus: o patíbulo, porque nela sofreu a morte voluntariamente; e o troféu, porque nela foi mortalmente ferido o demónio, e com ele foi vencida a morte. E deste modo, destruídas as portas do inferno, a cruz converteu se em fonte de salvação para todo o mundo.
A cruz é a glória de Cristo e a exaltação de Cristo. A cruz é o cálice precioso da paixão de Cristo, é a síntese de tudo quanto Ele sofreu por nós. Para te convenceres de que a cruz é a glória de Cristo, ouve o que Ele mesmo diz: Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele e em breve O glorificará. E também: Glorifica me, ó Pai, com a glória que tinha junto de Ti, antes de o mundo existir. E noutra passagem: Pai, glorifica o teu nome. Veio então uma voz do Céu: ‘Eu O glorifiquei e de novo O glorificarei’.
E para saberes que a cruz é também a exaltação de Cristo, escuta o que Ele próprio diz: Quando Eu for exaltado, então atrairei todos a Mim. Como vês, a cruz é a glória e a exaltação de Cristo.
(Santo André de Creta, Bispo-PG 97, 1018-1019.1022-1023) (Sec. VIII)

 
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