Aguardamos o Salvador


Justo é, irmãos, que celebreis com toda devoção o Advento do Senhor, deleitados por tanta consolação, assombrados por tanta dignidade, inflamados com tanta dileção. Porém, não penseis apenas na Primeira Vinda, quando o Senhor veio buscar e salvar o que estava perdido, mas também na Segunda, quando voltará e nos levará consigo. Oxalá façais objeto de vossas contínuas meditações estas duas Vindas, ruminando em vossos corações tanto o que nos deu na sua Primeira Vinda quanto o que nos prometeu na Segunda!
Chegou o momento, irmãos, de o juízo começar pela casa de Deus. Qual será o fim daqueles que não obedeceram o Evangelho de Deus? Qual será o juízo a que serão submetidos aqueles que neste juízo não ressuscitam? Porque aqueles que se mostram resistentes a deixarem-se julgar pelo juízo atual, no qual o chefe deste mundo é lançado fora, que aguardem, ou melhor, que temam o Juiz que lançará fora também a estes, juntamente com o seu chefe. Nós, ao contrário, se nos submetemos desde já a um juízo justo, aguardemos seguros um Salvador: o Senhor Jesus Cristo. Ele transformará a nossa condição humilde segundo o modelo da Sua condição gloriosa. Então os justos brilharão, de forma que poderão enxergar tantos os doutos quanto os ignorantes: brilharão como o sol no Reino de seu Pai!
Quando o Salvador vier, transformará a nossa condição humilde segundo o modelo da Sua condição gloriosa, desde que o nosso coração esteja previamente transformado e configurado à humildade do Seu coração. Por isso dizia também: "Aprendei comigo, que sou manso e humilde de coração". Percebei atentamente que nestas palavras existem dois tipos de humildade: a do conhecimento e a da vontade, chamada aqui "humildade de coração". Pela primeira, conhecemos o pouco que somos e aprendemos isso por nós mesmos, mediante a nossa própria fraqueza; pela segunda, pisoteamos a glória do mundo e aprendemos d'Aquele que se despojou de sua condição [de Senhor] e assumiu a condição de escravo; que procurado para ser proclamado rei, declinou para ser coberto de ultrajes e condenado ao ignominioso suplício da Cruz.
(São Bernardo de Claraval)

Levantai-vos, Soldados de Cristo!


Levantai-vos, soldados de Cristo!
Eia, avante! na senda da glória;
Desfraldai no pendão da vitória
O imortal Coração de Jesus.

Não nascemos senão para a luta;
De batalha amplo campo é a terra;
É renhida e constante esta guerra,
Apanágio dos filhos de Adão.

No combate esforçados, valentes.
Não temais, ó soldados de Cristo;
O triunfo será nunca visto,
Se souberdes cumprir Sua lei.

Amparai-vos no escudo da graça,
fortaleza circunde vossa alma;
Pela fé no senhor, vossa palma;
É segura na eterna mansão.

É Jesus nosso Rei soberano;
Seu amor de atrai-nos não cessa,
De vencer, dá-nos firme promessa,
E prepara fiel galardão.

Oh! segui este Rei tão amante
O estandarte divino, glorioso;
Contra as forças do inferno teimoso
Ele só à vitória conduz.

De Jesus Coração sacrossanto
Guardai pura esta santa bandeira
No combate esperança fagueira;
Do triunfo seguro penhor.

(Hino do Apostolado da Oração)

Como posso amar a Deus, se não O vejo?


Com efeito, ninguém jamais viu a Deus tal como Ele é em Si mesmo. E, contudo, Deus não nos é totalmente invisível, não se deixou ficar, pura e simplesmente, inacessível a nós. Deus amou-nos primeiro – diz a [primeira] carta de São João (4, 10) – e esse amor de Deus apareceu no meio de nós, fez-se visível quando Ele ‘enviou seu Filho Unigênito ao mundo, para que , por Ele, vivamos’ (1Jo 4, 9). Deus fez-se visível: em Jesus podemos ver o Pai (cf. Jo 14, 9). Existe, com efeito, uma múltipla visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos — até à Última Ceia, até ao Coração trespassado na cruz, até às aparições do Ressuscitado e às grandes obras pelas quais Ele, através da acção dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente. Também na sucessiva história da Igreja, o Senhor não esteve ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, através de homens nos quais Ele Se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. Na liturgia da Igreja, na sua oração, na comunidade viva dos crentes, nós experimentamos o amor de Deus, sentimos a sua presença e aprendemos deste modo também a reconhecê-la na nossa vida quotidiana. Ele amou-nos primeiro, e continua a ser o primeiro a amar-nos; por isso, também nós podemos responder com o amor. Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em nós próprios. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar o seu amor, e desta  ‘antecipação  de Deus’ pode, como resposta, despontar também em nós o amor.
No desenrolar deste encontro, revela-se com clareza que o amor não é apenas um sentimento. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor (…). O encontro com as manifestações visíveis do amor de Deus pode suscitar em nós o sentimento da alegria, que nasce da experiência de ser amados. Tal encontro, porém, chama em causa também a nossa vontade e o nosso intelecto. O reconhecimento do Deus vivo é um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade à d'Ele une intelecto, vontade e sentimento no acto globalizante do amor.
Mas isto é um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca está ‘concluído’ e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si próprio. Idem velle atque idem nolle — querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa é, segundo os antigos, o autêntico conteúdo do amor: um tornar-se semelhante ao outro, que leva à união do querer e do pensar. A história do amor entre Deus e o homem consiste precisamente no facto de que esta comunhão de vontade cresce em comunhão de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser para mim uma vontade estranha que me impõem de fora os mandamentos, mas é a minha própria vontade, baseada na experiência de que realmente Deus é mais íntimo a mim mesmo de quanto o seja eu próprio. Cresce então o abandono em Deus, e Deus torna-Se a nossa alegria (cf. Sal 73/72, 23-28).
Revela-se, assim, como possível o amor ao próximo no sentido enunciado por Jesus, na Bíblia. Consiste precisamente no facto de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que não me agrada ou que nem conheço sequer. Isto só é possível realizar-se a partir do encontro íntimo com Deus, um encontro que se tornou comunhão de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Então aprendo a ver aquela pessoa já não somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo é meu amigo. Para além do aspecto exterior do outro, dou-me conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de atenção, que eu não lhe faço chegar somente através das organizações que disso se ocupam, aceitando-o talvez por necessidade política. Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necessárias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa. Aqui se vê a interacção que é necessária entre o amor a Deus e o amor ao próximo, de que fala com tanta insistência a I Carta de João. Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e não consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a atenção ao outro, importando-me apenas com ser ‘piedoso’ e cumprir os meus ‘deveres religiosos’, então definha também a relação com Deus. Neste caso, trata-se duma relação ‘correcta’, mas sem amor. Só a minha disponibilidade para ir ao encontro do próximo e demonstrar-lhe amor é que me torna sensível também diante de Deus. Só o serviço ao próximo é que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama. Os Santos — pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcutá — hauriram a sua capacidade de amar o próximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucarístico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no serviço deles aos outros. Amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis, constituem um único mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, já não se trata de um ‘mandamento’ que do exterior nos impõe o impossível, mas de uma experiência do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce através do amor. O amor é ‘divino’, porque vem de Deus e nos une a Deus, e, através deste processo unificador, transforma-nos em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja ‘tudo em todos’ (1 Cor 15, 28).”
Bento XVI. Carta Encíclica Deus caritas est, n. 17 e 18.


Cristo, o único mediador


(…)
Como nos amaste, Pai Bondoso! Não poupando Teu Filho único, o entregaste por nós pecadores! Oh, como nos amaste! Foi por amor a nós que Teu Filho, que não considerava rapina o ser igual a Ti, submeteu-se até a morte de cruz. Ele era o único livre entre os mortos, tendo o poder de dar a sua vida e  novamente retomá-la. Por nós se fez diante de Ti vencedor e vítima; e tornou-se vencedor porque era vítima; por nós, diante de ti, se fez sacerdote e sacrifício, e sacerdote porque Ele era o sacrifício; de escravos, fez de nós Teus filhos; nascido de Ti se fez nosso escravo. Com razão ponho Nele a firme esperança que curarás todas as minhas enfermidades  por intermédio Dele, que está sentado à Tua direita e intercede por nós junto de Ti. De outro modo desesperaria, pois são muitos e grandes meus males; porém mais poderoso é o poder do teu remédio. poderíamos pensar que Teu Verbo estava muito longe para se unir ao homem, e se desesperar de nós, se Ele não se tivesse feito carne, habitando entre nós.
(…) Cristo morreu por todos, para que os viventes já não vivam para si, mas para aquele que morreu por eles.
Eis, Senhor, que lanço em Ti os cuidados da minha vida, e contemplarei as maravilhas de Tua lei. Conheces minha ignorância e minha fraqueza: ensina-me, cura-me. Teu Filho único, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, me remiu com seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque eu conheço bem o preço da minha redenção. Como o Corpo e bebo o Sangue  da vítima redentora, distribuo-o aos outros; pobre, desejo saciar-me dela em companhia daqueles que a comem e são saciados. E louvarão ao Senhor os que O buscam!
AGOSTINHO, Santo. Cristo, o único mediador. In: Confissões. São Paulo: Martin Claret, 2002. p. 254-255.

Por que os cristão são amigos da Cruz?



Chamai-vos Amigos da Cruz. Como é grande este nome! Confesso-vos que ele me encanta e deslumbra. É mais brilhante do que o sol, mais elevado que os céus, mais glorioso e mais pomposo que os títulos mais magníficos dos reis e dos imperadores. É o grande nome de Jesus Cristo, a um tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem; é o nome inequívoco de um cristão.
Entretanto, se seu brilho me encanta, seu peso não me espanta menos. Quantas obrigações indispensáveis e difíceis contidas neste nome e expressas por estas palavras do Espírito Santo: ‘Sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, um povo que Deus formou’ (I Pedro, 2,9).
Um Amigo da Cruz é um homem escolhido por Deus, entre 10 mil que vivem segundo os sentidos e a razão para ser unicamente um homem todo divino e elevado acima da razão, e todo em oposição aos sentidos, por uma vida e uma luz de pura fé e por um amor ardente pela Cruz.
Um Amigo da Cruz é um rei todo-poderoso e um herói triunfante do demônio, do mundo e da carne em suas três concupiscências. Pelo amor às humilhações, esmaga o orgulho de Satanás; pelo amor à pobreza, triunfa da avareza do mundo; pelo amor à dor, amortece a sensualidade da carne.
Um Amigo da Cruz é um homem santo e separado de todo o visível, cujo coração está acima de tudo quanto é caduco e perecível, e cuja conversa está no Céu; que passa pela Terra como estrangeiro e peregrino; e que, sem lhe dar o coração, a contempla com o olho esquerdo e com indiferença, calcando-a com desprezo aos pés.
Um Amigo da Cruz é uma ilustre conquista de Jesus Cristo crucificado no Calvário, em união com sua Santa Mãe; é um Benoni ou um Benjamim, filho da dor e da dextra, gerado em seu dolorido coração, vindo ao mundo por seu lado direito atravessado e coberto da púrpura de seu sangue. Dada a sua extração sangrenta, só respira cruz, sangue e morte ao mundo, à carne e ao pecado, para estar totalmente oculto, aqui na Terra, com Jesus Cristo em Deus.
Enfim, um perfeito Amigo da Cruz é um verdadeiro porta-Cristo, ou antes, um Jesus Cristo, de maneira que possa, em verdade, dizer: ‘Vivo, mas não eu, é Jesus Cristo que vive em mim’ (Gal. 2, 20).
Sois, por vossas ações, meus queridos Amigos da Cruz, aquilo que vosso grande nome significa? Ou, pelo menos, tendes verdadeiro desejo e vontade verdadeira de assim vos tornardes, com a graça de Deus, à sombra da Cruz do Calvário e de Nossa Senhora da Piedade? Entrastes no verdadeiro caminho da vida, que é o caminho estreito e espinhoso do Calvário? Não estareis, sem o pensar, no caminho largo do mundo, que é o caminho da perdição? Sabeis bem que há um caminho que parece ao homem reto e seguro, e que conduz à morte?.
(São Luiz Maria Grignion de Montfort)

______________________
Fonte: http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=714BE63B-3048-560B-1C5922C848A5399C&mes=Fevereiro1999

 
Copyright © 2013 Amigos da Cruz